O Brasil acabou de receber o título de grau de investimento por parte da Standard & Poor´s. Isto significa que, para esta agência, o Brasil entrou para o grupo de nações que tem baixa possibilidade de inadimplência.
Ou seja, agora tudo mudou! Nossa vida agora será outra! Pujança econômica, fim da desigualdade de renda, crescimento alto para sempre, impostos em queda, enfim, nossa vida agora é outra. A bolsa subiu mais de 6% hoje, o dólar vai cair bastante, enfim, tudo está melhorando, e muito! Por isso, aproveite! A partir de sexta, o Brasil será outro muito, mas muito diferente!
Brincadeiras à parte, já era mais do que hora. Dado que até o Peru tinha recebido o grau de investimento e que estas agências estavam mais queimadas do que canavial em época de colheita, o mínimo que se esperava era que o Brasil recebesse esta nota positiva. Pô, o país vem mantendo inflação de país civilizado há um tempo bacana e tem tido um crescimento bom – tendo como pano de fundo um ambiente democrático e no qual as instituições têm funcionado de maneira razoável.
Na prática, o que ocorrerá? A curto prazo, mais investimento em ações de empresas e títulos do governo brasileiro pois existem inúmeros fundos internacionais (principalmente os de fundos de pensão) que proíbem, por estatuto, o investimento em países que não sejam considerados portos seguros (em outras palavras, que não tenham o dito cujo grau de investimento). Consequência imediata: mais pressão baixista para o dólar.
A longo prazo, o ganho do país com a melhoria da sua imagem perante investidores internacionais pode fazer com que o Brasil tenha investimentos mais perenes, duradouros e não especulativos. Ou seja, investimentos que venham pra ficar e não somente para aproveitar ganhos extraordinários de curtíssimo prazo (que, a qualquer sinal de crise, vão embora rapidamente…).
Então, não se esqueça: a partir de sexta, sua vida mudou mesmo que você não perceba nada de diferente ocorrendo com ela, ok?

Que a vida mudou o país inteiro já percebeu há muito tempo. Está quantifificado.
O IG é apenas o reconhecimento “oficial” dos investidores. O reconhecimento ná prática já vem de longo tempo – na verdade, 5 anos. Também está quantificado.
PS. O resultado imediato de investimentos estrangeiros diretos é o aumento da capacidade da indústria, a melhora da infra-estrutura, geração de renda e emprego. Pressão baixista do dólar vem no fim da lista.
Fábio, concordo com você sobre o grau de investimento ser apenas um ratificação daquilo que já vem ocorrendo há algum tempo para os investidores internacionais. Só acho que não teremos como resultado imediato o aumento da capacidade da indústria, a melhora de infra-estrutura e a maior geração de emprego e renda. Creio que isto venha a ocorrer a médio prazo, conforme as empresas e o governo forem conseguindo financiamentos com juros menores e prazos maiores, sendo estes obtidos pelo país ser um “investment grade”.
Já a pressão baixista do dólar deve se revelar nos próximos dias, a medida que mais investidores internacionais entrarem na bolsa brasileira e nos nossos mercados de títulos e de derivativos. A Bovespa hoje inclusive já subiu 6%. Aliás, se não me engano, isto é o que acontece com a maioria dos países que recebe o IG: seus mercados de ativos sobem bastante de cara e depois voltam para um patamar de equilíbrio maior que o anterior ao recebimento do IG.
Enfim, são diferentes análises que só saberemos se ocorrerão na prática nas próximas semanas e meses.
Valeu pelo comentário e pela visita.
Abraços,
Concordo em gênero, número e grau.
Tem mais um detalhe. O investimento é bem vindo e tals, mas no médio/longo prazo ele gera fluxos de divisas para fora do país devido ao repatriamento de lucros. Portanto, se esse investimento (que quando vem é “once and for all”) não for aplicado em atividades que gerem ingresso de divisas (exportações), ele acaba compensando a pressão baixista. Mas a curto prazo o efeito é esse mesmo que disseste.
Certíssimo, André.
O que eu pretendia dizer quando disse que a “pressão baixista do dólar vem no fim da lista” era em termos de importância, não de sequência temporal.
Em todo caso, esse “a médio prazo” dos efeitos do crescimento do investimento direto já vem acontecendo a algum tempo – os efeitos já são visíveis hoje (aumento da produção com diminuição do uso da capacidade instalada, sem pressão inflacionária). O IG só reforça essa tendência.
Ah, entendi o seu ponto Fábio. Mas tem um dado que eu quero pontuar pra você: na ata da última reunião do Copom eles expressaram que, dentre as várias justificativas para aumentar o juro em 0,5%, uma coisa que está ocorrendo é o que eles enxergam ser o “descompasso entre oferta e demanda” que vem ocorrendo. Utilizam como dado relevante a série da FGV que mede a utilização de capacidade instalada, a qual tem chegado perto dos recordes históricos nas últimas medições. Ou seja, ao menos por enquanto o aumento de produção está ocorrendo com aumento do uso de capacidade instalada, o que estaria pressionando a inflação.
Fiz um post sobre esta ata do Copom (ele está em http://avoltadosquenaoforam.wordpress.com/2008/04/24/copom-e-o-aumento-de-05-na-selic/) e lá está expressa esta preocupação. Com o grau de investimento, a médio prazo, as empresas conseguirão financiamento melhores no exterior, podendo, assim, aumentar sua capacidade instalada, como ambos concordamos.
Abraços,
André
Sem querer ser insistente, mas já sendo, vou comentar uns pontos do seu post anterior e de citações dele::
“A redução da capacidade ociosa, em relação às margens usualmente observadas, manifesta-se em diversos setores e ocorre a despeito do aumento substancial do volume de investimentos (…) Dados recentes sugerem que, embora o investimento venha contribuindo para suavizar a tendência de elevação das taxas de utilização da capacidade, não tem sido suficiente para conter tal processo.” (ata do copom)
“Um aumento da oferta, que poderia suprir este aumento de demanda atual, parece não ocorrer no nível adequado pois a capacidade instalada já chegou no seu pico histórico.” (seu comentário)
De fato, o uso da capacidade instalada chegou a seu pico em outubro passado: 87%. Mas os investimentos só passaram a ocorrer depois da ocupação da capacidade ociosa, e já se fizeram sentir:
“Uso da capacidade instalada nas indústrias recua de 80% para 75%
Ter, 29 Abr, 05h35
SÃO PAULO – A utilização da capacidade instalada das indústrias caiu, passando de 80%, nos três meses finais de 2007, para 75% nos três primeiros meses deste ano. O dado, que integra a Sondagem Industrial divulgada nesta terça-feira (29) pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), é considerado importante, porque pode sinalizar ameaça à taxa de inflação do País.
“O resultado é um aparente paradoxo que pode ser explicado pelo aumento da capacidade de produção das indústrias com a maturação de investimentos”, ponderou o gerente de Pesquisa, Avaliação e Desenvolvimento da CNI, Renato da Fonseca.”
(http://br.noticias.yahoo.com/s/080429/22/gjmz0i.html)
Outro indicador que aponta na mesma direção é o fato da inflação ser externa, causada pela alta das commodities, não pelos produtos industriais:
“Francini [FIESP], parafraseando o ex-ministro Delfim Netto, criticou o “terrorismo” demonstrado na última ata divulgada pelo Copom, com a indicação de que o BC chegou a considerar elevar os juros já em março. “Pareceu coisa da mãe que diz para o filho escovar os dentes, senão o coloca de castigo. A indústria tem feito o que deve”, defendeu. Ele ressaltou que nem mesmo o consumo elevado estimulou o aumento de preços. “Mesmo com o boom da indústria automotiva, os preços dos automóveis aumentaram apenas 2,6%, abaixo da inflação, ou seja, absolutamente comportados. Não vemos esse grau de risco”, afirmou, ressaltando que a demanda do mercado interno é muito saudável, principalmente em um panorama externo de possível crise.”
Em todo caso, devo estar chovendo no molhado: os argumentos acima são de conhecimento público, e ainda assim o mercado, antes do Copom, vinha trabalhando com um aumento dos juros.
Pô Fábio, excelentes dados estes que você arranjou, hein? Caramba, andas atualizado com os dados econômicos mais atuais, incrível isto. Valeu por ter apresentado esta reportagem sobre a capacidade industrial.
Porém segundo a série da FGV (que eu creio ser a que o Bacen utiliza), a capacidade instalada ainda está próxima de seu pico histórico. Veja:
“O Nível de Utilização de Capacidade Instalada (Nuci) da indústria ficou estável em 85,2% em abril, na comparação a março, segundo dado divulgado hoje pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Assim como em março, o Nuci registrado em abril foi o maior desde dezembro do ano passado, quando atingiu patamar de 86,7%. Ou seja: em abril, o nível de utilização de capacidade da indústria também foi o maior de 2008.
Na série trimestral com ajuste sazonal do Nuci, o nível de utilização de capacidade instalada em abril ficou em 85,6% – o maior desde o terceiro trimestre de 2007 (85,8%).”
http://br.noticias.yahoo.com/s/30042008/25/economia-fgv-da-capacidade-industrial-fica-estavel-85-2.html
Cara, temos uma contradição entre a pesquisa da FGV e a da CNI então (ou talvez seja uma diferença metodológica, a qual eu não saberia explicar pois não conheço as duas pesquisas a fundo…)
Mas, com certeza, o Copom vai ter que levar em conta as análises na próxima reunião. Só citei a questão da capacidade instalada no comentário anterior porque me pareceu ser algo de suma importância pra eles, etc, etc…
Enfim, temos mais um economista trazendo dados relevantes para o debate neste blog e como diria o dr. NaPrática, “se este blog tem algo de bom, com certeza são os comentários…”
Abraços,
É, André, é difícil confiar em dados quando temos tantos interesses envolvidos. 75% para 85% é uma diferença imensa.
Um abração