Arquivo para Abril 3rd, 2008

A Arte do Videoclipe – O outro lado do Red Hot

Se nos perguntarmos de que banda foi o ano 2000, com certeza teremos como resposta o Red Hot Chili Peppers. Não que os caras não tenham feito sucesso anteriormente, muito pelo contrário. Mas é que com o álbum “Californication” o grupo chegou a um patamar inimaginável anteriormente. Aliás, que eu me lembre, este é o álbum que mais emplacou hits de 00 pra cá (foram 6, um atrás do outro, a saber: “Scar Tissue”, “Around the World”, “Californication”, “Easily”, “Road Trippin’” e “Otherside”).

Alguns não consideram este álbum o melhor da banda. Mas creio que quanto ao quesito sucesso não haja discussão pois o disco vendeu mais de 15 milhões de cópias ao redor do mundo. E desse mato tinha que sair videoclipe bom. Bem, saíram dois. O mais comentado foi o da música-título do álbum, “Californication”, pois o clipe era uma imitação de um joguinho de videogame, muito bem feito por sinal. Se você quiser, veja-o aqui.

Mas o videoclipe que eu elejo desse álbum é outro: “Otherside”. Dirigido por Jonathan Davis e Valerie Faris (os mesmos do ótimo filme “Pequena Miss Sunshine”), o clipe mostra basicamente um sonho, com vários elementos irreais e absurdos ocorrendo um após o outro com o rapaz que é protagonista. Parece aqueles pesadelos malucos que temos de vez em quando, onde brigamos contra tudo e contra todos, tentando escapar de algo ilusório criado por nossa mente.

Sabia que o clipe tinha influências nítidas do Cubismo e do artista gráfico Eschen Escher. Porém, pesquisando um pouco mais, verifiquei que o clipe é mesmo fortemente permeado por elementos do Expressionismo alemão, que foi bastante utilizado no início do século passado no cinema (o famoso “Metropolis”, de Fritz Lang, faz parte desta vanguarda). É por isso que você notará um certo ar de filme antigo, com a imagem e os elementos escuros e meio que deteriorados.

Enquanto isto os músicos da banda aparecem tocando instrumentos “imaginários”, fazendo parte do sonho e da loucura toda que está acontecendo. Isto ajuda a fortalecer o som, principalmente na parte do baixo, onde o Flea (que para mim é um dos melhores baixistas de banda de rock do mundo) bota pra quebrar em cima dos cabos de energia. Ou seja, a banda não é a protagonista propriamente dita mas faz parte de tudo que ocorre e contribui para a criação de um cenário bacana.

Por isso tudo, “Otherside” é um clipe que merece ser visto e revisto muitas vezes. Pra você que não viu ainda, aprecie. Pra você que já viu, será um prazer rever a obra e notar a qualidade existente neste videoclipe artístico.

P.S.: O Jonathan Davis e a Valerie Faris já dirigiram outros clipes com características idênticas à de “Otherside”. Vejam, por exemplo, “Tonight, tonight” (Smashing Pumpkins) e “All around the world” (Oasis). Este casal, aliás, dirige muitos videoclipes bacanas. Lembram-se do “A arte do videoclipe” de duas semanas atrás? Pois bem, “Freak on a Leash” (Korn) também é deles, com co-direção do Todd McFarlane e Graham Morris.

Fim do Angra? Ainda não.

Uma das melhores bandas de metal do Brasil dos anos 90 e 2000 é o Angra (na minha opinião, a melhor de todas). Os caras mandam muito bem, com melodias bem feitas e com muitas músicas cheias de influência da música brasileira. Não fez todo o sucesso que o Sepultura fez, até porque este atingiu o maior mercado musical do mundo, os EUA (se não me falha a memória, o “Roots” vendeu 1 milhão de cópias por lá). Mas chegou forte no mercado internacional, com sucesso até razoável na Ásia (principalmente Japão) e Europa (principalmente França).

A história da banda, resumidamente, é mais ou menos essa: em 1993, André Matos, ex-vocalista do Viper (segundo o NaPrática, uma excelente banda de metal dos anos 80), juntou-se a outros 4 músicos – a saber: os guitarristas Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt, o baixista Luís Mariutti e o baterista Rafael Confessori – e formou a banda, a qual estreou com um álbum excelente, o “Angels Cry”. Com esta mesma formação, fizeram mais dois álbuns: o “Holy Land” (de 96, cheio de ritmos nacionais) e o “Fireworks” (98).

Em 2000, apenas os dois guitarristas continuam na banda por brigas internas. Os demais elementos formam o conjunto Shaman (que depois virou Shaaman e já acabou). Quando todo mundo pensava que o Angra ia acabar, os excelentes guitarristas Loureiro e Bittencourt recrutam Aquiles Priester (bateria), Edu Falaschi (vocal) e Felipe Andreoli (baixo) e, com esta formação, produzem os álbuns “Rebirth” (de 2001, muito bom), “Temple of Shadows” (de 2004, o melhor álbum de metal brasileiro dos últimos tempos na minha opinião, contando inclusive com a participação especial de Milton Nascimento em uma música) e o “Aurora Consurgens” (2006).

Pois bem, agora a banda está parada. Hoje, por acaso, encontrei uma entrevista com o guitarrista Rafael Bittencourt na internet. E fiquei espantado. O cara fala sobre um álbum solo que lançará, meio que desconversa sobre um possível boato de que a banda acabaria e lá pelas tantas, me solta essa:

O Angra não acabou. Pelo menos, por enquanto. O fato é que as coisas continuam incertas e que o empresário se endividou com terceiros, a ponto de sua inadimplência resultar na penhora da marca Angra. Ele deixou a banda sem informação, completamente sem saber o que estava acontecendo.”

Rapaz, é a primeira vez que vejo isso. Muitas bandas já acabaram porque os membros brigaram. Outras tantas porque ou alguém do grupo morreu ou ficou debilitado. Agora acabar porque dívidas fizeram com que a marca da banda fosse penhorada, essa é nova. Os músicos do Angra botaram dirigente de futebol pra cuidarem de suas carreiras enquanto grupo? Pô, tá parecendo o Guarani! Vai precisar vender a jóia da coroa pra sobreviver, isto se sobreviver.

Uma pena se a banda realmente acabar, seja pelo que foi alegado acima ou por desgaste de relacionamento dos membros (motivo pra mim mais forte do que o afirmado na entrevista de Rafael). Faltam bandas de qualidade no cenário nacional e perder o Angra seria uma grande lástima.

Enquanto a banda não decide seus rumos, mostrarei abaixo duas músicas deles. Uma da primeira fase, quando o André Matos ainda era vocalista: “Carry On” (hino da banda e carro-chefe do “Angels Cry”). Depois, algo mais recente: “Wishing Well” (do álbum “Temple of Shadows” – aliás, ouçam-no, é muito bom mesmo!). E que o grupo não acabe por penhora da marca porque isso seria feio demais…

Barbie globalizada

barbieindiana1.jpgbarbiebaiana1.jpgbarbieperuana1.jpgIsto é que é globalização. No Moinhos Shopping, de Porto Alegre, acontece até o dia 13 de abril a exposição “Barbie pelo mundo”. As várias versões das bonequinhas representando todo o mundo são apresentadas na exposição e ao lado coloquei a foto de três delas: a Barbie indiana, a baiana e a peruana.

A mais bonita de todas nas fotos acima é a peruana. Inclusive a jovem moça tem até um lindo bebezinho de toca nos braços. Parece até uma rapunzel, com suas enormes tranças.

Nestes tempos de ventos globais (inclusive com controle acionário de empresas norte-americanas e européias passando às mãos de chineses e árabes), será que veremos algum dia tais Barbies nas lojas? Será que a loirinha anoréxica de sempre dará lugar às Barbies locais, inclusive a negrinha baiana mostrada na foto acima?

Duvido muito. Mas eu também duvidava muito que algum dia uma parte significativa do Citigroup estaria nas mãos de fundos de investimentos de Abu Dhabi. Pois é, se isso ocorreu, não é muito difícil a Barbie baianinha aparecer na RiHappy ou na PBKids, né?

Mar Adentro

maradentro1.jpgRevi há pouco o excelente filme “Mar Adentro” (Espanha, 2004, dirigido por Alejandro Amenábar). Quando você gosta muito de um filme creio que valha a pena assisti-lo novamente pois coisas novas serão notadas e você não ficará enfadado. Foi o que aconteceu comigo ao rever o filme espanhol: na primeira vez, me fixei bastante na história em si. Nesta segunda, por já saber o que iria ocorrer, prestei mais atenção na atuação do Javier Bardem.

Por isso posso dizer que Javier é um dos melhores atores da atualidade. Só vi dois filmes do cara (o outro foi “Onde os fracos não têm vez”, que já comentei por aqui), mas como ele matou a pau nos dois posso afirmar realmente que o cara é muito bom.

Em “Mar Adentro”, seu personagem (Ramon Sampedro) é um ex-marinheiro que está tetraplégico há 27 anos. Por estar nesta situação e depender sempre dos outros para tudo, ele deseja se matar. Mas para isto precisa da ajuda de alguém. O problema é que isto é crime segundo as leis espanholas. Deste modo, com a ajuda de uma associação voltada para ajudar pessoas que desejam fazer a eutanásia, ele tenta provar legalmente que seu desejo de morrer é um ato legítimo.

Muitas pessoas vão se relacionando com ele e compartilhando de seus problemas e de sua agonia. Os familiares (irmão, cunhada, avô e sobrinho) entregam-se quase que integralmente às tarefas que são requeridas pela atual situação dele. A advogada da associação, Julia, entende e deseja ajudar Sampedro pois ela também tem uma doença que a deixará muito enferma, o Cadasil. Uma moça humilde, Rosa, vem para conversar com Ramon  quase que diariamente, tornando-o um confidente. E assim as coisas vão indo.

E nisso você vai vendo uma atuação espetacular de Bardem, com um personagem resignado com a morte e que é sarcástico a todo momento, inclusive com relação à sua própria situação. Se alguém pensa por aí que interpretar um tetraplégico é algo fácil só porque o ator vai ficar lá parado numa boa, está redondamente enganado. Javier é, sem tirar nem por, um tetraplégico naquele filme. Você não consegue imaginá-lo na vida real de outra maneira. Incrível isto. O cara entrou de corpo e alma no personagem e mandou muito bem.

Fora a atuação de Bardem, o filme é muito bom. Primeiro, porque não é apelativo: Ramon não é visto como um incapacitado mas sim com uma pessoa resignada e chateada com a situação que vive há 27 anos. Além disso, algumas falas são excelentes, principalmente as reflexões e os poemas de Sampedro. Outra característica é bem interessante: o filme cruza várias realidades distintas e monta um quadro interessante de diferentes pontos-de-vista acerca da eutanásia.

Saber que aquilo que está sendo contado foi uma história real nos deixa sensibilizados. E se você ficasse daquele jeito (tetraplégico)? Será que gostaria de continuar a viver? Ou que, se continuasse levando a vida, aguentaria 27 anos naquela situação? Difícil. Pelo menos eu digo uma coisa: se um cara nestas condições quiser se matar, ele tem todo o direito de fazê-lo. E com a ajuda legalizada de alguém. “Viver é um direito, não uma obrigação”, diz o próprio Ramon Sampedro na história. E eu concordo com ele.

“Mar Adentro” ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2004 e foi indicado ao de melhor maquiagem, além de ter concorrido e ganho vários outros prêmios internacionais. Não só pelos prêmios, mas por tudo que disse acima, indico o filme a todos. Com certeza vocês não se arrenpederão.

O poema final (que inclusive dá nome ao filme) é bem bonito e por isso o reproduzei abaixo.

MAR ADENTRO

Mar adentro,
mar adentro.

Y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo,
es como penetrar al centro del universo.

El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo.

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
‘más adentro’, ‘más adentro’
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.


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