Calma, calma, não fiquei louco não. O título do post tem todo um sentido. Vi há pouco uma notícia bem interessante. Um senhor chamado Deng Pufang, presidente da Federação Chinesa dos Deficientes Físicos, é um dos organizadores das Paraolímpiadas 2008, as quais começarão em setembro, após os Jogos Olímpicos. O interessante é que Pufang é filho de Deng Xiaoping (segundo líder chinês após a Revolução de 49) e não nasceu paraplégico. Ele ficou nesta condição durante a Revolução Cultural do Mao Tsé-Tung (que durou de 66 a 76).
Como? Aparentemente ele caiu numa depressão ferrada depois da perseguição que sofreu durante o início da Revolução. Era estudante de física nuclear e provavelmente foi obrigado a ir para o campo para se reeducar. Fora isso, deve ter sido obrigado a fazer confissões de culpa totalmente absurdas na frente de vizinhos e amigos, sendo achincalhado por pivetes que esbravejavam com o livrinho vermelho de Mao na mão. Tentou se suicidar e acabou ficando paraplégico. Como ele mesmo diz,
Eu era bastante revolucionário naquele tempo, mas minha vida e minha carreira se acabaram quando me acusaram de contra-revolucionário. Era muito frustrante. Eu pensava que era meu fim.”
A matéria do UOL que linkei não diz nada sobre o que escrevi no parágrafo anterior. Mas quando digo que o que escrevi acima muito provavelmente ocorreu é porque li e vi nos últimos meses um número razoável de coisas sobre a história recente da China. Principalmente sobre a emblemática figura de Mao Tsé-Tung. O pai de Pufang, Deng Xiaoping, foi absurdamente perseguido durante a Revolução Cultural. Aliás, tal período surgiu como uma forma do Mao retomar o poder do país porque, de fato, ele era um fantoche desde o desastre do “Grande Salto para a Frente” (58). Entre este período e a Revolução Cultural, alguns membros do Partido Comunista (PC), entre eles Deng, tocaram o país até bem e escantearam o economicamente desastrado Mao (no “Grande Salto…” milhões de pessoas morreram de fome com a loucura do cara de querer fazer da China o maior produtor de aço do mundo).
Foram todos escurraçados depois. Deng foi um dos mais massacrados. Um cara que tinha uma baita capacidade econômico-administrativa como ele foi mandado para o mato para se “reeducar”. Passou por privações e tudo. Não foi à toa que o PC colocou o comando do partido nas mãos dele após a morte de Mao. E, apesar de toda a repressão política que encampou (incluindo aí o Massacre da praça Tiananmen), foi Deng que iniciou este processo de aceleração econômica vivido pela China até os dias atuais. De forma bem pragmática. Como ele dizia, “não importa a cor dos olhos do gato, importa que apanhe os ratos”. Era o tal do socialismo de mercado tal como conhecemos hoje.
Se tem uma coisa que com certeza foi desastrosa para o mundo no século XX, essa coisa foi a tal da Revolução Cultural. Isso aí dividiu famílias, rachou a sociedade chinesa ao meio, fez muita gente se suicidar e ficar louca, inverteu valores, glorificou a ignorância, etc. Se você quiser saber um pouquinho mais desta história, recomendo-lhe:
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o livro “Cisnes Selvagens”, de Jung Chang. Aliás, quando tiver um pouco mais de tempo, resenho este livro por aqui. Excelente obra. Explica na prática (através da vivência pessoal da autora) como os atos horrendos de Mao afetaram a sociedade chinesa;
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o filme “Balzac e a costureirinha chinesa”. Focado na Revolução Cultural, mostra a relação entre dois estudantes universitários que vão para o campo para se “reeducarem” e uma camponesa, através do encanto que eles têm com as obras de Balzac;
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o filme “O Último Imperador”. Na parte final, mostra um pouco da Revolução. Mas esta obra do Bertolucci é interessante mesmo para compreender o que foi a China até os anos 60 sob a ótica de Pu Yi (o último imperador).
Nem sei se Deng Pufang é ou não um cara honesto e íntegro (não vou ficar caçando isso e aliás acho que nem tenho como encontrar tais informações). Mas ele é um exemplo de como a China de hoje ainda carrega cicatrizes muito fortes da época de Mao. Não é por nada que o assunto Revolução Cultural é tabu por lá: provavelmente as pessoas que viveram aquilo têm vergonha de si próprias por terem se deixado levar por uma ignorância coletiva. E se tem uma coisa que o Deng Xiaoping fez certo depois que assumiu o poder foi não promover uma nova “caça às bruxas”. O que passou, passou, vamos tocar nossas vidas. E assim a China começou a trilhar o caminho para ser a potência que é hoje.

é, li uma biografia de mao e a parada foi pesada mesmo. conquistar coracoes e mentes, MESMO, essa revolucao cultural, fizeram toda uma juventude psico-comunista, e de propósito.
O negócio foi muito feio mesmo, Gabiru. Estou guardando um dia em que esteja realmente iluminado para resenhar o “Cisnes Selvagens” por aqui. O livro é tão bom, mas tão bom, que não merece ser colocado num post qualquer.
Abraços,
Só faltou você citar que foi o próprio Deng Xiaoping um dos defensores da posição correta de não demonizar a figura histórica de Mao Tsé-tung. Hoje em dia o Partido Comunista da China faz autocrítica do período da Revolução Cultural, mas em compensação, nunca abandonou o chamado “Pensamento Mao Tsé-tung” como teoria guia para à ação.Muito pelo contrário, Mao ainda é considerado um herói da sociedade chinesa, uma espécia de Bolívar asiático. Portanto, nós ocidentais, pouco podemos famalar das complexas contradições que envolvem a personalidade de Mao Tsé-tung, principalmente quando não conhecemos profundamente a realidade concreta da China.Lhe indico o ótimo livro de Deng Rong, filha de Xiaoping. Nele ela aborda todos os bastidores da vida de seu pai na época da Revolução Cultural.
Abraços!
Gabriel, acho que não disse explicitamente, mas foi isto que quis dizer implicitamente quando escrevi no último parágrafo a seguinte frase: “E se tem uma coisa que o Deng Xiaoping fez certo depois que assumiu o poder foi não promover uma nova “caça às bruxas”. O que passou, passou, vamos tocar nossas vidas. E assim a China começou a trilhar o caminho para ser a potência que é hoje.”.
Se ele começasse a demonizar a figura do Mao Tsé-Tung, aí todos que tivessem sofrido com a Revolução Cultural iriam cair de pau nos adversários e íamos ter novamente as brigas entre cidadãos chineses, paralisando economicamente o país. E olha que o Deng teria todos os motivos do mundo para iniciar uma “caça às bruxas”, mas não o fez.
Realmente o Mao ainda é visto como o “grande timoneiro”, o grande líder, o revolucionário que libertou o país do jugo e da tirania externa (pô, a China antes parecia um puteiro, quem chegava fudia o país). Mas ninguém por lá fala de Revolução Cultural ou “Grande Salto pra Frente”. São assuntos proibidos. O que indica que estes assuntos ainda são muito traumáticos para eles.
Abraços