Arquivo para Maio 27th, 2008

CQC e Ciro Gomes

No post que fiz sobre o programa “15 Minutos”, exaltando-o como uma boa revelação da TV, o grande Fábio comentou dizendo que também achou o tal do “CQC” da Bandeirantes uma boa novidade na TV aberta nacional. O programa vai ao ar nas noites de segunda, a partir das 22h, com reprise aos sábados, a partir das 20h15. Aparentemente o programa tem feito um razoável sucesso, inclusive dobrando a audiência da Band no horário.

A estrutura do ”CQC” é mais ou menos a seguinte: ele é apresentado pelo Marcelo Tas mais dois caras, e os três ficam numa bancada. Fazem comentários gerais e chamam as matérias, as quais, basicamente, são tirações de sarro com personalidades. Algo bem próximo como o que o “Pânico na TV” faz, só que com um pouco mais de seriedade, sem tanto escracho, e com um componente político mais forte. Vi o programa apenas duas vezes, mas a proximidade que o mesmo tem com o “Pânico” fez com que eu não o achasse uma inovação tão grande assim da TV.

Mesmo assim, creio que valha a pena ver “CQC” – até porque, de segunda a noite, você não encontrará quase nada de qualidade, seja na TV aberta ou fechada. Prestem atenção no tal do “Repórter Inexperiente” (Danilo Gentili), o qual coloca alguns entrevistados em situações chatas justamente por sua “inexperiência” como repórter. Vi uma matéria dele há umas duas semanas que não tinha este foco, mas foi igualmente engraçada: ele foi até uma cidadezinha da Bolívia na qual a galera faz uma celebração trocando socos no meio da rua (vai todo mundo pra porrada, até as crianças), e ele, querendo dar uma de espertão, levou umas muquetas também… bem engraçado!

Aliás, Gentili proporcionou um dos melhores momentos políticos do CQC até agora. Ele pegou o deputado federal (e presidenciável) Ciro Gomes na saída de um evento aqui em São Paulo. Começou a perguntar algumas coisas complicadas para o deputado (tipo o que ele achava do irmão, o governador do Ceará Cid Gomes, que levou a sogra em viagem oficial para a Europa) e Ciro apenas respondia: “não sei do que você está falando…”. O negócio ficou tão hilário que até virou “hit” nos acessos do YouTube que eram feitos dentro da Câmara dos Deputados (o site inclusive teve o acesso proibido pelo pessoal de informática da Câmara, tamanho o número de pessoas que queriam ver o vídeo!).

Enfim, tenho que ver mais algumas vezes o programa para formar uma opinião. Mas taí a dica do nosso amigo Fábio pra vocês. E, abaixo, o tal do vídeo do Ciro Gomes dizendo que “não sabe” do que o “repórter inexperiente” está falando… Hilário!

Esse aí começou bem

A figura ao lado chama-se Roberto Mangabeira Unger (vulgo Mangaba) e é atualmente o ministro de Assuntos Estratégicos do governo Lula. A imprensa disse que a ex-ministra do Meio-Ambiente, Marina Silva, teria deixado o cargo porque o Plano Amazônia Sustentável (PAS) foi colocado sob coordenação do nosso querido Mangaba. Fato ou boato, esta figura não se entendeu muito bem com Marina e os atritos entre ambos ficaram nítidos, inclusive quando da demissão dela.

Enfim, um plano tão importante quanto o PAS merece uma figura realmente imponente como o Mangaba. No entanto, hoje ele deu uma entrevista na Folha de São Paulo que me deixou um pouco preocupado. Foram pouquíssimas questões, mas as respostas foram, por assim dizer, bem evasivas e estranhas. Vejam abaixo (destaques por minha conta):

FOLHA – Qual é o problema da Amazônia?
MANGABEIRA UNGER
- Acho que o debate está falsificando a situação real, que é mais interessante, mais grave, mais perturbadora e esperançosa do que o debate sugere. Um número pequeno de brasileiros acha que a Amazônia deve ser preservada como um parque. Um número igualmente pequeno de brasileiros aceita entregar a Amazônia às formas predatórias da atividade econômica. A grande maioria insiste no desenvolvimento sustentável, mas não sabe como conseguir. O problema não é a divisão entre ambientalistas e desenvolvimentistas, o problema é a confusão.

FOLHA – É possível conter o desmatamento sem frear o agronegócio?
MANGABEIRA
- Não tem nada a ver com agronegócio. Nosso problema é que não temos feito nem de longe o suficiente nem em matéria de preservação nem em matéria de desenvolvimento. Por isso, estou discutindo intensivamente com os governadores da Amazônia Legal as medidas necessárias para dar conteúdo prático ao desenvolvimento sustentável.

FOLHA – O sr. assumiu o PAS, plano discutido desde 2003. Mas parece que está partindo da estaca zero.
MANGABEIRA
- O PAS é um conjunto de diretrizes e compromissos, mas não é uma planilha tecnocrática. Não é um plano de medidas concretas. Há mais de 25 milhões de brasileiros lá. Se não tiverem oportunidades econômicas, serão levados a uma atividade econômica desordenada que provocará o desmatamento.

FOLHA – O sr. está em rota de colisão com Carlos Minc?
MANGABEIRA
- Eu nem tive ainda a oportunidade de estar com ele. Eu o vejo como um grande colaborador meu no futuro.

FOLHA – Entre Blairo Maggi e Marina, a quem dá razão?
MANGABEIRA
- É natural que haja tensões. Mas é um desserviço acalentar divisões no meio desta neblina. Não estou dizendo que há fórmula mágica. Não tem o menor sentido disputar uma espécie de império que não construímos. Nosso problema é avançar na construção, sem dogmas, sem preconceitos, sem prevenções, neste esforço de produzir reconciliação profunda e duradoura entre preservação e desenvolvimento. Minha tarefa é colocar a imaginação a serviço da eficácia. (comentário do “A Volta…”: ahn? como assim???)

FOLHA – O sr. se julga suficientemente informado?
MANGABEIRA
- Eu me julgo um ignorante. O que eu sei fazer é construir uma tarefa com pessoas de idéias contrastantes. A premissa da discussão com o mundo a respeito da Amazônia é a reafirmação da nossa soberania. Mas não devemos cultivar uma atitude paranóica.

Ah, ainda bem que o Plano Amazônia Sustentável está na mão de uma pessoa que se julga ignorante em relação ao tema. Não que eu esperasse que ele tivesse uma opinião totalmente definida, mas também julgar-se ignorante em relação ao tema é um absurdo. Nessas de colocar pessoas de idéias contrastantes para discutir, ambos os lados podem apresentar argumentos aparentemente bacanas e, levado pela sua ignorância, Mangaba pode ficar indefinidamente sem posição marcada. Será que é isso que o nosso intelectual quer?

Sei não, mas não confio nesse cara. Já desconfio dele só por ele falar com um sotaque americano forte mesmo tendo vivido no Brasil por um bom tempo. Digo a vocês só o seguinte: odeio posar de pessimista mas, pra mim, esse PAS vai ser uma figura de retórica absurda. Ainda mais com um ministro perdido e “ignorante” em relação ao tema Amazônia. É, esse aí começou bem…

Notas sobre um escândalo

Ontem vi mais um filme que esteve presente nas indicações do Oscar 2007: “Notas sobre um escândalo” (“Notes on a scandal”, 2006, Inglaterra). O filme, dirigido por Richard Eyre, teve 4 indicações mas perdeu em todas elas: melhor trilha sonora (Philip Glass), melhor Atriz (Judi Dench), melhor atriz coadjuvante (Cate Blanchett) e melhor roteiro adaptado (Patrick Marber).

O filme praticamente se baseia na atuação de Judi Dench e Cate Blanchett. A primeira é uma professora amarga de História de um colégio público da periferia, Bárbara. Solitária e ranzinza, ela escreve tudo o que pensa sobre as outras pessoas – geralmente com profundo desdém – em um diário e o mesmo nos é narrado durante o filme. Nisso, aparece na escola uma professora nova de Artes – Sheba, representada por Cate Blanchett.

Sheba não consegue colocar ordem na molecada no colégio e, após um favor de Bárbara (ela acalmou os ânimos de dois alunos que brigavam na aula de Artes), as duas começam a se tornar amigas e confidentes. Bárbara é extremamente crítica em relação à família de Sheba, a qual é composta de um marido velhaco, uma adolescente descontrolada e um filho com síndrome de Down. A partir daí, vamos percebendo que, dentro da sua solidão, Bárbara na verdade quer é arrancar Sheba daquilo que considera um “show de horrores” – ou seja, a família desta.

Pra adicionar ofensa à agressão, Sheba tem um caso com um pivete de 15 anos da escola. Este caso é logo descoberto por Bárbara que, posando de amiga, cobra um preço muito alto de Sheba para ficar quieta: a mesma terá que ser leal todo tempo, inclusive trocando o tempo que passa com a família para ficar com Bárbara. Como isto não será factível – você não troca sua família, principalmente se tiver um filho com síndrome de Down, por uma amiga qualquer -, a professora velha se sentirá traída e estará tentada a contar o fatal segredo de Sheba.

Neste clima de suspense, do início ao fim o filme consegue te cativar com apenas a atuação de duas grandes atrizes. Tá certo que lá pelo meio a coisa fica meio chata e repetitiva. Mas você vai sendo fisgado pela obra e querendo saber o que vai acontecer na relação entre a megera Bárbara e a encrencada Sheba. E tem a música de Philip Glass, que vai dando todo um toque dramático e de suspense.

Nisso, você chega à conclusão de que viu um ótimo filme, pois ele se utilizou de apenas dois expedientes para te prender: a atuação de duas atrizes “monstro” (Dench e Blanchett estão fantásticas) e uma história cativante. Pô, se só com isso ele te prendeu do início ao fim, é porque a obra é boa mesmo. Então, sem escândalos, nas entrelinhas, “Notas…” contrói uma teia bem bacana que expressa o quão complicadas são alguns tipos de relações humanas. Por isso, se você não o viu, assista-o. Tenho quase certeza que vocês gostarão bastante do que é mostrado ali.


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