Se tem um reality show que eu vi bastante e que ainda vejo com certa frequência, este é o “O Aprendiz”. Ontem começou a quinta edição do programa, cujo vencedor será sócio do “magnânimo” Roberto Justus, além de ganhar um prêmio de R$ 2 milhões de reais (pô, o dobro do “Big Shit Brazil!”).
Aí você deve estar pensando: “Que é isso, André? Vendo ‘O Aprendiz’? Entrou na farra do ‘pão e circo’? Tá gostando de ver gente humilhada na TV?”. Nada disso. Vejo o programa (ainda) por um simples motivo: aquilo é uma paródia do que vem a ser o mundo empresarial. “Ahn?” É, é verdade. Um mundo que se mostra sólido, de pessoas altamente qualificadas, arrojadas, dinâmicas, que entregam o resultado, que têm foco, blá-blá-blá… mas que, na verdade, revela-se um mundo vazio por dentro, um gigante com pés de barro, de pessoas que gostam de fórmulas prontas e que são capazes de dar rasteira no próximo sem pestanejar.
O pior é que o próprio apresentador, com todo um jeito de “executivo de sucesso”, também faz parte deste mundinho. Ao pisar nos candidatos sem dó nem piedade, muito mais do que ganhar audiência, Justus cria uma aura de homem implacável, tornando-se paradigma do que viria a ser o “homem de negócios ideal”. O problema é que esta humilhação promovida por ele é um fim em si mesma: não se nota uma linha de pensamento, um estilo de ação, nada disso. Tudo varia conforme o humor do homem. Por exemplo: se um dos candidatos contrariou o líder do seu grupo numa determinada prova, Justus pode considerá-lo tanto um “agitador” quanto uma “pessoa dinâmica e pró-ativa”. Ser encaixado numa ou noutra categoria dependerá de como ele te vê. Ou seja, Justus é o “imperador” do programa.
Senão, vejamos. Ontem, na estréia, o homem estava mais do que atacado. Dava “corda” para que os candidatos se “enforcassem” na maior, e os caras entravam na onda. Estrupiava todos eles, citando seu poderio econômico: “hoje eu tô te mantendo no programa, mas se você fizer esta besteira de novo, eu não te darei dinheiro algum nem sociedade alguma, entendeu? Fui claro?”. Corrigia o português dos candidatos a todo momento, com um ar de Pasquale Cipro Neto de dar inveja. Em alguns momentos, até dava uma de malandro: “Vocês anunciaram o evento como ‘corrida dos patos’. Não sei se vocês sabem, mas ‘pato’ no Brasil também é mané… Quer dizer então que vocês queriam fazer um evento para manés? Quem iria neste evento? Tsc, tsc… lamentável. Era só colocar ‘corrida DE patos’ e tudo estaria correto. Olha o português, pessoal…”.
Aí você vê o seguinte: neguinho que sai por aí dizendo que é empreendedor, que entrega resultados, que tem duzentos MBAs, que é isso, que é aquilo outro e talz, na verdade é um cara que tem idéias de mula, que não sabe falar corretamente a língua materna, que só quer puxar o tapete do outro, que repete chavões vazios com um ar de doutor (tipo ’sem planejamento não se alcançam resultados positivos; o planejamento é a chave do sucesso!’)… Por isso eu ainda vejo o programa: aquilo é o mundo empresarial em miniatura. Tá certo que se salva um ou outro no meio da bagunça, mas a maioria dos candidatos (selecionados entre milhares, ou seja, os melhores dos melhores) são fracos mesmo.
E o melhor: todos eles aceitam com resignação a pecha que Justus lhes coloca. Praticamente um súdito ajoelhando perante o imperador. Teve até um cara que “demitiu o Justus” da sua vida num programa anterior, mas aí depois foi tão escrachado e humilhado que saiu com o rabo entre as pernas, chorando e pedindo desculpas pelo seu ato. Esse aí, ainda por cima, era um verdadeiro cagão.
Ainda tem mais: o apoteótico final de cada episódio. Justus sempre fica entre dois candidatos para decidir qual deles demitirá. Titubeia pra um, humilha o outro, põe um contra o outro (fazendo a famosa pergunta: “por que devo demitir ele e não você?”, fala uns ensinamentos de quinta categoria e… pumba! “Você está demitido” é dito para um dos participantes.
Então, nada de ver “O Aprendiz” para saber como funciona o mundo dos negócios. Aquilo ali serve pra você rir de uma coisa que por fora parece “boa viola” mas por dentro é “pão bolorento”. Ah, e também pra rir do Justus, obviamente: com aquele jeito empolado e aquele ar de superioridade, o cara parece realmente um robô (pô, Tom Cavalcante, cadê aquela imitação que você fazia dele?)… Então, tá aí: se tiver tempo, toda terça e quinta, às 23h. Veja pelo menos um, ok? E fique com a musiquinha “Money, money, money… money!” na cabeça (hehehe).
P.S.: pra quem não viu o programa ainda, aqui tem uma amostra. Vejam a aula de história do executivo e o perfil dos candidatos! Hahaha! Demais, não?
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