
“Não gostou do Tio Ronald, é?”
Sábado, hora do almoço. Tô andando na Rua Pamplona (São Paulo) e minha irmã me pergunta se podemos comer no McDonald´s. Como estava querendo mesmo experimentar a “mcoferta” do “menu China” (basicamente um sanduíche com alguns troços de yakissoba, 4 stakes de arroz + salada e um copo médio de Fanta China), aceitei o pedido dela e lá fomos.
Ao chegar lá, uma cena insólita. Um casal discutindo com o gerente da loja e com outros atendentes. “Vixe, o que será que aconteceu?”. Como sou bem curioso, já fiquei esperto no que seria a discussão entre ambos. Aí descobri que o casal na verdade eram os pais de um jovemzinho que trabalhava naquele McDonald´s. Aparentemente, o jovem era avacalhado todo dia no ambiente de trabalho pelos colegas e o gerente fingia que nada acontecia. A mãe do rapaz estava muito brava, o que é bastante compreensível numa situação como aquela – quem não ficaria fulo da vida ao ver seu filho ser humilhado?
Mas aí eu comecei a perceber outras coisas que estavam no ar. Primeiro, com relação aos colegas de trabalho que zoavam o rapaz. Os moleques não sabiam o que fazer. Rolava um clima meio que de “pô, esse emprego já é uma bosta, a gente já trabalha pra caralho e, pqp, ainda tem que aguentar isso? E se a gente for mandado embora?”. Ou seja, eles, num ambiente em que são excluídos (porque atendente do McDonald´s parece burro de carga: é só chicote no lombo! Toda hora é “A fila tá crescendo…”, “Vamo mais rápido aí gente” por parte dos gerentes; e nós, como clientes, contribuímos com coisas do tipo “Cadê meu lanche?”, “Ô, já pedi o lanche há dois minutos! Que demora é essa?” e impropérios os mais diversos), através da sacanagem com o rapazinho, acabavam achando uma maneira de virarem exclusores. Sei lá, fazer isso é um filhodaputismo absurdo? É. Mas levando em consideração que são todos um bando de adolescentes e que, ali, eles não podem falar um “a” pra ninguém (gerente, clientes, etc), eles resolveram se afirmar em cima de um igual. Não justifica, mas explica o ocorrido.
Outra coisa: o gerente. Sempre vi gerente do McDonald´s como a personificação do carrasco. É o cara que cobra o atendimento mais do que rápido (e não é por isso que a gente vai no McDonald´s?), não deixa o pessoal sair ali da linha de frente, sempre tá gritando, etc, etc… Hoje eu vi que o gerente é outro coitado nessa máquina de lanches. Não tenho a mínima idéia se ele ignorava a zoação que os moleques faziam com o rapazinho ou se ele simplesmente via e fingia que não via, mas, enfim, o cara suava frio hoje: os pais do rapaz fecharam um dos caixas (pois era lá que reclamavam, por isso todos os presentes viram o ocorrido) e, por isso, a fila nos demais aumentava, os clientes reclamavam, alguns iam embora; percebi que o gerente pensava algo como ”se alguém souber disso, eu serei mandado embora”. Nisso, ele tentava argumentar com os pais que já tinha sido atendente e que as coisas às vezes saíam um poucos dos eixos, etc, etc. Conclusão: no fim das contas, ele é o cara que tem fazer as coisas acontecerem, o lanche sair quentinho e rápido, o cliente satisfeito, o ambiente mais limpo, etc, etc, ou, do contrário, ele estará sumariamente demitido. Ou seja, se ele não for o carrasco, rua!
Aí, já sentado na mesa e comendo minha “mcoferta”, pensei o seguinte: “Caralho, são todos uns fudidos. O rapaz zoado, os outros atendentes, o gerente. Pô, os caras só se fodem. E nisso, ferram-se uns aos outros. Mas, peraí, quem é que ganha fodendo esse pessoal?”.
Fácil, o tio Ronald. Lucro líquido de US$ 2,395 bi no ano de 2007.
E ganha com a exploração daquela força de trabalho (não estou usando sentido marxista nem teoria nenhuma aqui não… é exploração de sacanagem mesmo). Aí eu me pergunto como é que uma dessas revistas de negócio, há uns anos atrás, escolheu o McDonald´s como o melhor lugar para trabalhar. Cara, aquilo ali é um inferno! É uma sacanagem com todo aquele pessoal, geralmente adolescentes que deveriam estar estudando pro vestibular na USP, mas, não, estão ali contratados a preço de banana, pra trabalhar pra caramba e ainda serem esculhambados todo santo dia…
“Pô, e quem é o louco que ainda sustenta esse esquema trash de exploração e sacanagem?”, pensei.
Não sei porque mas, na hora em que obtive a resposta, o lanche que eu estava comendo começou a embrulhar o meu estômago…
P.S.: não creio que as outras redes de fastfood façam diferente com seus funcionários. Apenas citei o caso do McDonald´s porque ele realmente ocorreu hoje e também porque a empresa representa o exemplo máximo deste tipo de trabalho.
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