Manchete do G1: “GILBERTO GIL DEIXA O GOVERNO LULA PARA SE DEDICAR À MÚSICA”.
Comentário do cara-pálida que vos escreve: ué, ele já não vinha fazendo isso desde que assumiu o ministério da Cultura? Não era ele próprio que se definia como um “ministro-cantor”? Não foi ele quem exigiu, para assumir o ministério, a possibilidade de dar umas “escapadinhas” para não abandonar a carreira artística?
Ah, vocês vão me desculpar, mas o Gil há muito, muito tempo mesmo, já não é ministro coisa nenhuma. É um cantor que tem cargo de ministro.
Pô, não foi ele quem lançou há pouco o disco de inéditas (olha, gente, I-N-É-D-I-T-A-S) “Banda Larga Cordel”? Pô, pra fazer um disco assim, tem que compor, gravar em estúdio, ajudar na pós-produção, sair em turnê pra divulgar o álbum (coisa que ele está fazendo agora)… Como é que o cara vai ser ministro tendo todas estas atribuições “extra-cargo”?
Por isso Gil, não me venha com papinho furado. Você fez foi criar vergonha e pediu demissão. Não me venha dizer que saiu para “se dedicar à música”. Se você tava vendo que o cargo de ministro estava atrapalhando sua carreira artística e que essa era mais importante que o ministério, que você tomasse uma atitude simples antes: era só pedir demissão. Ninguém ia reclamar, você é um dos maiores compositores da MPB. Mas não, você resolveu fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Resultado: você, efetivamente, não vinha sendo ministro há um bom tempo. Falha sua e do seu chefe, o Luís Inácio.
Aí eu entrei na matéria do G1 para ver as principais realizações de Gil à frente do ministério da Cultura . Dêem só uma analisada do “balanço”:
De acordo com o Ministério da Cultura, entre as principais ações lançadas durante a gestão de Gil está o programa “Mais Cultura”, chamado PAC da Cultura, que prevê investimentos de R$ 4,7 bilhões até 2010 em todos os estados. O programa que coloca a cultura como política pública prioritária foi elaborado pela equipe de Gil.
Outras ações apontadas são as políticas na área de audiovisual, que possibilitou acesso a equipamentos multimídia por parte de projetos culturais.
Gil criou ainda um Plano Nacional de Cultura, que norteia as políticas públicas para o setor cultural, que está em análise no Congresso. O ministério também destaca a atuação na área indígena.
Segundo a pasta, na gestão do músico o ministério aumentou o uso de seleções públicas em ações da pasta e os investimentos em restauração de bens. Além disso, tornou patrimônio vários bens imateriais, como o samba e a capoeira.”
Vamos lá então: teve o PAC da Cultura, que prevê investimentos bilionários na área. Com fé em Deus, metade dessa grana realmente vai ser investida. Outra: colocou a cultura como política pública prioritária. Bem, isso só no papel, ou estou errado? Outra: acesso a equipamentos multimídia por parte de projetos culturais. Ah, tá, fantástico. Mais outra: o Plano Nacional de Cultura, que está no Congresso. Bem, esse aí vai continuar lá pra sempre (justamente porque cultura não é política pública prioritária).
Ou seja, de efetivo mesmo, preto no branco, nada. N-A-D-A. Nada! Porra, que gestão foi essa, Gil?
Tudo bem que o ministério tem orçamento exíguo, que as condições de trabalho são ruins, que o sucateamento da área tava bravo… mas que você trouxesse todo o seu prestígio, Gil, pra pressionar o governo e melhorar um pouco as condições da cultura nacional. Isso aí só se faz com pressão da opinião pública. Ninguém conhecia o Weffort (acho que é assim que se escreve), o ministro anterior da pasta. Você é uma estrela no país. Ah do Lula se ele ousasse mandar você ficar quieto…
E assim tivemos mais 6 anos de políticas culturais quase nulas. Esse é o balanço que faço do “ministro-cantor”.
P.S.: na Medida Provisória que prevê o aumento do salário de várias carreiras de Estado (Banco Central, Polícia Federal, Receita Federal, Agências Reguladoras, etc), provavelmente haverá um item reforçando a obrigatoriedade do servidor público trabalhar em regime de dedicação exclusiva. Aliás, tal obrigatoriedade já existe (exceto se ele for professor do ensino superior). Pergunto-me: tal obrigação não caberia também a ministros de Estado? Ou eles são “especiais” mesmo e ponto final?

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