Estava querendo comentar sobre um texto que saiu há quase um mês no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo mas acabei me esquecendo. Depois custei a achá-lo pois não sabia quem o tinha escrito. Hoje a busca acabou.
O texto é de Nick Coleman, colunista do The Guardian, e fala sobre o seu sofrimento após perder parte da audição de maneira súbita. Coleman é crítico musical e a tragicidade da sua experiência pode ser notada pelo título do post (retirado de um excerto do texto) e pela seguinte frase: “a música é a grande paixão da minha vida. Escrevo sobre ela, e também toco um pouco. Preferiria perder um pé, um olho…”.
O que ocorreu com o crítico? Ele mesmo descreve:
Eu estava me sentindo estranho. Mais lânguido do que costumo, nas manhãs. Minha cabeça parecia mais densa, como se a tivessem enchido de areia, durante a noite. Mas era minha vez de preparar o chá e, por isso, rolei na cama e… pfff. Um ouvido parou de funcionar. Depois, quando tentei me sentar, eu não conseguia parar direito em posição perpendicular. O quarto parecia flutuar. Os “pês” e os “efes” nos meus ouvidos se tornaram mais barulhentos. Senti enjôo.
A perda auditiva neurossensorial súbita (SNHL, em inglês) tem esse nome porque ninguém pensou em designação melhor, basicamente porque ninguém sabe direito o que seja. O que se conhece sobre o problema são seus efeitos: a audição desaparece subitamente, e a vítima perde todo senso de equilíbrio. Qualquer movimento resulta em vertigem aguda, e vômito. O paciente pode perder a visão, igualmente. As causas mais prováveis são virais ou vasculares e resultam em que partes importantes do aparelho neural fiquem privadas de sangue. Danos permanentes são infligidos às células capilares do ouvido interno, que servem como condutores vitais de informação ao cérebro. Quando elas são destruídas, não retornam mais. A SNHL é realmente uma doença calamitosa.”
Coleman vai descrevendo os problemas oriundos da sua doença. Seleciono alguns trechos nos quais ele fala como ficou sua relação com a música depois da perda súbita de audição:
E o que acontece com a música, nesse caso? Ela praticamente desaparece. Uma boa comparação é que posso escutar música, mas não ouvi-la, pelo menos não por prazer. O que ouço é monofônico, e vem no extremo mais distante de qualquer que seja o rugido que parece estar ocupando minha cabeça. Música é simplesmente um som, agora. Deixou de ser, para mim, aquilo que representou por uns bons 40 dos meus 47 anos, até o final de agosto.
(…) cambaleei até uma pré-estréia de “The Song Remains the Same”, o filme que mostra uma turnê do Led Zeppelin e está sendo lançado em DVD, com som remasterizado. É um filme idiota, mas gosto dele, e me parecia uma oportunidade ideal de testar uma ou duas coisas: primeiro, o significado da familiaridade na resposta emocional à música, e, segundo, se procedia a vaga sensação que senti ao assistir à cerimônia no Cenotáfio, a de que a imagem podia ajudar no processo de ouvir música. (Sei que vocês estão aí pensando: Led Zeppelin? Emoção? Você deve ser o maior esquisito. Mas a verdade é que o Led Zeppelin sempre me propiciou grande prazer emocional, e suspeito de que esse prazer não difira muito daquele que Sacks sentia ao observar o movimento das folhas.) (…) Estrondo tombo pancada. Consegui agüentar três canções e saí do cinema segurando a cabeça com as mãos, completamente desorientado. O zumbido nos ouvidos me conduziu ao limiar da dor física. Grande proporção da música era simplesmente indistinguível. A guitarra de Jimmy Page, em especial, parecia uma tempestade de som desafinado.”
Depois de uma série de explicações neurológicas para o seu problema, Coleman descreve que:
sei que o único jeito de avançar, em minha situação, é continuar ouvindo música, ainda que doa. Quanto mais ouvir, maior a chance de adaptação do córtex, mas também maior a chance que minha memória terá de me ajudar a redescobrir a sensação do que a música costumava trazer.
Mas continuo a perceber a música como uma superfície chata, presa a uma faixa de espaço do lado de minha cabeça que fica oposto ao ruído. Sinto como que uma dor. Mas estou descobrindo minha capacidade de “ler” música de uma maneira diferente. Ainda que isso requeira grande esforço.
A música sempre me penetrou sem esforço isso foi sempre uma parte do prazer que ela me propiciava. Seu poder de invadir, saturar, era sua maior força. E, em resposta, sempre me senti deliciado por ser o recipiente passivo. Mas isso já não funciona. Agora, preciso brigar para ouvir música, resistir ao desconforto que o processo de audição causa e abrir espaço para que a música possa se mover mais em minha cabeça e também, evidentemente ou pelo menos assim espero com grande fervor para que a música um dia reconquiste seu esplendor tridimensional e devolva meus edifícios. “
Como vocês já devem ter percebido, a categoria do “A Volta…” que tem mais posts escritos é a que versa sobre música. Adoro este assunto (mesmo que não toque nenhum instrumento), considero-me um cara eclético e dou uma grande importância aos sons e sensações que cada canção produz em mim. Aliás, consigo lembrar de fases da minha vida, de momentos, de pessoas, de lugares, enfim, de tudo, através da música. Ouço alguma canção, por pior que seja, e meu cérebro já a associa a algo. Algumas destas associações são tão fortes que entro numa espécie de déjà vu quando menos espero, somente de ouvir uma música.
É por isso que compartilhei o texto do Coleman com vocês todos (aliás, leiam-no na íntegra se puderem, é bem legal). Me coloquei no lugar dele e, naquela situação, tenho certeza que perderia grande parte de uma coisa que me dá um prazer enorme. E o caso dele é tão complicado que, mais que perder um sentido completo (a audição), por meio da perda parcial ele teve aquilo que mais amava – a música – totalmente deturpado. Ou seja, algo que lhe dava prazer começou a lhe causar uma sensação completamente oposta.
Meio depressivo o assunto, mas às vezes é bom a gente saber o que podemos perder para valorizar aquilo que temos e que muitas vezes não ligamos. Fica a lição: a música tá aí para que tenhamos mais prazer através dela, capice?
Últimos Comentários