Notícia requentada é uma coisa chata pra caramba. Mas mesmo assim tenho que falar sobre a demissão do jornalista Paulo Henrique Amorim (PHA) do portal iG. O caso ocorreu de forma rápida, pá-pum, quem demorou 5 segundos pra acessar o sítio perdeu o que lá estava escrito. Diz PHA que foi pego de surpresa e que a ação foi totalmente unilateral, havendo inclusive a proibição da equipe que trabalhava na sua página de acessar os arquivos que existiam na homepage.
Fato é que o negócio foi estranho, para dizer o mínimo. PHA denunciou em sua nova página (www.paulohenriqueamorim.com.br) que Daniel Dantas (DD) o havia tirado do “ar” já duas vezes, no UOL e na TV Cultura. Deu a entender que, por causa das notícias que publicava (nem digo denúncias porque PHA escrevia de forma tão cifrada que quase ninguém entendia aquilo) sobre DD, Brasil Telecom, Citigroup, Oi, etc, etc, havia sido desplugado. Já o iG disse que o rompimento estava previsto em cláusula contratual e que o custo de manter PHA no ar era muito alto vis-a-vis o retorno gerado.
(Aliás, que obsessão têm PHA e Mino Carta com o tal do Daniel Dantas, hein?)
Enfim, a blogosfera debateu bastante o assunto. Só para ficar em dois exemplos: o NaPrática achou uma pena uma voz dissonante como a do PHA ter sido demitida de um portal de peso da internet brasileira como o iG; já o A Torre de Marfim ressaltou que se PHA foi realmente demitido por causa da encheção de saco que fazia em cima de DD (o que revelaria o “enorme” poder de tal figura), teríamos ‘n’ coisas mais importantes para discutir no país que não fossem o poder de fogo dele (o post que contém tal comentário no “A Torre…” é o “Dantocentrismo e sincera perplexidade”).
Lia a página do PHA mais ou menos a cada 15 dias. E digo que as coisas ali eram bem genéricas, quase que em código. Reclamações contra a PIG (sei lá o que é isso, mas a idéia é mais ou menos a de uma “porca imprensa golpista”), contra os atuais partidos de oposição, DD, empresas privatizadas, mas tudo sem apresentar provas contundentes. Ou seja, o cara enchia o saco falando de coisas que a grande imprensa em geral não discutia muito. Eu gostava deste aspecto do sítio dele e por isso acredito que a imprensa deveria ter dado mais notoriedade sobre a suposta tentativa de “cala-boca” que o iG tenha dado nele. Por que isso ocorreu? Pode realmente ser uma questão de custo-benefício, como o manager do iG, Caio Túlio Costa, falou. Mas e se for outra coisa? Complicado, não?
Não gosto muito dos editoriais que o Mino Carta publica semanalmente na sua revista, a Carta Capital (aliás, só para citar, Mino tirou o seu fraco blog do ar no iG em solidariedade a PHA). Mas esta semana ele escreveu um texto muito bom chamado “O Silêncio e a Calúnia”. Reproduzo abaixo um excerto significativo, na minha opinião:
Ocorre-me comparar o mutismo atual diante de um fato tão chocante com a indignação midiática que, recentemente, submergiu a campanha de ações movidas em juízo por fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus contra a jornalista Elvira Lobato, da Folha de S.Paulo, autora de reportagem sobre o êxito empresarial da Iurd. Não está claro até o momento se o Altíssimo acudiu o bispo Macedo e seus prosélitos, mas é certo que, se o fez, ou o fizer, terá de enfrentar a ira da mídia nativa.
Foi um coro de manifestações a favor da liberdade de expressão ameaçada, um rosário de editoriais candentes, de colunas vitriólicas, de comunicados de entidades representativas da categoria. A saber, Fenaj, ABI, ANJ, Abraji, sem contar a associação dos correspondentes estrangeiros (OPC). Ah, sim, a famosa liberdade de imprensa. A mídia verde-amarela não hesita em defendê-la, quando lhe convém. Permito-me concluir que, no caso de Paulo Henrique Amorim, não lhe convém.”
O ponto é esse. Se interessou (com razão) à imprensa discutir a sacanagem da Universal pra cima da jornalista Elvira Lobato, tem de existir interesse em discutir uma suposta sacanagem do iG pra cima do PHA. Concordo com Mino, no ponto acima, em número, gênero e grau. Temos coisas muito mais importantes para discutir, obviamente. Mas se deixarmos o caso PHA de lado para onde vão a liberdade de imprensa e a imparcialidade da mesma?
Repito: não acho o PHA genial. Até acho chato o cara babar um ovo desgramado para a Record (quem assiste ao “Domingo Espetacular”, programa da emissora que tenta copiar o Fantástico, sabe do que estou falando – teve um dia que ele fez uma reportagem na qual o bispo Macedo quase foi beatificado). Mas que há cheiro de sacanagem na sua demissão do iG, ah, isso há.

Entre os vários juízos “livres” de valor (expressões denotativas e não descritivas) contidas no texto gostaria de destacar somente algo próximo de um ato falho que está registrado na parte final, quando afirma-se que o programa da TV Record “tenta copiar o Fantástico”.
É muito interessante como tanta gente que não tem interesse direto em tutelar a “grandiosidade” da Rede Globo acaba fazendo-o instintivamente, como se esta instituição, que está muito mais próxima de representar interesses internacionais que os nacionais (e é para isso que foi criada ao raiar do Golpe Militar, no auge da Guerra Fria, embora esta história notória seja esquecida com tanta facilidade e embora não haja aqui espaço para demonstração mais detalhada da forma como a Globo representa interesses alienígenas até hoje), fosse parte da nossa própria identidade e digna de veneração hierática.
Até eu, na juventude, já me surpreendi tomado pelo sentimento de antipatia por quem ousasse ameaçar a supremacia da Globo, como se fora ela redentora de meu senso de valor como cidadão/telespectador brasileiro (isso antes de que eu fosse transmutado em cidadão/consumidor, que me deu novas dimensões sobre a grandeza do universo).