Utilizando uma metáfora futebolística ao gosto do nosso presidente Lula, hoje a ciência ganhou de 0,5 a zero o jogo contra o conservadorismo sem base e arcaico. É que o Supremo Tribunal Federal, por 6 votos a 5, liberou hoje a pesquisa com células-tronco embrionárias conforme já previa a Lei de Biossegurança. Na verdade mesmo, o STF só disse que a ação direta de inconstitucionalidade (Adin) impetrada pela Procuradoria Geral da União não era válida – a alegação era a de que a Constituição garante o direito à vida e à dignidade da pessoa humana e, para o procurador-geral da época, Cláudio Fonteles, a vida começa com a fecundação.
Demorou um bom tempo para que esta Adin fosse julgada, mas hoje acabou a espera. Não importa que o placar tenho sido mínimo; de verdade mesmo, pra mim, o que vale é podermos pesquisar com células-tronco e matarmos dois coelhos com uma só cajadada: não ficarmos para trás na pesquisa científica de ponta que é produzida no mundo (atraso tecnológico gera dependência econômica, social e cultural) e, mais do que isso, darmos alguma esperança para as milhões de pessoas que têm algum problema ou deficiência e que botam a maior fé na ciência para curar suas enfermidades.
Vou apelar pro lado emocional agora (peço desculpas àqueles que não gostarem): imagina só se você tivesse uma doença degenerativa irreversível? Ou então que seu filho fosse cadeirante? Ou, sei lá, outra coisa bem grave e difícil de lidar? Você não se apegaria a qualquer fio de esperança que lhe dessem? Religião, cura espiritual, o que quer que fosse. Imagina então se você pudesse depositar esta esperança na mão de pessoas altamente qualificadas e que estão fazendo ciência de ponta no mundo… Pronto, conseguiu se colocar nesta situação? Bem, se mesmo depois disso você for contra as pesquisas com células-tronco, some desse blog pois eu definitivamente não falo a mesma língua que você.
E a lei de Biossegurança também não é a “festa do caqui”. Pô, ela só permite pesquisas com embriões que não possam dar origem a seres humanos ou embriões que estejam congelados há mais de três anos. Além disso, ela veta a comercialização de material biológico e exige a autorização do casal que deu origem aos embriões para que as pesquisas sejam feitas.
Uma das maiores pesquisadoras do mundo de células-tronco embrionárias, a geneticista Mayana Zatz (USP), disse que “Todos vamos nos beneficiar dessa vitória. Temos uma enorme responsabilidade pela frente. Quero deixar claro que não estamos prometendo cura imediata, mas dar o melhor de nós nas pesquisas”. Eu acredito nela e boto a maior fé que alguma coisa benéfica sairá da decisão favorável às pesquisas com células-tronco embrionárias.
Pode até ser que, lá pra frente, alguns desvios ocorram no meio do caminho (tipo, sei lá, gerarmos aberrações ou seres que sigam somente determinados padrões estéticos) mas, por enquanto, a importância da pesquisa é importantíssima e, como eu disse, é a esperança de milhões de pessoas na atualidade. E também tem o seguinte: se a coisa degringolar, o Congresso tá aí pra legislar e mudar a lei. Simples assim.
P.S.: a gente critica bastante, mas quando tem que elogiar, fazemos com muito orgulho. Por isso, louvável o voto do ministro Marco Aurélio Mello, favorável à pesquisa com células-tronco embrionárias. Durante a leitura do seu voto, ele declarou o seguinte: “Desculpem-me a expressão, mas o destino de todos esses embriões seria o lixo sanitário. Dá-se-lhes, portanto, uma destinação nobre”, sustentou. “Não vejo qualquer ofensa à dignidade humana o uso de pré-embriões inviáveis ou congelados, que não teriam como destino senão um lamentável descarte“. Falou e disse!
P.S. II: vejam a matéria do G1 que linkei acima pois ela é bem bacana. Tem infográfico mostrando o que é a discussão sobre as células-tronco, tem o vídeo com a discussão do STF, tem opiniões das partes envolvidas… Enfim, bem bacana.

Essa é pra comemorar, mesmo! Aliás, levando sua metáfora adiante. Digamos que eu e minha esposa tivéssemos feito tratamento de fertilidade e alguns embriões tivessem sobrado. Não, eu não acho que esses sejam meus filhos. É discutível a partir de que ponto o feto é uma pessoa, mas um aglomerado de células não é, não. Eu, de bom grado, os doaria à pesquisa para que o filho de alguém pudesse andar.
Falou tudo, NaPrática. A discussão já estava ultrapassada e alguns dos ministros do Supremo, passando-se por guardiões da lei, estavam tentando evitar um negócio que foi bem exposto na lei e que pode ajudar muita gente de verdade. Por isso eu digo: não importa o placar, importa que a pesquisa foi liberada e o Brasil vai poder usar todo o seu capital humano para achar soluções para as pessoas que têm problemas graves de saúde.
Abraços,