Arquivo para Maio 14th, 2008

A Vida dos Outros

Acabei de ver mais um filme bacana e que foi bem aclamado pela crítica e pelo público nos últimos anos: trata-se de “A Vida dos Outros” (“Leben Der Anderen, Das”, 2006, Alemanha), dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2007. Aliás, esta obra entra na minha galeria de ótimos filmes alemães que apareceram nos últimos anos, entre eles “Adeus, Lênin!” e “A Queda – as últimas horas de Hitler”.

Diria que “A Vida…” encaixa-se num novo tipo de drama e suspense que vem sendo cada vez mais apreciado em Hollywood. Trata-se de um tipo de filme suave, com um conflito exposto nas entrelinhas e sem atuações escandalosas. Ou seja, algo mais próximo da realidade. Ou, mais ainda, um filme que cria todo um clima de suspense sem muito barulho, deixando a história fluir naturalmente. O mundo não é maniqueísta neste tipo de filme, mas de vários tons e matizes – saímos, assim, de um dualismo que assola boa parte dos filmes feitos nos EUA.

Por sinal, este mundo não maniqueísta foi muito bem explorado no “A Queda…”, causando inclusive grande bafafá internacional. Quem pensaria que o maldito Hitler tratava bem suas secretárias e seus cachorrinhos? Ao fazer isto, este filme não quis enobrecer o Fuhrer, mas apenas mostrar uma outra visão – da jovem e inocente secretária Traudl – sobre a figura.

Enfim, em “A Vida dos Outros” o pano de fundo é o regime comunista da Alemanha Oriental nos anos 80. Como devia ocorrer em todos os países da “cortina de ferro”, o serviço secreto é responsável por vigiar tudo e todos que, possivelmente, possam ser traidores do comunismo. Neste cenário, existe um solitário agente secreto chamado Gerd Wiesler. Como capitão da “Stasi”, ele é um exemplo de torturador psicológico e de xeretador da vida dos outros (inclusive ele dá aulas de como arrancar confissões de suspeitos).

O caminho de Weisler irá se cruzar com o do conhecido dramaturgo Georg Dreyman – uma das poucas pessoas que conseguem enviar textos para fora do país. De que maneira? Bem, o ministro da Cultura do país se interessa por Christa-Maria Sieland, atriz popular que atua nas peças de Dreyman, além de ser a namorada do escritor. O ministro, com ciúmes de Dreyman, ordena que o mesmo seja vigiado dia e noite pois suspeita da sua “fidelidade” ao regime comunista. A casa de Dreyman é, então, abarrotada de escutas e sua vida passa a ser observada pelo implacável Wiesler.

É estabelecido a partir daí um conflito – não aberto, diga-se de passagem – entre o observador (o agente Wiesler) e o escritor Dreyman, o qual sequer sabe que está sendo vigiado constantemente. Um frio Wiesler vai cada vez mais se identificando com o objeto de sua investigação, a ponto de se questionar se deve relatar tudo que Dreyman faz ou deixa de fazer na sua vida. O fascínio exercido pelo escritor no agente vai modificando este aos poucos, alterando seus conceitos e sua maneira de enxergar o modus operandi do Estado policial da Alemanha Oriental.

Porém, tudo isso aí ocorre sem sobressaltos, numa boa. Não temos brigas explícitas nem nada disso. O filme vai deixando tudo nas entrelinhas e, neste clima, cria um suspense que prende a sua atenção até o fim – irá Weisler cumprir fielmente seu papel de agente secreto ou deixará de cumprir sua função pelo fascínio que agora tem pelo escritor Dreyman? Mais do que este suspense, o drama retratado é fantástico e aí vemos o quão maluco e absurdo é o fato das pessoas aceitarem viver num Estado policialesco em troca do seu bem mais precioso: a liberdade. Seria até cômico, se não fosse trágico, o fato de o agente Weisler saber, tim-tim por tim-tim, tudo sobre a vida dos outros, ameaçando-os com as informações que detém.

Pode parecer repeteco, mas recomendo fortemente “A Vida dos Outros” para vocês, inclusive porque o filme se baseia numa história real do sistema de espionagem da Alemanha Oriental. Sei que tenho recomendado muitos filmes nos últimos dias, mas isto se deve ao fato de que tenho alugado boas películas. A maré do ínicio do ano, de “10.000 AC” e “Awake”, parece ter passado… Então, sem brincadeira, vejam o filme alemão, ele é bom mesmo. E eu espero continuar dando boas dicas de filmes pra vocês – pô, chega de gastar dinheiro vendo filme ruim, né? :)

Faca na caveira, tropinha!

Essa é boa. Buscando se aproximar da comunidade depois da visibilidade que teve com o filme “Tropa de Elite”, o BOPE – Batalhão de Operações Especiais – está abrindo sua sede para que meninas de 5 a 12 anos tenham aulas de ginástica rítmica. O projeto, chamado “Mudança de Ritmo”, é capitaneado pela ONG Gente Brasil e também leva 60 mulheres e idosas duas vezes por semana à sede do batalhão para que tenham aulas de ginástica.

Além deste projeto, a ONG ainda comanda outro chamado “Projeto Bopinho”, o qual visa aproximar pais e filhos de policiais do BOPE com a presença da criançada em dias específicos na sede.

Pô, até louvável a atitude, principalmente porque as meninas que têm as aulas de ginástica são, em sua grande maioria, moradoras da favela Tavares Bastos e, por isso, têm pouco acesso à opções de lazer. Porém, sei não, fazê-las entrar naquele clima “Capitão Nascimento” do BOPE… Colocar as meninas pra fazer exercício tendo como som de fundo, algumas vezes, os gritos de guerra dos policiais (devem ser bem legais também, não acham?)… Não gostei muito dessa idéia não.

Mas como uma imagem às vezes vale mais do que mil palavras, vejam uma das fotos do projeto abaixo (fonte: G1). Digam-me: não é mais do que estranho ver menininhas praticando ginástica rítmica tendo como imagem de fundo a “faca na caveira”? O que diria Capitão Nascimento se visse isto?

Oldboy

Semana passada comecei a ver os filmes da “trilogia da vingança” do diretor sul-coreano Chan-wook Park. Já comentei por aqui sobre o primeiro filme da série, “Mr. Vingança”. Hoje vi o segundo filme da tríade, “Oldboy” (2003, Coréia do Sul). Aliás, foi através deste filme que Park ficou conhecido internacionalmente, permitindo que ele tivesse maior divulgação para o primeiro filme da trilogia e que conseguisse, dois anos depois, um orçamento maior para produzir “Lady Vingança”, que fecha a saga. Só para constar, entre as inúmeras indicações e prêmios recebidos mundo afora, “Oldboy” foi vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2004.

Tinha dito na semana passada que boa parte da opinião positiva que tive sobre “Mr. Vingança” tinha vindo de como a história tinha sido construída. Pois bem, com “Oldboy” não foi diferente. Diria até que o roteiro deste é mais bem tramado, com bastante suspense e também bastante imaginação pra fazer uma história como a que é apresentada.

Só para vocês terem uma idéia, ocorre o seguinte no filme: tem um cara chamado Oh Dae-Su que, após uma noite de bebedeira e confusão, vai parar na delegacia e é solto por um amigo. Tudo que ele quer é chegar em casa e entregar um presente para sua filha que completa 3 anos. Ele está numa cabine telefônica e de repente é sequestrado. Trancam ele num quarto espaçoso, com apenas uma TV, mas ninguém lhe fala nada. É, isso mesmo! O cara vai ficando lá preso e ninguém fala nada pra ele.

Ou seja, você já estranha a história a partir daí. Por que ele foi sequestrado? O que querem com ele? O que ele fez de tão ruim pra merecer aquilo? Mas aí as coisas dão uma piorada animal. De tempos em tempos, soltam um gás no quarto para adormecer Dae-Su e nisso lhe asseiam e arrumam todo o quarto. Numa dessas, pegam suas impressões digitais. Pois bem, no tédio da sua vida solitária com a TV, Dae-Su vê uma notícia que lhe choca: sua esposa foi brutalmente assassinada e o principal suspeito é ele! Como a polícia afirma isto? Pelas impressões digitais encontradas.

Não, ainda não acabou. O cara vai ficando preso no quarto, os dias vão passando… sabe quanto tempo dura isto? 15 anos! Ou seja, ele ficou lá esse tempo todo, sem ninguém pra se comunicar, sem ninguém pra lhe dizer o porquê daquilo… De repente, um belo dia, ele é solto. Pronto, aí já viu, né? Ele vai atrás do fdp que fez aquilo com ele e, nisso, vai quebrando quem estiver no caminho (pô, “Oldboy” faz parte da “trilogia da vingança”, já se esqueceu?). Mas aí vem a questão: mais do que vingança, será que ele deseja é saber quem fez e por que fez aquilo com ele?

Nesta caçada, ele vai tentando decifrar se esta desgraça que lhe armaram – pô, arruinaram a vida dele… fora o fato dele ter ficado trancado 15 anos sem comunicação, agora ele nem pode dar as caras ao mundo, pois é um criminoso (lembram-se que ele “matou” a esposa?) – pode ter se originado em alguma coisa ruim que ele tenha feito no passado. Ou seja, assim como em “Mr. Vingança”, o que, a priori, parece ser o sujeito da caça e da vingança, pode ser, conforme o andamento da história, o objeto da caçada de outra pessoa.

Nisto, uma história de suspense, de drama e também bem doentia é construída – e, digo pra vocês, o roteiro desta história é muito bom. Mas não é só a história que é muito boa em “Oldboy” não. Tem também as imagens e o clima noir que é construído, bem como a atuação do cara que faz o Dae-su (Min-sik Choi) – ele arrebenta como um cara amargurado e louco por vingança.

Por isso, apesar da violência (pensava que o filme era ultraviolento, mas até que não é tão brabo assim), gostei bastante de “Oldboy” e acho que ele tem uma das histórias mais bem tramadas e loucas do cinema neste século XXI. E o melhor, fora de Hollywood (apesar do diretor Park utilizar muitos elementos bacanas do cinema norte-americano). Por isso, recomendo bastante que vocês vejam o filme e tenho a forte impressão de que ele deve ser o melhor entre os que fazem parte da “trilogia da vingança”. Aliás, mesmo que você não tenha muito tempo para ver estes filmes loucos que recomendo, veja “Oldboy”. O filme é bem bacana e foge dos roteiros comuns de suspense que vemos por aí. Por isso, aluguem-no (como ele é o mais conhecido da trilogia, vocês acham fácil, fácil em qualquer locadora de bairro…).

Nesta semana ou na próxima, acabo a “trilogia da vingança” com “Lady Vingança”. Trará este filme um bom desfecho para a trilogia?


Categorias

Calendário

Maio 2008
S T Q Q S S D
« Abr   Jul »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  

Acessos

  • 75,536 hits

Licença