Arquivo para Março, 2008

EUA seguem cartilha do “Consenso de Beijing”

O Secretário do Tesouro norte-americano anunciou hoje um grande plano de reforma no sistema de regulamentação financeira estadunidense, o maior desde a Grande Depressão de 1929. Este esquema é consequência da grave crise pela qual o país vem passando e que teve origem nos empréstimos subprime. Aliás, a crise em si é decorrência de uma falta de regulação mais pesada sobre os produtos bancários e fundos de investimento, até porque estes estavam bastante alavancados em operações que envolviam as hipotecas de má qualidade.

A idéia é melhorar os controles sobre todos os negócios existentes no sistema financeiro, desde bancos até as ditas cujas hipotecas. Isto faz total sentido pois como foi provado nesta crise do subprime todas as peças deste sistema estão intrinsecamente ligadas. Como exemplo disso, podemos tomar todos os grandes conglomerados financeiros americanos que assumiram perdas astronômicas em seus balanços recentemente.

Entre as medidas anunciadas, conforme a matéria do Estadão, estão as seguintes:

  • maior poder ao Federal Reserve para proteger a estabilidade do sistema financeiro, enquanto que a supervisão bancária diária estaria a cargo de uma agência, e não de cinco, como acontece atualmente;
  • criação de uma super agência encarregada da conduta empresarial e da proteção dos consumidores, a qual realizaria muitas das funções da atual Comissão de Valores e Câmbio;
  • eliminação do caráter federal das poupanças, desdobrando a Agência de Supervisão de Instituições de Poupança – Office of Thrift Supervision – ao órgão regulador bancário nacional, a Autoridade Controladora da Moeda;
  • criação de uma Comissão federal de Originação Hipotecária que estabeleça padrões mínimos recomendados para corretores de hipotecas, muitos dos quais operam atualmente fora da regulamentação federal; também dar os primeiros passos para um regulação federal da indústria de seguros dentro do Departamento do Tesouro.

O problema desta reforma é que ela está sendo proposta no apagar das luzes do governo Bush. Como ela deverá ser amplamente debatida no Congresso e o mesmo já está bastante envolvido na corrida eleitoral, provavelmente a implementação destas medidas, se aceitas, só ocorreria no mandato do próximo presidente. Os Democratas já reclamaram do plano, dizendo que ele não é tão profundo para lidar com a problemática atual existente.

Pelo visto, os yankees estão tentando de tudo para resolver a crise financeira que estão vivendo. Queda acentuada de juros, troca de títulos do Tesouro por outros atrelados às hipotecas podres, saneamento do sistema financeiro e agora um plano para melhorar a estrutura do mesmo.

Aliás, se não me engano, o ilustre economista John Kenneth Galbraith escreveu no livro “1929 – O Colapso da Bolsa” que um dos motivos da bolha de 29 foi justamente a falta de controles existentes no sistema financeiro. Ele até dizia que a crise dos anos 80 (a edição que eu li era desta época) não tinha o mesmo caráter da de 29 justamente porque o sistema já estava mais protegido, com instituições mais sólidas para salvaguardá-lo. Ao que parece, na atual crise, a história é diferente. Ex-ante é sempre difícil saber quais tipos de controle criar e o que deve ser analisado com mais cuidado. É só depois da vaca ir pro brejo que você identifica exatamente o que ocorreu. Porém não se pode negar que o Fed foi leniente com os hedge funds e com os próprios bancos com relação à quantidade de produtos bancários criados. Enfim, percebe-se nitidamente que, independente da análise que é feita sobre a crise, chega-se à conclusão que o mercado tem uma capacidade muito pequena de se auto-regular.

Pelo menos os EUA estão tentando cumprir os preceitos do “Consenso de Beijing”, principalmente o quinto deles: “estabelecimento de maiores controles nos mercados bancário, acionário e de derivativos”. O grupo de países do BRIC, capitaneados pela China, começa a se mostrar simpático às medidas adotadas pelos norte-americanos. Porém a primeira e a segunda medidas propostas pelo Consenso (“Rigorosa disciplina fiscal” e “Reorientação dos gastos públicos”) ainda não foram adotadas, o que torna a situação um pouco mais complicada. Talvez a China dê um desconto para os EUA, pois eles estão em ano de eleição e todos sabem as complicações que existem em períodos como esse. Vamos então à mesa de discussões!

A cansada Ivete me cansou

ivete.jpgOntem fui no show da Ivete Sangalo em Jundiaí. Não, não virei fã do axé music. Aliás, odeio tal ritmo. Mas não fui no show pra ouvir música. Fui pra zuar mesmo. Ainda mais porque fui intimado a ir (hehehe). Pula pra lá, pula pra cá e assim vamos todos. Panis et circenses e fim de papo.

Pô rapaz, incrível, o show da muié é bom mesmo. Tava um puta frio ontem à noite mas na hora que Ivetinha subiu no palco era impossível ficar parado. Ela canta, dança, anima, parece uma máquina. E sem nenhum incômodo com a friaca. Ela e as outras meninas que estavam na pista (aliás, haja fogo hein meninada? pqp, a temperatura a 16°C e as mulheres todas de shortinho e decote… ê, loucura!).

Não sei quantas mil pessoas foram no show. O chão era de terra batida. Ivete entrou cantando “Poeira” e eis que a poeira realmente levantou na arena. E assim foi durante todo o espetáculo. Em determinado momento, quando você se vê cantando todas as músicas de cor e salteado, mesmo sem ter CD da Ivete nem curtir o som dela, você percebe que ela é a maior hitmaker brasileira dos últimos anos.

“Loucura, loucura”, como diria o também cansado Huck. Descanso para algumas músicas românticas, ápice com “Se eu não te amasse tanto assim”. A galera dá uma esfriada. E eis que Ivetinha puxa outros axés… Eita, êxtase geral. Beijos a torto e orto. Delírio coletivo. Acaba o show e o bis traz outra alegria generalizada. Como disse, panis et circenses e só isso.

Aliás, eu só queria isso mesmo. Boa capitalista essa tal de Sangalo: entrega o que promete, no prazo certo!

É, foram 2 horas de pura alegria, esquecendo todos os problemas do mundo. Inclusive os que a cansada Ivete reclamou tanto ano passado. Na verdade, cansado e quebrado estou eu hoje. Graças a você, Ivetinha! Pronto, cansei também! :)

Um doping tecnológico?

natacao_michaelphelps_11.jpgO mundo da natação está em polvorosa: só nesta semana (24-28/03), 6 recordes mundiais foram quebrados, sendo que três vezes da categoria mais rápida do esporte, os 50m rasos. Só em 2008, 17 recordes foram para o espaço. A discussão em si está sendo causada porque a grande maioria destes recordes (16) foram obtidos com o novo traje da marca Speedo – o Fastskin LZR Racer (na foto, Michael Phelps usando o uniforme). Tal macacão foi desenvolvido pela empresa numa parceria com a Nasa.

O que há de tão inovador neste macacão? Segundo Agnaldo Pescelaro, coordenador do curso de tecnologia têxtil da Fatec/SP, a roupa “gruda de uma forma no corpo que elimina o atrito. Com certeza quem não o utilizar terá uma desvantagem, não há dúvidas”. Ainda, segundo o professor, “é como num Fórmula 1. Estão tirando os pontos de turbulência, de resistência, transformando tudo em velocidade, até peso menor e o fato de se ajustar ao corpo. Com isso, o nadador economiza energia com a diminuição da vibração da musculatura e leva vantagem”. 5% a menos de atrito é o que proporciona o Fastskin.

Um dos indicativos claros da melhora proporcionada por este macacão vem da prova dos 50m rasos (a mais rápida de todas, como já tinha dito). Até fev/08, o recorde da prova pertencia ao grande nadador russo Alexander Popov. Ele tinha quebrado o recorde em junho de 2000, com a marca de 21s64. Quase 8 anos depois, este tempo foi baixado quatro vezes num intervalo de pouco mais de um mês: em 17/02, Eamon Sullivan (Austrália), fez 21s56; em 23/3, Alain Bernard (França), fez 21s50; em 27 e 28/03, Sullivan novamente fez 21s41 e 21s28. Ou seja, um recorde que perdurava por 8 anos foi “destroçado” em 40 dias.

A empresa diz não temer uma reavaliação da Fina (Federação Internacional de Natação) sobre o uniforme. O sítio da Speedo inclusive está fazendo a pré-venda do uniforme e diz que o disponibilizará a quem quiser.

Creio que o traje seja bem-vindo, até porque se não tivéssemos tido inovações/evoluções nas roupas, até hoje as corridas de atletismo, por exemplo, seriam feitas com “semi-calças”. É bobeira comparar o nadador que usa este macacão com o Popov ou com o Gustavo Borges, que não tinham tal instrumento na época. Com certeza um manezão como eu (nado horrivelmente mal) não quebrará recordes mundiais usando este uniforme. Quem está fazendo novas marcas tem talento e é bom. Não é o uniforme que está transformando o cara numa flecha; ele já é assim. Então, nada de tirar o mérito destes carinhas.

O problema é só o seguinte: ou se dá o uniforme pra todo mundo ou ninguém usa. Aí, não tem discussão. Se a tal roupa tem uma eficácia maior comprovada por a mais b, quem não a estiver usando vai sair perdendo. Será uma espécie de “doping tecnológico” a favor do cara que tiver o traje. Ou como na Fórmula 1, onde, atualmente, não temos como comparar os pilotos entre si: a Ferrari é absurdamente mais rápida que a Toro Rosso, por exemplo. Mesmo que um cara desta equipe seja realmente bom, ele nunca competirá em igualdade de condições com alguém da primeira.

Só pra encerrar, aqui no Brasil se discute tudo menos a nossa capacidade de inovar e de fazer Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Vejam o exemplo deste uniforme: a empresa precisou da ajuda da Nasa (bom lembrar, órgão governamental) para fazê-lo. E a agência espacial já contribuiu para várias inovações que ocorreram na indústria norte-americana. Algo semelhante já ocorreu ou ocorre no Brasil (com a Embrapa, a Embraer e a Petrobrás, por exemplo), mas ainda é um movimento bem limitado. O nosso país faz bastante pesquisa básica (a grande maioria nas universidades), mas ainda não faz de forma expandida a ligação com a iniciativa privada, através da pequisa experimental e do desenvolvimento tecnológico. Estas são as três etapas da P&D. Ou seja, o conhecimento gerado não se transforma em produtos tangíveis que darão competitividade e vantagens comparativas ao país perante o mundo.

A Petrobras, por exemplo, recebe royalties da sua tecnologia de exploração de petróleo em plataformas submarinas. Ela desenvolveu e quem quiser usar tem que pagar pra ela. É uma pena que seja um caso quase isolado. E que, para ter ocorrido, precisou de muita grana investida, com a ajuda do Estado. Atualmente, a corrida pelas inovações em escala “nano” já está correndo e o Brasil está ficando para trás. Problemas futuros ocorrerão por causa disso, podem apostar. Principalmente na nossa balança comercial.

Esse negócio de P&D, nanotecnologia e inovação é tão complexo que precisa de ‘n’ posts para que tratemos adequadamente do tema. Por enquanto, fiquemos por aqui.

UPDATE: Mal escrevi o post e mais um recorde foi quebrado. Libby Trickett fez o melhor tempo nos 50m rasos feminino, 23s97. Veja aqui uma matéria com a opinião de dos brasileiros sobre o traje “espacial”.

A Arte do Videoclipe – Megalomaníacos

Hoje apresentarei um clipe bem bacana da banda “Incubus”, a qual você provavelmente deve ter ouvido falar muito pouco. Este grupo faz parte do cenário de rock alternativo norte-americano, apesar de agora contarem com uma grande gravadora. Têm uma sonoridade bacana, misturando vários ritmos e inclusive contando com um DJ nos seus quadros. Mas pode ficar tranquilo, que é rock na veia. Se você nunca ouviu nada da banda, comece com o excelente álbum “A crow left of the murder…”.

Aliás, é deste álbum que eu tiro o videoclipe desta semana: “Megalomaniac”. Esta música foi lançada em 2003 e deu um bafafá do caramba na época. Você perceberá quando vir o clipe. Na primeira parte, colagens na tela e imagens chapadas mostram um ditador “bombardeando” a galera. Este cara é o Hitler. Aí aparece a banda tocando durante um tempinho. Após isso, vê-se um cara no palanque falando com a eloquência de um autoritário: ele é bastante semelhante a George W. Bush. Do palanque, ele manda descer a borrachada nos manifestantes e depois revela-se uma verdadeira águia devoradora de peixes. Clara alusão ao presidente e ao império norte-americano.

Lembrem-se que o 11 de setembro tava fresquinho na memória dos yankees em 2003 ainda. George W. Bush tinha um nível razoável de aprovação. Por essas e outras, a MTV dos EUA (que, apesar da fachada liberal, é conservadora à beça) baniu o videoclipe da sua programação normal. “Megalomaniac” só era visto de madrugada. Nada é à toa: nas entrelinhas, dá para perceber mesmo que o filminho compara sim Bush a outros ditadores (imagens de Stálin e de Mussolini também aparecem).

A diretora do clipe, Floria Sigismundi, segundo o que pesquisei, utilizou nas imagens muito da influência das foto-colagens anti-nazistas do artista alemão John Heartfield. São estas colagens misturadas com cenas filmadas que tornam o clipe visualmente bacana e bem-feito. Quem não gostou provavelmente foram os megalomaníacos do mundo. Principalmente aquele que está sentado na cadeira da presidência norte-americana.

Aproveitem então “Megalomaniac”. E, para não frustrar os fãs da banda, tenho aqui o link para outro grande videoclipe deste mesmo álbum: “Talk shows on mute” (inspirado livremente no “A Revolução dos Bichos”, do George Orwell).

King Kong na Vogue?

cover_vogue.jpg

A capa acima da revista de moda Vogue está causando uma bela discussão nos EUA. E daquelas que dá briga feia porque mexe com questões raciais. Isto porque alguns críticos dizem que a imagem é uma clara alusão ao filme “King Kong”, com o jogador de basquete LeBron James fazendo o “papel” do macacão e a modelo brasileira Gisele Bundchen sendo a mocinha loira indefesa que se apaixona pela besta.

É a primeira vez que um negro aparece na capa da Vogue e isso foi amplamente divulgado pela revista. O que ajuda a tese dos críticos de que houve premeditação na possível forma preconceituosa como o jogador foi retratado. Sua pose na foto inclusive iria neste sentido.

Obviamente uma foto sempre tem uma mensagem subliminar envolvida, ainda mais quando é feita por uma fotógrafa experiente (Annie Leibovitz) e para uma revista tarimbada como a Vogue. Levando em conta isso, a referência a “King Kong” é nítida, na minha opinião. Só não sei se isso foi feito de uma maneira negativa. LeBron é mostrado na foto como a “fera” justamente porque o cara representa isso no esporte que pratica. Ou alguém por aí acha que as enterradas ignorantes que ele dá são sublimes e singelas?

Se você perguntar o que ele acha da foto, provavelmente dirá o seguinte: “eu sou o maior mesmo e pego todas as loirinhas que aparecerem no meu caminho! Yeah!”. Acho só que é isso que pode se concluir da foto. A bela e a fera, simples assim. Porém respeito quem pensa de outra forma, até porque preconceito é uma coisa muito séria. Mas reafirmo: não acho que a capa da Vogue seja preconceituosa não. Aliás, até acho que ela foi bem feita. E tenho dito.

Mao, Deng, Revolução Cultural e Paraolímpiadas

Calma, calma, não fiquei louco não. O título do post tem todo um sentido. Vi há pouco uma notícia bem interessante. Um senhor chamado Deng Pufang, presidente da Federação Chinesa dos Deficientes Físicos, é um dos organizadores das Paraolímpiadas 2008, as quais começarão em setembro, após os Jogos Olímpicos. O interessante é que Pufang é filho de Deng Xiaoping (segundo líder chinês após a Revolução de 49) e não nasceu paraplégico. Ele ficou nesta condição durante a Revolução Cultural do Mao Tsé-Tung (que durou de 66 a 76).

Como? Aparentemente ele caiu numa depressão ferrada depois da perseguição que sofreu durante o início da Revolução. Era estudante de física nuclear e provavelmente foi obrigado a ir para o campo para se reeducar. Fora isso, deve ter sido obrigado a fazer confissões de culpa totalmente absurdas na frente de vizinhos e amigos, sendo achincalhado por pivetes que esbravejavam com o livrinho vermelho de Mao na mão. Tentou se suicidar e acabou ficando paraplégico. Como ele mesmo diz,

Eu era bastante revolucionário naquele tempo, mas minha vida e minha carreira se acabaram quando me acusaram de contra-revolucionário. Era muito frustrante. Eu pensava que era meu fim.”

A matéria do UOL que linkei não diz nada sobre o que escrevi no parágrafo anterior. Mas quando digo que o que escrevi acima muito provavelmente ocorreu é porque li e vi nos últimos meses um número razoável de coisas sobre a história recente da China. Principalmente sobre a emblemática figura de Mao Tsé-Tung. O pai de Pufang, Deng Xiaoping, foi absurdamente perseguido durante a Revolução Cultural. Aliás, tal período surgiu como uma forma do Mao retomar o poder do país porque, de fato, ele era um fantoche desde o desastre do “Grande Salto para a Frente” (58). Entre este período e a Revolução Cultural, alguns membros do Partido Comunista (PC), entre eles Deng, tocaram o país até bem e escantearam o economicamente desastrado Mao (no “Grande Salto…” milhões de pessoas morreram de fome com a loucura do cara de querer fazer da China o maior produtor de aço do mundo).

Foram todos escurraçados depois. Deng foi um dos mais massacrados. Um cara que tinha uma baita capacidade econômico-administrativa como ele foi mandado para o mato para se “reeducar”. Passou por privações e tudo. Não foi à toa que o PC colocou o comando do partido nas mãos dele após a morte de Mao. E, apesar de toda a repressão política que encampou (incluindo aí o Massacre da praça Tiananmen), foi Deng que iniciou este processo de aceleração econômica vivido pela China até os dias atuais. De forma bem pragmática. Como ele dizia, “não importa a cor dos olhos do gato, importa que apanhe os ratos”. Era o tal do socialismo de mercado tal como conhecemos hoje.

Se tem uma coisa que com certeza foi desastrosa para o mundo no século XX, essa coisa foi a tal da Revolução Cultural. Isso aí dividiu famílias, rachou a sociedade chinesa ao meio, fez muita gente se suicidar e ficar louca, inverteu valores, glorificou a ignorância, etc. Se você quiser saber um pouquinho mais desta história, recomendo-lhe:

  • o livro “Cisnes Selvagens”, de Jung Chang. Aliás, quando tiver um pouco mais de tempo, resenho este livro por aqui. Excelente obra. Explica na prática (através da vivência pessoal da autora) como os atos horrendos de Mao afetaram a sociedade chinesa;
  • o filme “Balzac e a costureirinha chinesa”. Focado na Revolução Cultural, mostra a relação entre dois estudantes universitários que vão para o campo para se “reeducarem” e uma camponesa, através do encanto que eles têm com as obras de Balzac;
  • o filme “O Último Imperador”. Na parte final, mostra um pouco da Revolução. Mas esta obra do Bertolucci é interessante mesmo para compreender o que foi a China até os anos 60 sob a ótica de Pu Yi (o último imperador).

Nem sei se Deng Pufang é ou não um cara honesto e íntegro (não vou ficar caçando isso e aliás acho que nem tenho como encontrar tais informações). Mas ele é um exemplo de como a China de hoje ainda carrega cicatrizes muito fortes da época de Mao. Não é por nada que o assunto Revolução Cultural é tabu por lá: provavelmente as pessoas que viveram aquilo têm vergonha de si próprias por terem se deixado levar por uma ignorância coletiva. E se tem uma coisa que o Deng Xiaoping fez certo depois que assumiu o poder foi não promover uma nova “caça às bruxas”. O que passou, passou, vamos tocar nossas vidas. E assim a China começou a trilhar o caminho para ser a potência que é hoje.

Refrigerantes por “Chinese Democracy”

Essa é boa. A empresa de refrigerantes Dr Pepper disse que dará uma lata da bebida a cada norte-americano (isso mesmo, um refri para cada um dos cerca de 300 milhões de moradores de lá) se o Guns n’ Roses lançar o seu novo velho álbum “Chinese Democracy” ainda em 2008. Apenas os ex-guitarristas Slash e Buckethead ficariam de fora desta ação (por que? eles atrapalharam o andamento do novo álbum?). Até um blog promocional o fabricante criou.

Vejam o trecho da reportagem que saiu no G1 (cujo link está acima):

Segundo o departamento de marketing da Dr Pepper, “foi necessário um pouco de paciência para tornar perfeita a mistura de 23 ingredientes, que se tornaram conhecidos e amados por nossos fãs”. Diz o diretor Jaxie Alt: “Assim, nós entendemos completamente a busca de Axl pela perfeição“.

Você conhecia ou já tinha ouvido falar do refri Dr Pepper? Não? Nem eu. Isso aí foi uma puta sacada de marketing dos caras. E sabe porque? Bem, isso é uma longa história. O último álbum do Guns é de 1993, o terrível “The Spaghetti Incident”. Em 94, o Axl brigou com uma parte da banda e o grupo ficou meio capenga. No mesmo ano, o que sobrou da banda começou a discutir um novo álbum. Novas brigas de Axl fizeram com que ele mandasse o resto da galera embora, permanecendo, então, como único membro original. Até que em 98 ele e os novos músicos contratados começaram a gravar o famoso “Chinese Democracy”. Não tô brincando não! Já faz 10 anos que os caras (digo, o Axl) estão trabalhando nesse disco e até hoje ele não foi lançado.

Promessas não faltaram. De 2001 pra cá, o álbum já “foi lançado” umas 20 vezes. Nesse meio tempo, Axl Rose refez a banda em umas 5 ocasiões. Gastou algo em torno de US$ 12 milhões com a produção. Iniciou turnês sem número (inclusive esteve no Brasil para o Rock in Rio III em 2001). Apareceu na MTV em 2002 com o álbum em fase de pré-lançamento. E cadê o raio do “Chinese Democracy”? Bem, isso aí virou até piada no meio musical. Eu já desisti de acompanhar. Se você quiser saber mais, vá aqui.

Entendeu agora por que foi uma puta sacada de marketing do fabricante de refrigerantes? Meu, esse tal de “Chinese Democracy” não sairá em 2008, aliás creio eu que nunca ele será lançado. A empresa fez uma promessa absurda porque sabe que o disco não ficará pronto esse ano. E assim botou o nome da marca na mídia. Sem custo nenhum. E baseado no que afirmamos (a empresa, implicita e eu, explicitamente) que o disco não sairá esse ano?

Bem, em primeiro lugar porque Axl Rose é paranóico e manda a banda inteira embora de tempos em tempos. Daí tem que ensaiar tudo de novo, regravar, etc, etc… Segundo: Axl não segura mais a peteca. Aliás, ele no palco está patético. Vejam estes dois vídeos: primeiro a ótima música “Paradise City” tocada no Rock in Rio III (que aconteceu há 7 anos atrás); depois a apresentação que fizeram no Video Music Awards de 2002 (6 anos atrás). Digam-me se há condições de esse cara continuar cantando. Ele grava e regrava porque a voz dele nunca deve ficar boa. Já era. A tal da “busca pela perfeição” que a empresa exaltou no seu comunicado nada mais é do que tentar não passar vergonha.

No entanto, se Axl tivesse mesmo um senso de marketing ferrado ele lançava “Chinese Democracy” este ano. Mais precisamente no dia 08/08/08, quando começam os Jogos Olímpicos. E ainda botava quente na censura política chinesa. Mas ele não fará isso. Até porque ditador falando mal de outro ditador é algo que eu ainda estou para ver.

P.S.: reconheceram o tal do Buckethead nos vídeos acima? Bem, ele já caiu fora da banda. Assim como quase todos os músicos que vocês vêem nas apresentações.

P.S.II: a segunda música do vídeo do VMA2002 chama-se “Madagascar” e é uma das faixas já lançadas do “Chinese Democracy”.

UPDATE: o Dr. Pera e mais umas duas pessoas me disseram que o tal do Dr Pepper não é nada desconhecido nos EUA. Peço desculpas pelo escorregão: minha ignorância sobre o refri e a falta de tempo fizeram com que eu sequer pesquisasse sobre o dito cujo na internet. Li um pouco e vi que cometi um baita escorregão mesmo: o refri é inclusive centenário. Veja um pouco mais aqui. Usei como parâmetro o Brasil para analisar um produto que tem um relativo sucesso nos States. Então melhorando um pouco o que eu disse no post: o que fizeram com o Guns foi uma puta estratégia de marketing pra colocar a marca na mídia. E propaganda gratuita é a coisa mais difícil de conseguir (o tal do “marketing viral” que o diga; as empresas estão gastando muita grana nesse negócio).

É tudo filho da…

Puta!

Desculpem o palavrão acima, mas não pude me conter depois do que vi no Jornal Nacional de hoje. Uma reportagem mostrou o campo de batalha que virou a CPI dos Cartões. Aliás, campo de batalha seria se tivéssemos soldados ou guerreiros por lá. Como só tem palhaço naquela porcaria é melhor mudar o termo para picadeiro.

Vejam o vídeo aqui. Admitam que aquilo ali é um circo. Um senador da República (um cara importante pra caramba que vive 8 anos com nossa grana) como o Almeida Lima fala para outro igual senador da República, ACM Filho, que se este não souber interpretar o regimento interno é melhor ir “pra Escolinha do Professor Raimundo”. O outro deputado manda servir sorvete de tapioca pra todo mundo (alusão aos R$ 8,30 que o Ministro dos Esportes, Orlando Silva, gastou numa tapiocaria). Pô, seria até engraçado se não fosse trágico. Quando vejo o Congresso (e até que faço isso com certa frequência, através das TVs Câmara e Senado), penso que estou na Matrix. É tanta palhaçada que percebo que os deputados e senadores encaram aquilo como uma festa.

Por isso que estou ficando cada vez mais contra as CPIs. Não porque elas sejam ruins, institucionalmente falando. É porque elas viraram picadeiro de circo da pior qualidade. Quem assiste um pouquinho de cada uma delas, sabe o que eu estou falando. A investigação é secundária. O importante é fazer pose pra TV e encher o saco dos outros às nossas custas. E digo mais: existem dois tipos de parlamentares nas CPIs. Uns que são lerdos demais para dizerem algo que valha e que, por isso, só sabem ler o que os assessores escrevem. Os outros são os que querem aparecer.

Será que o PSDB não tem alguém melhorzinho que o Arthur Virgílio para colocar como líder no Senado? E o PT, não tem ninguém além da Ideli Salvatti? Quando vejo os dois falando com toda aquela pompa, meu estômago até embrulha.

Por isso mesmo, em “homenagem” a este lindo Congresso que temos, mando abaixo uma música que, além de ilustrar o título do post, tem tudo a ver com o nosso Legislativo. Com vocês, “Filho da Puta”, do Ultraje a Rigor (composição de Roger Moreira)!

P.S.: o vídeo da música segue aqui.

Morar nesse país
É como ter a mãe na zona
Você sabe que ela não presta
E ainda assim adora essa gatona
Não que eu tenha nada contra
Profissionais da cama
Mas são os filhos dessa dama
Que você sabe como é que chama

Filha da puta
É tudo filho da puta
 

É uma coisa muito feia
E é o que mais tem por aqui
E sendo nós da Pátria filhos
Não tem nem como fugir
E eu não vi nenhum tostão
Da grana toda que ela arrecadou
Na certa foi parar na mão
De algum maldito gigolô

Filha da puta
É tudo filho da puta
 

‘Cês me desculpem o palavrão
Eu bem que tentei evitar
Mas não achei outra definição
Que pudesse explicar
Com tanta clareza
Aquilo tudo que agente sente
A terra é uma beleza
O que estraga é essa gente

Filha da puta
É tudo filho da puta
 

Chocolate

chocolate.jpgAproveitando mais um dia de lambuja de canais Telecine abertos, fui procurar um filme legal para ver ontem no fim de noite. Olhei na programação e aí descubri que havia um filme com a Juliette Binoche que foi até bem falado na época do seu lançamento: “Chocolate” (Chocolat, 2000, dirigido por Lasse Hallström). Peraí, Juliette Binoche?! Ignorei sumariamente todas as outras opções e levei em conta somente o filme dela. Afinal, não é todo dia que você vê a Binoche na TV (rimou, hein?).

Sou fã do trabalho dela. Acho que ela é uma das poucas atrizes que consegue mandar bem nos filmes, sem estardalhaço. Atua de maneira espetacular, como se fosse um de nós, um ser comum. Tem uma calma e uma leveza de nos encantar. É, mas mesmo com tudo isso e com todo um desconto que eu darei a qualquer filme que ela fizer, o tal do “Chocolate” não passa de razoável.

No filme, Binoche é Vianne Rocher, uma mulher independente que chega à uma pacata cidade cristã do sul da França. Tudo na cidade gira em torno da plataforma TFP (Tradição, Família e Propriedade) e a Igreja determina o modo de viver da galerinha. Aí a mulher chega com a filha, sem marido, com uma jeito ateu de ser e abre uma loja de chocolates (muitos deles afrodisíacos). Pronto, mexeu com o povo da cidade, atentou contra os bons costumes. Merece ir pra fogueirinha? Que nada! No máximo, o povo ranzinza de lá dá uma gelada na moça e na sua loja. Mas depois que provam os chocolates dela ficam todos derretidos (olha o trocadilho aí gente!).

E assim o filme vai indo: o conflito entre os carolas da cidadezinha e a mulher independente que nada faz de errado, mas que é vista como a tentadora filha da mãe. No meio de tudo, os chocolates dela que adoçam a vida (e de vez em quando dão uma apimentada nas pessoas, deixam elas mais doidonas por aquilo…). O negócio é que o filme não passa disso. Pô, se for pra abalar as estruturas de verdade que façam que nem o “Dogville” logo. A personagem principal desse filme desorientou o povo da cidade quando apareceu por lá e a galera ficou doida para sacaneá-la (literalmente falando).

Então, é isso. Vejam o filme se nada melhor estiver passando na TV. Tipo como aconteceu comigo ontem à noite (não veria a final do BBB8 por nada… vejam o post abaixo e entenderão).

P.S.: pra quem tem uma imagem porreta da Carrie Anne-Moss baseada na personagem Trinity do “Matrix”, assistam a “Chocolate”. É engraçado ver a brigona mulher do primeiro filme como uma carola de fazer inveja a qualquer freira por aí no segundo…

Acabou o Big Shit Brazil 8!

Finalmente acabou o BBB 8! Tenho tanto carinho por tal programa que o apelidei de “Big Shit Brazil” (BSB), uma sincera homenagem a tal obra. Voltarei a assistir futebol na Globo sem ter que, no intervalo de jogo, ficar ouvindo tudo de “bom” que acontece na casa dos brothers… Bial, tchau pra você! Até 2009 (ou até nunca, pois sempre existe a remota possibilidade de o programa não voltar ao ar).

Bacana agora será entrar nos sites e não ter que ser bombardeado com notícias da casa. Legal será que ninguém mais falará da “emocionante” disputa nem ficará me perguntando quem eu acho que deve ganhar ou perder. Até que enfim vão parar de falar dessa porcaria.

Mas que nada, mera ilusão! A partir de agora começa o famoso pós-BSB. Todo mundo vai começar a falar dos ex-BBB. Das mulheres porque obviamente quase todas estamparão as capas das revistas masculinas. Dos homens porque vão xavecar, aparecer em festas, etc, etc. É, ainda seremos torpedeados diariamente com notícias desta porcaria. O jeito é tentar se imunizar.

Se alguém souber como, diga-me. Eu, por exemplo, não vi um singelo episódio do BSB8. Porém tinha plena ciência da disputa final: a piauiense Gyselle contra o emoboy Rafinha. Como está na cara que os emos estão dominando o mundo, ganhou o emoboy. Com 50,15% dos votos. Hum, cheiro de mutreta no ar. O cara ganhou por tão pouquinho assim? Vai ter recontagem de votos? Sei não, estranhíssimo este programa.

Aliás, ninguém me tira da cabeça que é tudo armado nesse tal de Big Brother Brasil. Primeiro diziam que recrutavam os caras pelas fitas que recebiam. Só que aí aparecia um monte de neguinho que nunca tinha mandado fita nenhuma. Aí a imprensa investigava e via que na parada tinha ex-miss, ex-atriz, amiga da filha de diretor, etc, etc. Peguem o exemplo mesmo desse tal de Rafinha mesmo que ganhou. Alguém aí já viu o clipe da última música do grupo emo NX Zero, “Pela última vez”? Vejam . O tal do Rafinha aparece como figurante! (hat tip do cunhado) E esse é o grupo de pop rock de maior sucesso do Brasil – assista qualquer canal que passe videoclipe e você, com certeza, irá topar com o clipe que linkei acima.

Meu Deus! Eu já sei mais do que deveria saber sobre essa porcaria!

Patético…

Começou a zica olímpica…

diego.jpgÉ, amigos do “A Volta…”, começamos a aquecer pouco a pouco os tambores para as Olímpiadas de Pequim (início em 08/08/08). Como não sou jornalista nem algo que o valha não vou ficar trazendo tudo quanto é notícia sobre os Jogos Olímpicos. Portanto, espere encontrar por aqui apenas alguns highlights.

Bem, o título do post tem um motivo. O Diego Hypólito (foto acima) é um dos brasileiros que tem mais condições reais de ganhar uma medalha de ouro. Eu já acho que cara no Brasil que ganha medalha olímpica mereceria receber uma estátua, dado que aqui a infra-estrutura pra prática de esportes é tosca, para não dizer mais. Se o futebol, que é a paixão nacional, já é o que é, imagine o resto.

Pois bem, boto a maior fé que o muleque consiga alguma medalha em aparelhos individuais na ginástica olímpica. O problema é que a zica já começou pro lado do Brasil. Digo zica porque, se vocês ainda se lembram, a Daiane dos Santos, que era favoritaça à medalha de Ouro no solo em Atenas-04, fez uma cirurgia poucos meses antes das Olímpiadas, não conseguiu encontrar o mesmo ritmo de antes e, assim, não foi tão bem na disputa (ficou com o 5° lugar apenas). E olha que o Brasil parou para ver a exibição dela! Me lembro até hoje que assisti a performance da garota num boteco da rua Teodoro Sampaio, aqui em São Paulo. Imagina um monte de pinguço gritando “Daiane! Daiane!”… Bem, foi tanta torcida que o negócio miou absurdamente.

E não é que o Diego (na minha opinião, dentre o grupo da ginasta brazuca, aquele que tem maiores chances de tirar medalha) foi operado ontem, no Rio de Janeiro? Putz grila, tudo bem que foi uma artroscopia, já vi muita gente fazer essa operação e ficar numa boa dias após a cirurgia. Pô, mas o cara é atleta de alta performance. E aí, vai afetar ou não o rendimento dele nos treinamentos futuros? Ele garante que não. Mas fico com um receio do caramba. Será que a zica olímpica da Daiane acertará Diego em cheio?

Vou torcer para que isso não ocorra. Mas que seria bom alguns caras com chances reais de ganhar medalha caírem fora do Brasil até os jogos de Pequim, ah, isso seria. Explico-me: a imprensa faz tanto estardalhaço em cima dos brazucas que estão bem para os Jogos que só falta colocar a medalha de ouro no peito deles. Vejam o caso da Daiane. Do dia pra noite, a moça ficou mais famosa que jogador de futebol! O Brasil começou a falar de “duplo twist carpado” sem ter a mínima idéia do que seria isso. Virou muita pressão pra cima dela, como se o futuro da ginástica olímpica brasileira dependesse da sua performance…

Não tenho base científica para provar que tantos olhares e tanta pressão em cima desta galera pode realmente ter influência negativa. Mas como canja de galinha não faz mal a ninguém, aí vai um conselho para o Tiago Camilo (judô), Tiago Pereira (natação), Jade Barbosa (ginástica) e todos os outros que são favoritos para conquistas de medalhas: sumam da mídia até 08/08/08. Depois que vocês ganharem alguma coisa, aí virem celebridades nacionais… Vejam o exemplo do Robert Scheidt (vela): vocês ouvem falar dele? Viram o cara aparecer na TV? Pois bem, nesse esquema sussa de sumido, ele já ganhou duas medalhas de ouro e uma de prata. Sem estardalhaço nem nada.

Vamos bater na madeira porque, como bem nos lembramos, Sidney-00 foi a zica master pro Brasil-sil-sil! (para quem não se lembra, o país não ganhou sequer uma mísera medalha de ouro…)

Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo

E se fosse verdade…

justlikeheaven.jpgOntem cheguei bastante cansado em casa. Era tarde. Precisava de algo para me distrair. Nestes casos, a TV sempre é uma boa opção. Mais ainda quando te dão alguns dias de lambuja com todos os canais Telecine abertos. Naquele horário, dois filmes me chamavam a atenção: “E se fosse verdade…” (Just like Heaven, 2005, dirigido por Mark Waters) no Telecine Pipoca e “Transamérica” no Cult. Não tive dúvida: fui na primeira opção pelos motivos expostos no início do post.

E não é que o filmezinho até que é bem bacana? Pô, não esperava que a película fosse uma obra do Kubrick ou do Kurasawa (aliás, se fosse um filme de qualquer um dos dois, na condição que eu estava, dormiria fácil…), mas sim uma comedinha romântica bobinha, com algumas sacadas legais e com um roteiro criativo. Bem, tais expectativas foram bem atendidas.

Vejam o mote do filme: tem uma médica bem workaholic chamada Elizabeth (Reese Witherspoon) que sofre um acidente de carro. Corte seco. Aí aparece um cara triste pra caramba chamado David (Mark Ruffalo), que procura um apartamento bacana pra viver. Ele consegue então alugar o antigo apartamento de Elizabeth, todo mobiliado. O cara tá numa depressão lascada e, do nada, aparece a tal da moça como se fosse um espírito, enchendo o saco dele. “Por que você tá na minha casa? Por que você tá usando minhas coisas?”, etc, etc, é só o que ela fala. E tome encheção de saco pra cima do perturbado rapaz.

A trama vai se desenrolando e os dois então descobrem que ela na verdade está em coma e só o cara vê a espécie de “espírito” dela que fica vagando por aí. Daí, por motivos óbvios, os dois, que são bem diferentes, vão (adivinhem só!) se apaixonando um pelo outro. Bobo, tolo. Porém engraçado e divertido. Principalmente nas cenas em que o cara chama padre, benzedeira, caça-fantasma e o diabo a quatro pra se livrar do “espírito” de Elizabeth…

Então, já sabe: se tiver em casa à toa, precisando de algo bacaninha para se divertir e dar umas risadinhas, veja este filme. Aos possíveis críticos e cinéfilos de plantão, já aviso: não estou dizendo que este é um filmão, ele é apenas uma ótima diversão. Foi bem feito e bem tramado. Além do que a Witherspoon mata a pau e está bem bonita (e olha que eu acho ela feinha, hein!) na história. Não entra na lista dos 100 melhores filmes que já vi mas, ao contrário de muitos filmes que estão nesta lista, veria facilmente mais uma porrada de vezes o “E se fosse verdade…”.

Simonal no “É Tudo Verdade”

Dias bons estão chegando para os fanáticos por documentários. É que começa na próxima quarta-feira (26/03) aqui em São Paulo o festival “É Tudo Verdade”, uma reunião de obras não-ficcionais que chega nesse ano à sua 13ª edição. Este festival tem um caráter itinerante interessante (no fim deste post, veja as datas e os locais onde haverá exibições) e sempre busca apresentar obras bacanas de documentaristas brazucas. Vale a pena entrar no sítio indicado acima e assistir a pelo menos uma das obras que serão apresentadas.

simonal.jpgDentre os documentários a serem mostrados um me chamou a atenção. Trata-se de uma obra sobre a vida do figura que aparece na foto aí ao lado: Wilson Simonal. “Ninguém sabe o duro que eu dei”, filme do humorista Cláudio Manoel (aquele do Casseta & Planeta), de Micael Langer e de Calvito Leal, mostra o sucesso do cantor e o ostracismo no qual ele caiu depois de surgirem boatos de que ele seria informante da ditadura militar.

Este documentário me chamou a atenção justamente por tratar de um assunto no qual a galera tem tanto medo de mexer quanto colméia de abelhas. Sempre me interessei pelos cantores dos anos 60 e 70 e um dia desses topei com o Wilson Simonal. Perguntei então para alguns dos mais velhos que tinham vivido naquela época sobre o que achavam do cara. Para minha surpresa, a discussão sempre ia pro lado político: ninguém falava um ‘a’ da carreira do músico; tudo o que eu ouvia eram coisas do tipo “esse fdp foi um traíra”, “esse aí era informante dos milicos”, “caraca, muito músico sofreu por causa desse figura”, e por aí vai.

Ficava sempre pensando “pô, esse cara era um demônio! mas será que ele era bom cantor também?”. Até que aí eu fui me perguntando “pô, mas quem ele denunciou?”, “quem se ferrou por causa dele?”. Procurei, mas não achei nenhuma resposta convincente para estas perguntas. Daí concluí o seguinte: a fama de traíra existia e dificilmente acabaria, mas e se Simonal não tivesse sido informante dos milicos? Pô, aí sim teriam cometido uma injustiça absurda com o cara, pois a partir de determinado ponto Inês já era morta. E o pior: definitivamente depois que a pecha pegou, a carreira dele acabou.

O tema Simonal inclusive foi relativamente reavivado depois que seus dois filhos – Max de Castro (veja opinião dele sobre o documentário) e Simoninha – apareceram no mundo da MPB nos últimos anos. Lembro-me de no mínimo dois programas de TV nos quais o apresentador, todo cheio de cuidados, anunciou Simoninha da seguinte maneira: “esse é o filho de Wilson Simonal, um grande… ehr… cantor da música popular brasileira…”. Isso mostra que, pelo menos nos bastidores, o tema ainda é um tabu muito grande. Ou o cara foi muito filho da mãe mesmo e ninguém quer contar pra gente ou ninguém quer vir a público dizer que ele era inocente mesmo.

O documentário vai nessa segunda linha : pelo menos informante dos milicos parece que ele não era. Que ele errou, errou (a história toda começou porque Simonal mandou surrar o seu contador e os agressores eram agentes do Dops). Mas que foi massacrado por causa de um boato posterior, ah, isso foi. Que o documentário nos ajude a pôr uma luz nesta história investigando melhor o que ocorreu. Por enquanto fiquemos no aguardo do “É Tudo Verdade” e, principalmente, de “Ninguém sabe o duro que eu dei”.

Festival “É Tudo Verdade”

Quando? São Paulo (de 26/03 a 06/04); Rio de Janeiro (27/03 a 06/04); Bauru (10-13/04), Brasília (14-20/04); Recife (17-20/04); Caxias (RS) (24-27/04).

O Senhor das Armas

senhordasarmas.jpgAcabei de ver um filme que queria assistir fazia muito tempo: “O Senhor das Armas” (Lord of War, 2005, dirigido por Andrew Niccol). Não sei quem havia me recomendado mas mesmo assim agradeço esta pessoa. Gostei pra caramba da história (que é baseada em fatos reais) e da maneira como o filme foi feito.

Pra quem não viu, o roteiro é bem simples: Nicolas Cage é Yuri Orlov, um imigrante do leste europeu que veio para os EUA com os pais e o irmão. Como todo cara que vive em alguma parte de um subúrbio norte-americano, ele deseja enriquecer a qualquer custo, mas com o restaurante que sua família tinha isso não seria possível. Aí adivinha o que ele resolve fazer? É, isso mesmo, começa a vender armas de forma contrabandeada.

Primeiro vende pra uns carinhas de gangue de bairro mas aí percebe que isso nunca fará com que ele tenha grana pra caramba. Então ele resolve ir pro negócio hardcore de verdade: vender para governos, pois guerra e conflito é o que mais existe no mundo. Com isso, literalmente, ele vai virando o “senhor das armas” e enche a burra de grana. Lógico que sempre existirão pessoas para atrapalhar Orlov, mas ele continuará fazendo o seu negócio.

Achei o filme bacana por dois motivos: primeiro pela presença do narrador, que é o próprio Orlov. Às vezes é meio chato ter narrador contando tudo o que acontece, enchendo o saco, mas em “O Senhor das Armas” ele é essencial: tudo é apresentado por ele às claras, de maneira nítida, sem arrependimento. Os governos que são corruptos, a essencialidade das guerras para o seu negócio, a afirmação do contrabando de armas como negócio lucrativo. Tudo isso é dito pelo narrador de maneira espontânea, sem melodrama nem nada. Tem inclusive uma frase que é exposta por ele no início do filme que eu achei lapidar: “Existem 550 milhões de armas no mundo. Ou seja, uma arma para cada 12 pessoas. Meu trabalho é fazer com que as outras 11 também tenham alguma arma nas mãos”.

A outra coisa que eu achei bacana no filme foi o senso de fatalidade existente. As coisas são assim no mundo e assim serão, infelizmente. O ponto-de-vista de Orlov é esse e, mesmo com os conflitos morais que lhe serão apresentados durante a história, ele continua com essa idéia. A única coisa que ele sabe fazer é contrabandear armas; ele não obriga ninguém a matar; quem mais vende arma no mundo são os cinco países do Conselho de Segurança da ONU; logo, juntando tudo isso e uma ética torta pra caramba, Orlov acha que o que faz é moralmente aceitável. Mais ou menos a idéia de “se eu não fizer, alguém fará no meu lugar”.

O cinismo existente é equivalente ao de “Obrigado por Fumar” (Thank you for Smoking, 2005), a mensagem de quão estúpidos nós somos e de quão ferrada a África está chega ao nível de “Diamante de Sangue” (Blood Diamond, 2006), só para citar dois filmes recentes. Nisso você já tem uma idéia da qualidade de “O Senhor das Armas”. Por isso tudo, afirmo que este é um filme bom que merece ser visto. Só não tente fazer isto num dia absurdamente triste…

Blogagem coletiva pelo dia Mundial da Água

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 Imagem: Aaron Graubart - Getty Images

O Hermenauta citou e eu também vou ajudar: a Lúcia Malla (do já mais que linkado “Uma Malla pelo Mundo”) convocou a galera para uma blogagem coletiva para o Dia Mundial da Água – que será amanhã, dia 22 de março. A campanha está sendo organizada pelo “Faça a sua Parte”, um blog que trata de questões ambientais e muito bem feito por sinal. Aliás, também ele já está mais do que linkado aí ao lado.

Sinto-me um ignorante para escrever com um mínimo de seriedade acerca de qualquer problema que envolva a água. Sei que não existem soluções miraculosas para lidar com a escassez dela que deve ocorrer agora no século XXI (aliás, vai ocorrer escassez mesmo se andarmos na atual carruagem?), pelo pouco que eu li. Por isso, contribuo com a campanha colocando os links e fazendo com que você, caro leitor, tenha um pouco mais de informação sobre esse tema. Legal lembrarmos dele não apenas um dia no ano, mas todo santo dia, não é mesmo?

Apenas para não ficar no vazio, colocarei uma reportagem que vi sobre o tema na imprensa acerca do desperdício de água. A ONG Defensoria da Água expôs essa semana um ponto-de-vista interessante: o desperdício não é culpa do cidadão comum, mas sim do agronegócio e da indústria. Não adianta “brigar” com o sujeito simples para que ele não desperdice água se nada é feito em relação a quem realmente gasta água a torto e orto. Uma questão para que os governos pensem e ajam a respeito.

Também não é por isso que a gente vai sair por aí jogando água fora. Se nós começarmos a avacalhar também, aí é que a vaca vai pro brejo. Apesar de vivermos num país que tem esse recurso de forma abundante, volta e meia nós estamos pedindo uma chuvinha pra São Pedro por causa do baixo nível dos reservatórios de água. É um problema que nós podemos ajudar a resolver também, mesmo que nossa contribuição seja mínima.

Fica dado o recado. 22 de março, dia Mundial da Água. “A Volta…” apoia o uso racional desse recurso!

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