Este ano a cobertura do festival de Cannes pela imprensa tá uma beleza. Toda reportagem que eu vejo é pra falar que tal ou qual filme “causou” por lá. E as celebridades desfilando pelo “tapete vermelho” então? Aí tem de tudo. Mike Tyson, Maradona falando abobrinha, Angelina Jolie de barrigão, Madonna e Sharon Stone abraçadas, Monica Bellucci deixando os marmanjos babando…
É por isso que nem comentei muito das reportagens da imprensa sobre os filmes de Cannes. Acho que os repórteres/colunistas que vão pra lá se deslumbram bastante com o fato de fazerem parte de uma “elite” que vê os filmes antes que a galera comum… nisso, aspectos interessantes sobre tal ou qual filme perdem-se na cobertura que é feita.
Mas, enfim, ontem estreou por lá o filme “Che”, do Steven Sonderbegh (diretor de “Traffic” e “Onze homens e um segredo”). Li numa matéria do UOL que o diretor adotou uma fórmula fria para tratar do revolucionário argentino, porém o fez de uma maneira que mostra grande admiração pela figura de um dos líderes da revolução cubana. Até me animei para colocar o filme na minha lista – tenho grande interesse pela figura de Guevara -, mas aí li o seguinte na matéria:
São poucas as cenas realmente inspiradas, como a do soldado boliviano encarregado de vigiar Che quando ele vai preso, que se mostra muito curioso sobre a situação em Cuba – um potencial revolucionário que teve medo de “enfrentar o sistema”. Mas é pouca coisa para as longas quatro horas e meia.”
Como assim, quatro horas e meia? Pô, o Sonderbegh quis fazer um novo “Os dez Mandamentos”? Desanimei na hora… assistir a um filme com esta duração é impossível. Xinguei o Peter Jackson até dizer chega porque o “King Kong” tinha 3 horas de duração, imagina estão este filme do Sonderbegh! E o pior: botaram um puta ator para representar o Che – o Benício del Toro. Ou seja, estaria perdendo algo bacana…
Mas aí foi só eu ir pra uma matéria do Estadão sobre o mesmo filme para ler o seguinte:
No circuito de cinema, a primeira metade do longa será lançada em outubro. A segunda, chega às telas em novembro. Fruto de um trabalho de pesquisa que durou sete anos, a primeira parte conta desde toda a formação do exército revolucionário cubana até a tomada do poder por Fidel e Che, depondo o então líder cubano, e ditador, general Fulgencio Batista.
A segunda parte revela todos os passos de Che após a tomada de Cuba, quando embarcou para a Bolívia a fim de dar continuidade ao plano de transformar a América Latina em um território livre. Che encontra na Bolívia muito mais que a resistência do governo vigente. Encontra também um povo ignorante (no sentido estrito da palavra) que, como ele bem define, “acreditava em mentiras” e não apoiou sua presenças e a de suas tropas revolucionárias como o povo cubano havia aprovado anos antes. Sem apoio popular e encurralado pelos perseguidores, Che e seu exército de guerrilha perecem em um território hostil.”
Ah, bom… este é o tipo de informação que é relevante para uma pessoa comum, como eu e você, caro leitor. Não será um filme de 4h30, mas dois de 2 horas e alguma coisa… Praticamente um “Che 1″ e um “Che 2″, por assim dizer. Triste vai ser gastar DOIS ingressos de cinema para acompanhar a saga do revolucionário… Será que não dá pra colocar numa sessão “pague 1, leve 2″? Não? Ah, então é esperar chegar nas locadoras, né?
Tomara que “Che” não desande como ocorreu com “Diários da Motocicleta”, de Walter Salles Jr. O filme do diretor brasileiro foi bom até perto da parte final. Mas aí depois ocorreu um “endeusamento” do Che atravessando aquele rio de noite e o negócio degringolou… Sei lá, não gostei. Acho que se o filme tivesse tomado contornos mais suaves, teríamos saído dali com uma impressão um pouco mais realista da juventude do Che. E, conforme li no livro “Che - a vida em vermelho” (Jorge Castañeda), o perfil revolucionário do personagem estourou mesmo foi no México, quando conheceu os irmãos Raúl e Fidel Castro.
Aliás, tenho certeza que o filme trará muita discussão por causa do atual contexto político de Cuba. Isto apesar do fato de que a participação dos irmãos cubanos é mínima (pelo menos vi isto nas matérias linkadas acima). Se for verdade, é uma pena. A influência de ambos na formação política e revolucionária de Che é vital e transformadora. Talvez isto merecesse uma atenção bem grande por parte do filme.
Aguardemos então mais esta obra. Provavelmente ele será muito falado no Brasil não por causa da história mas sim pela participação de Rodrigo Santoro no papel de Raúl Castro. Até já imagino a capa da “Caras” estampando uma foto marota do rapaz com os seguintes dizeres: “Santoro: sucesso brasileiro em Hollywood”… Vai ser duro ver esta cobertura fofoqueira do filme do “Che”…

Por aí a gente vê o quão é importante uma matéria bem feita!!
Também fiquei a fim de ver o Che!
Seu post ficou bem legal!
Apesar da reclamação que fiz sobre ter que pagar dois ingressos para assistir às duas partes de “Che”, creio que verei os filmes no cinema mesmo, Marília. Anda procurando algumas análises na net e percebi que, em todas, o pessoal anda dizendo que a admiração que o Sonderbegh tem pelo Che aparece na tela porém sem um endesaumento do personagem. Algo interessante, portanto, de se assistir.
bj