Onde os fracos não têm vez

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Pertubador. Essa é a melhor definição que posso dar para o filme “Onde os fracos não têm vez“, dos irmãos Cohen. Ontem à noite vi esta obra ganhadora dos Oscar de melhor filme, diretor, roteiro adaptado e ator coajuvante (Javier Bardem).

Por que pertubador? Primeiro: o filme durante todos os momentos soa como despretencioso. Isso dá um nó incrível em você, principalmente porque você já vai assistir o filme pensando “Nossa, se ele ganhou o Oscar é porque deve ser um épico ou coisa que o valha…”. Segundo: o assassino da história, interpretado pelo Bardem, é um daqueles loucos de pedra da história do cinema. O cara é malucão mas aparenta um jeito sossegado, tipo Hannibal Lecter (de “O Silêncio dos Inocentes”). Além do que tem um meio ‘Duas Caras’ de resolver as coisas (vilão do Batman que decidia tudo na base do cara ou coroa). Oscar mais do que merecido para o ator espanhol.

Terceiro (e talvez aquilo que mais nos perturbe): gostamos de ir ao cinema e ver uma boa história e um filme emocionante. Mas mais do que tudo, gostamos de entender tudo que ali se passa. Isso é o que a maioria das pessoas espera, inclusive eu. Com “Onde os fracos…” a história é diferente: tudo vai ocorrendo sem muito barulho, com um clima de suspense crescente e, de repente, o filme termina de modo tranquilo (é até um susto quando você percebe que o filme acabou; impossível não dizer: “ué, acabou mesmo? não tem mais um pouquinho pra explicar melhor?”). Aí sobra pra você montar o quebra-cabeça que se formou e interpretar o que ocorreu de verdade na história.

Eu analisei a história de uma maneira que relacionou o início do filme (pra você que não viu, preste bastante atenção) com o final e o nome original da trama (em inglês, “No Country for Old Men” – numa tradução bem livre, algo como “Onde os velhos não têm vez”). Mas já achei duas outras interpretações de amigos meus. O que ocorreu, como ocorreu e de que forma ocorreu você é quem irá decifrar.

Acho legal isso em alguns casos. Você imagina como é que as coisas aconteceram e fecha o mistério existente, mas mais do que isso: ninguém poderá dizer que você entendeu errado. Não existe a interpretação mas sim diferentes percepções. É sair do cinema e começar a divagar sobre o que pode ter ocorrido.

Admito que, de cara, quando o filme terminou, falei pra mim mesmo: “Mas que porcaria! Como é que essa merda ganhou o Oscar?”. Mas depois analisando melhor, pensando, entendendo, cheguei à conclusão de que “Onde os fracos…” é um filmaço. Mereceu ter ganho o prêmio (pelo menos achei-o superior a “Desejo e Reparação” e bem melhor que “Juno” – o qual já até comentei por aqui). Vejam o filme e me digam o que acharam. Porém, antes de descerem a lenha nele não se furtem ao trabalho de pensarem a obra, ok?

2 Respostas para “Onde os fracos não têm vez”


  1. 1 vtYojr Segunda-feira, 3 / Março / 2008 às 3:40 pm

    Para mim, o que aconteceu foi o seguinte:
    No quarto do hotel, Anton jogou a moeda para o sheriff Ed Tom. (Que nome parecido, ein?)
    O sheriff pediu e ganhou.
    Anton mata a viúva.
    Ed Tom continua vivo, mas com sentimentos de culpa, impotência e vergonha. Seguem os pesadelos.

  2. 2 André Terça-feira, 4 / Março / 2008 às 12:18 am

    Grande Dr. VtYojr! O senhor foi um daqueles que interpretou o filme duma maneira diferente da minha. Eu entendi o seguinte: o xerife Ed Tom simplesmente desiste de caçar o Anton. É só ver a narrativa de Ed no começo: ele fala de um passado saudosista (do seu pai, do seu avô) e mostra como o mundo parece estar perdido nos dias atuais. Exemplifica com o caso de um muleque que ele prendeu e mandou pra cadeira elétrica. Diz Ed que quando perguntou ao muleque porque ele matou uma dona, o muleque simplesmente disse que era porque estava com vontade. Logo depois Ed nos diz: “veja então o que esse outro maluco fez…” e aparece a cena do Anton sendo preso pelo policial novo e depois assassinando-o.

    Ou seja, o xerife já está meio desgostoso com o mundo de hoje. Aparentemtente ele sabe como pegar Anton mas desiste pois isso não resolverá os problemas do mundo e outros “Antons” aparecerão. Isso fica nítido quando ele conversa com o velhinho da cadeira de rodas: Ed fica muito triste com a situação de hoje, joga a toalha e o velhinho meio que lhe replica: “o mundo sempre foi assim, quer você queira ou não”.

    O xerife se aposenta e aí termina o filme com ele contando o sonho que teve com seu pai segurando uma luz e indo adiante: talvez a solução para pegar um bandido como Anton? Sim. Porém, ele vê seu pai passar com a luz, no sonho, e não vai atrás dele. Ou seja, fica na sua.

    Deste modo, Ed meio que conclui que o mundo de hoje é aquele no qual “os velhos não têm vez”; como é velho e não se adapta mais à loucura diária, ele larga tudo e vai viver bucolicamente como um aposentado desocupado.

    Viajei demais?


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