Acabei de ver mais um filme bacana e que foi bem aclamado pela crítica e pelo público nos últimos anos: trata-se de “A Vida dos Outros” (“Leben Der Anderen, Das”, 2006, Alemanha), dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2007. Aliás, esta obra entra na minha galeria de ótimos filmes alemães que apareceram nos últimos anos, entre eles “Adeus, Lênin!” e “A Queda – as últimas horas de Hitler”.
Diria que “A Vida…” encaixa-se num novo tipo de drama e suspense que vem sendo cada vez mais apreciado em Hollywood. Trata-se de um tipo de filme suave, com um conflito exposto nas entrelinhas e sem atuações escandalosas. Ou seja, algo mais próximo da realidade. Ou, mais ainda, um filme que cria todo um clima de suspense sem muito barulho, deixando a história fluir naturalmente. O mundo não é maniqueísta neste tipo de filme, mas de vários tons e matizes – saímos, assim, de um dualismo que assola boa parte dos filmes feitos nos EUA.
Por sinal, este mundo não maniqueísta foi muito bem explorado no “A Queda…”, causando inclusive grande bafafá internacional. Quem pensaria que o maldito Hitler tratava bem suas secretárias e seus cachorrinhos? Ao fazer isto, este filme não quis enobrecer o Fuhrer, mas apenas mostrar uma outra visão – da jovem e inocente secretária Traudl – sobre a figura.
Enfim, em “A Vida dos Outros” o pano de fundo é o regime comunista da Alemanha Oriental nos anos 80. Como devia ocorrer em todos os países da “cortina de ferro”, o serviço secreto é responsável por vigiar tudo e todos que, possivelmente, possam ser traidores do comunismo. Neste cenário, existe um solitário agente secreto chamado Gerd Wiesler. Como capitão da “Stasi”, ele é um exemplo de torturador psicológico e de xeretador da vida dos outros (inclusive ele dá aulas de como arrancar confissões de suspeitos).
O caminho de Weisler irá se cruzar com o do conhecido dramaturgo Georg Dreyman – uma das poucas pessoas que conseguem enviar textos para fora do país. De que maneira? Bem, o ministro da Cultura do país se interessa por Christa-Maria Sieland, atriz popular que atua nas peças de Dreyman, além de ser a namorada do escritor. O ministro, com ciúmes de Dreyman, ordena que o mesmo seja vigiado dia e noite pois suspeita da sua “fidelidade” ao regime comunista. A casa de Dreyman é, então, abarrotada de escutas e sua vida passa a ser observada pelo implacável Wiesler.
É estabelecido a partir daí um conflito – não aberto, diga-se de passagem – entre o observador (o agente Wiesler) e o escritor Dreyman, o qual sequer sabe que está sendo vigiado constantemente. Um frio Wiesler vai cada vez mais se identificando com o objeto de sua investigação, a ponto de se questionar se deve relatar tudo que Dreyman faz ou deixa de fazer na sua vida. O fascínio exercido pelo escritor no agente vai modificando este aos poucos, alterando seus conceitos e sua maneira de enxergar o modus operandi do Estado policial da Alemanha Oriental.
Porém, tudo isso aí ocorre sem sobressaltos, numa boa. Não temos brigas explícitas nem nada disso. O filme vai deixando tudo nas entrelinhas e, neste clima, cria um suspense que prende a sua atenção até o fim – irá Weisler cumprir fielmente seu papel de agente secreto ou deixará de cumprir sua função pelo fascínio que agora tem pelo escritor Dreyman? Mais do que este suspense, o drama retratado é fantástico e aí vemos o quão maluco e absurdo é o fato das pessoas aceitarem viver num Estado policialesco em troca do seu bem mais precioso: a liberdade. Seria até cômico, se não fosse trágico, o fato de o agente Weisler saber, tim-tim por tim-tim, tudo sobre a vida dos outros, ameaçando-os com as informações que detém.
Pode parecer repeteco, mas recomendo fortemente “A Vida dos Outros” para vocês, inclusive porque o filme se baseia numa história real do sistema de espionagem da Alemanha Oriental. Sei que tenho recomendado muitos filmes nos últimos dias, mas isto se deve ao fato de que tenho alugado boas películas. A maré do ínicio do ano, de “10.000 AC” e “Awake”, parece ter passado… Então, sem brincadeira, vejam o filme alemão, ele é bom mesmo. E eu espero continuar dando boas dicas de filmes pra vocês – pô, chega de gastar dinheiro vendo filme ruim, né?



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