O Secretário do Tesouro norte-americano anunciou hoje um grande plano de reforma no sistema de regulamentação financeira estadunidense, o maior desde a Grande Depressão de 1929. Este esquema é consequência da grave crise pela qual o país vem passando e que teve origem nos empréstimos subprime. Aliás, a crise em si é decorrência de uma falta de regulação mais pesada sobre os produtos bancários e fundos de investimento, até porque estes estavam bastante alavancados em operações que envolviam as hipotecas de má qualidade.
A idéia é melhorar os controles sobre todos os negócios existentes no sistema financeiro, desde bancos até as ditas cujas hipotecas. Isto faz total sentido pois como foi provado nesta crise do subprime todas as peças deste sistema estão intrinsecamente ligadas. Como exemplo disso, podemos tomar todos os grandes conglomerados financeiros americanos que assumiram perdas astronômicas em seus balanços recentemente.
Entre as medidas anunciadas, conforme a matéria do Estadão, estão as seguintes:
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maior poder ao Federal Reserve para proteger a estabilidade do sistema financeiro, enquanto que a supervisão bancária diária estaria a cargo de uma agência, e não de cinco, como acontece atualmente;
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criação de uma super agência encarregada da conduta empresarial e da proteção dos consumidores, a qual realizaria muitas das funções da atual Comissão de Valores e Câmbio;
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eliminação do caráter federal das poupanças, desdobrando a Agência de Supervisão de Instituições de Poupança – Office of Thrift Supervision – ao órgão regulador bancário nacional, a Autoridade Controladora da Moeda;
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criação de uma Comissão federal de Originação Hipotecária que estabeleça padrões mínimos recomendados para corretores de hipotecas, muitos dos quais operam atualmente fora da regulamentação federal; também dar os primeiros passos para um regulação federal da indústria de seguros dentro do Departamento do Tesouro.
O problema desta reforma é que ela está sendo proposta no apagar das luzes do governo Bush. Como ela deverá ser amplamente debatida no Congresso e o mesmo já está bastante envolvido na corrida eleitoral, provavelmente a implementação destas medidas, se aceitas, só ocorreria no mandato do próximo presidente. Os Democratas já reclamaram do plano, dizendo que ele não é tão profundo para lidar com a problemática atual existente.
Pelo visto, os yankees estão tentando de tudo para resolver a crise financeira que estão vivendo. Queda acentuada de juros, troca de títulos do Tesouro por outros atrelados às hipotecas podres, saneamento do sistema financeiro e agora um plano para melhorar a estrutura do mesmo.
Aliás, se não me engano, o ilustre economista John Kenneth Galbraith escreveu no livro “1929 – O Colapso da Bolsa” que um dos motivos da bolha de 29 foi justamente a falta de controles existentes no sistema financeiro. Ele até dizia que a crise dos anos 80 (a edição que eu li era desta época) não tinha o mesmo caráter da de 29 justamente porque o sistema já estava mais protegido, com instituições mais sólidas para salvaguardá-lo. Ao que parece, na atual crise, a história é diferente. Ex-ante é sempre difícil saber quais tipos de controle criar e o que deve ser analisado com mais cuidado. É só depois da vaca ir pro brejo que você identifica exatamente o que ocorreu. Porém não se pode negar que o Fed foi leniente com os hedge funds e com os próprios bancos com relação à quantidade de produtos bancários criados. Enfim, percebe-se nitidamente que, independente da análise que é feita sobre a crise, chega-se à conclusão que o mercado tem uma capacidade muito pequena de se auto-regular.
Pelo menos os EUA estão tentando cumprir os preceitos do “Consenso de Beijing”, principalmente o quinto deles: “estabelecimento de maiores controles nos mercados bancário, acionário e de derivativos”. O grupo de países do BRIC, capitaneados pela China, começa a se mostrar simpático às medidas adotadas pelos norte-americanos. Porém a primeira e a segunda medidas propostas pelo Consenso (“Rigorosa disciplina fiscal” e “Reorientação dos gastos públicos”) ainda não foram adotadas, o que torna a situação um pouco mais complicada. Talvez a China dê um desconto para os EUA, pois eles estão em ano de eleição e todos sabem as complicações que existem em períodos como esse. Vamos então à mesa de discussões!

Fica a recomendação: O Novo Modelo dos Mercados Financeiros, do George Soros. Estou lendo agora, e ele fala sobre a crise que estamos vivendo. Recomendado pelo Ricardo Amorim, no Manhattan Connection, e bem interessante.
P.S.: eu trabalho em um grande banco americano que acabou de ser ajudado pelo governo…imagina como estou me sentindo…
Tatiana, só fazendo uma pequena correção: procurei pelo livro e o nome do título é “O novo PARADIGMA para os mercados financeiros” – veja aqui na livraria cultura http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2611844&sid=015821664101121353107778218&k5=20A73222&uid=
Valeu pela dica, se tivesse tempo a leria mas agora com o fim de ano chegando…