Simonal no “É Tudo Verdade”

Dias bons estão chegando para os fanáticos por documentários. É que começa na próxima quarta-feira (26/03) aqui em São Paulo o festival “É Tudo Verdade”, uma reunião de obras não-ficcionais que chega nesse ano à sua 13ª edição. Este festival tem um caráter itinerante interessante (no fim deste post, veja as datas e os locais onde haverá exibições) e sempre busca apresentar obras bacanas de documentaristas brazucas. Vale a pena entrar no sítio indicado acima e assistir a pelo menos uma das obras que serão apresentadas.

simonal.jpgDentre os documentários a serem mostrados um me chamou a atenção. Trata-se de uma obra sobre a vida do figura que aparece na foto aí ao lado: Wilson Simonal. “Ninguém sabe o duro que eu dei”, filme do humorista Cláudio Manoel (aquele do Casseta & Planeta), de Micael Langer e de Calvito Leal, mostra o sucesso do cantor e o ostracismo no qual ele caiu depois de surgirem boatos de que ele seria informante da ditadura militar.

Este documentário me chamou a atenção justamente por tratar de um assunto no qual a galera tem tanto medo de mexer quanto colméia de abelhas. Sempre me interessei pelos cantores dos anos 60 e 70 e um dia desses topei com o Wilson Simonal. Perguntei então para alguns dos mais velhos que tinham vivido naquela época sobre o que achavam do cara. Para minha surpresa, a discussão sempre ia pro lado político: ninguém falava um ‘a’ da carreira do músico; tudo o que eu ouvia eram coisas do tipo “esse fdp foi um traíra”, “esse aí era informante dos milicos”, “caraca, muito músico sofreu por causa desse figura”, e por aí vai.

Ficava sempre pensando “pô, esse cara era um demônio! mas será que ele era bom cantor também?”. Até que aí eu fui me perguntando “pô, mas quem ele denunciou?”, “quem se ferrou por causa dele?”. Procurei, mas não achei nenhuma resposta convincente para estas perguntas. Daí concluí o seguinte: a fama de traíra existia e dificilmente acabaria, mas e se Simonal não tivesse sido informante dos milicos? Pô, aí sim teriam cometido uma injustiça absurda com o cara, pois a partir de determinado ponto Inês já era morta. E o pior: definitivamente depois que a pecha pegou, a carreira dele acabou.

O tema Simonal inclusive foi relativamente reavivado depois que seus dois filhos – Max de Castro (veja opinião dele sobre o documentário) e Simoninha – apareceram no mundo da MPB nos últimos anos. Lembro-me de no mínimo dois programas de TV nos quais o apresentador, todo cheio de cuidados, anunciou Simoninha da seguinte maneira: “esse é o filho de Wilson Simonal, um grande… ehr… cantor da música popular brasileira…”. Isso mostra que, pelo menos nos bastidores, o tema ainda é um tabu muito grande. Ou o cara foi muito filho da mãe mesmo e ninguém quer contar pra gente ou ninguém quer vir a público dizer que ele era inocente mesmo.

O documentário vai nessa segunda linha : pelo menos informante dos milicos parece que ele não era. Que ele errou, errou (a história toda começou porque Simonal mandou surrar o seu contador e os agressores eram agentes do Dops). Mas que foi massacrado por causa de um boato posterior, ah, isso foi. Que o documentário nos ajude a pôr uma luz nesta história investigando melhor o que ocorreu. Por enquanto fiquemos no aguardo do “É Tudo Verdade” e, principalmente, de “Ninguém sabe o duro que eu dei”.

Festival “É Tudo Verdade”

Quando? São Paulo (de 26/03 a 06/04); Rio de Janeiro (27/03 a 06/04); Bauru (10-13/04), Brasília (14-20/04); Recife (17-20/04); Caxias (RS) (24-27/04).

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