Muita ira no Ira!

Não dá pra entender o turbilhão que ocorreu com o Ira! de um ano pra cá. Depois de chegarem ao topo das paradas de sucesso com seu Acústivo MTV (2004), a banda lançou no início do ano passado o razoável álbum (segundo a crítica) “Invisível DJ”. Tudo parecia ir bem no mundo do grupo. Parecia.

Porém, em setembro, o vocalista Nasi anunciou sua saída da banda. Até aí tudo bem: não foi e nem será a primeira banda a ter um membro que, insatisfeito, vai embora. O problema foi o troca-troca de acusações envolvendo o fato em si: ele disse que estava caindo fora por não concordar com a maneira pela qual a banda era gerida (detalhe: o empresário do grupo é Airton Valadão, irmão de Nasi).

O resto do grupo resolveu processar o ex-vocalista, acusando-o de ter provocado sua própria saída do grupo quando agrediu o seu irmão (e, nunca é demais lembrar, empresário da banda) com uma faca. A banda, meio manca após a baixa, prosseguiu com os compromissos agendados oriundos da turnê do álbum recém-lançado.

Realmente foi triste que uma relação de 20 anos tenha terminado duma maneira tão ridícula como essa. Mas o pior veio depois. O pai de Nasi pediu a interdição judicial do cantor (este instrumento jurídico é basicamente utilizado para declarar uma pessoa incapacitada de praticar os atos comuns da vida cotidiana, como estabelecer relações comerciais e cuidar da própria saúde financeira, por exemplo). Segundo o cantor, seu irmão teria manipulado o pai para que o mesmo tomasse tal atitude.

Nasi agora retoma sua carreira solo, tendo como colega de grupo um ex-membro do Ira! que saiu da banda há pouco (Gaspa). Além disso, o cantor estreará no cinema atuando como um viciado no filme “Sem fio”. Enquanto isso, o Ira!, dividido, pára suas atividades e não diz com que formação voltará a tocar (se voltar a fazer isso…).

É triste que uma banda tão legal tenha acabado de uma maneira tão quixotesca. Parece que o grupo sofreu da maldição do “sucesso absurdo”: enquanto tinham uma certa visibilidade e um razoável sucesso musical, mantiveram-se unidos; quando alcançaram um “sucesso absurdo” e único, não conseguiram conviver com a situação (tal sucesso veio com o Acústico MTV de 2004 – lembram-se da música ”Eu quero sempre mais”, com a participação da cantora Pitty, que alcançou o topo das paradas de sucesso?), os egos se inflaram, um não começou a falar mais a língua do outro e, no fim, o grupo se desfez. Creio que a mesma coisa tenha ocorrido com o Raimundos (aliás, a banda está na ativa, mas parece um morto-vivo pois tem apenas dois componentes da formação original – Canisso e Digão – e nunca mais emplacou uma música nas rádios).

Para quem mal chegou a conhecer o último álbum do Ira! (o imbróglio descrito acima ocorreu pouco tempo depois do lançamento de “Invisível DJ”), vejam um dos hits do álbum - ”Eu vou tentar” (música bem feita, com clipe dirigido pelo fã declarado do grupo, Selton Mello).

3 Respostas para “Muita ira no Ira!”


  1. 1 Pera Segunda-feira, 10 / Março / 2008 às 5:55 pm

    Tenho uma amiga que trabalha (ou trabalhou) no Bourbon e conhecia os caras. O Edgar e o Nasi já não estavam se falando havia um tempão: iam, faziam o show sem se olhar e vazavam. Na minha opinião, o Edgar é o cara. Além de ser o melhor guitarrista do Brasil, canta melhor que o Nasi, que é um cara legal (goleirão do Rockgol) mas tem uma voz que é de lascar. Acho qu o Ira! iria sumir de qualquer jeito. A moda anos 80 deu uma esfriada. Vide Capital Inicial.

    O Raimundos eu acho que acabou por outro motivo: o bom era o Rodolfo. Depois que virou evangélico e saiu, o Digão tentou até cantar mas não rolou. Vale lembrar que o Rodolfo ainda fez algum sucesso com o Rodox. Se ele tivesse continuado, estaria aí até hoje, mais ou menos pelos mesmos motivos do Chorão com o Charlie Brown ou, forçando a barra, a Ivete Sangalo e o Eva (putz, viajei, mas beleza). Quem é bom larga logo o grupo e vai ganhar dinheiro sozinho, em vez de sustentar marmanjo.

  2. 2 André Segunda-feira, 10 / Março / 2008 às 10:35 pm

    É sempre bom ter gente bem informada por aqui, vide o comentário do Dr. Pera sobre a treta Nasi x Scandurra. Também acho este o melhor cara da banda (inclusive no acústico ele matou a pau em algumas músicas, como “Dias de Luta”) mas não tenho tanta certeza assim se o Ira! acabaria. O “Invisível DJ” é um álbum razoável e teria no mínimo uns três hits pras rádios – além de “Eu vou tentar”, que já citei no post, outra música boa é “Mariana foi pro mar” (ê nome bonito hein, Dr. Pera!). O link para esta última música é: http://www.youtube.com/watch?v=uyuHQpVl08g

    Quanto ao Raimundos, tudo bem que o Rodolfo tenha virado evangélico e que, por isso, tenha saído da banda – o conflito de interesses era nítido. O estranho foi que os caras ficaram na estrada uns 10 anos e, de repente, quando realmente chegaram no topo (pô, “Mulher de Fases” foi tema de trio elétrico no carnaval baiano), o cara meio que largou o barco, desiludido com isso tudo. Pelas declarações da época meio que ficou a impressão de “isso aqui tá uma putaria muito grande e eu não quero mais fazer parte disso”.

    Cara, bem complicado lidar com sucesso extremado. Para encerrar este comentário, cito mais um exemplo: o Police chegou no auge (e bota auge nisso, arrebentaram a boca do balão) com o álbum “Synchronicity” e a música “Every Breath you Take”. De repente, o Sting, maestro e principal astro da banda resolveu cair fora (e nisso perdeu um grande músico, o baterista Copeland, que é bom pra caramba). Quando perguntado porque resolveu cair fora no topo de tudo, Sting respondeu: “Vi que aquilo era o ponto máximo de tudo e perguntei a mim mesmo: ´Quero ficar nesse ponto pra sempre? Quero ficar lá e não ter mais desafios, evoluir, andar pra frente?´ Como a resposta foi não, acabei com a banda”. (A frase não foi exatamente essa, mas a idéia é a mesma heheheh)

    Abraços e valeu pela visita!

  3. 3 Paulo Adriano Dos Santos Domingo, 23 / Março / 2008 às 7:32 pm

    Eu acompanhei a carreira dos caras des do tempo que a banda tinha o nome de Ira sem a ! . É lamentável que depois de tanto tempo de carreira a maldição dos jábas terem conseguido acabar com eles.
    Jabás que tanto eles criticavam por bandas terem sido vendidas para a mídia e o sucesso estrondoso nas rádios pops. Eles seguiram o mesmo rumo de várias outras que caíram nessa mesma armadilha do sucesso estrondoso.
    Lembramos sempre deles pois eles marcaram seu espaço na cena do Pop Rock Nacional. E por isso se imortalizaram. E nada dura para sempre. Sucesso a seus integrantes em seu projeto paralelo. E quem sabe um dia eles voltem como voltou o Capital Inicial, mas esperamos que voltem com o mesmo patch. Que eles demonstravam em seus albúns e não com um som para agradar adolecentes que curtem malhação como o Capital Inicial fez. Um abraço a todos os ex-integrantes e Boa Sorte!


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