Pequim’08 – Se lo fumó en pipa

É, amigos. Eu apostava na seleção brasileira pra conquista do ouro olímpico no futebol masculino. Sabia que o jogo contra a Argentina seria bem difícil, que o time deles viria mordido depois das últimas derrotas (por goleada) em decisões que tiveram contra o Brasil. Mas 3 a 0 foi demais! Os caras acabaram com o sonho olímpico do Brasil sem dó nem piedade e vão saborear esta vitória (principalmente se ganharem o ouro no sábado) como a um cachimbo que se fuma aos poucos (essa é a intenção da frase da capa do Olé que coloquei acima, “se lo fumó en pipa”).

Vi duas citações de argentinos que podem resumir um pouco a história sobre a derrota brasileira. A primeira é do próprio diário Olé que, na matéria da capa acima, disse o seguinte: “Un triunfo impecable de Argentina. Para tomarse revancha, para gozar al clásico rival, para disfrutar”. A outra frase foi proferida por Maradona, porém era algo dito sobre o Brasil e não sobre a Argentina. Disse Don Diego:

O Brasil atua melhor do que mostrou hoje, porém esta seleção sub-23 mostrou muita pequenez na hora de jogar. Em nenhum momento saiu com a bola no pé, Ronaldinho ficou isolado e a Argentina foi superior em cada metro do campo. Faz tempo que não vejo um Brasil tão pequeno e tão defensivo.”

Então, a história foi essa. Um Brasil que apostava num sólido (que não se revelou tão sólido assim…) sistema defensivo e na força dos contra-ataques contra uma Argentina que jogou pra frente desde o início. O Dunga tem esse esquema de jogo, já colocou esse tipo de atuação nas Eliminatórias (não é à toa que o Brasil está atualmente em quinto lugar na classificação) e, invariavelmente, contra uma equipe muito habilidosa e ofensiva, levaremos um bom chocolate. Foi o que ocorreu hoje contra a Argentina.

Tá certo que o Brasil meteu duas bolas na trave, teve algumas chances, etc e tal. Mas o volume de jogo foi todo da Argentina. As melhores chances ofensivas. O melhor jogador, Messi, que infernizava a zaga brasileira a todo tempo. Enfim, não adianta ficar chorando: o Brasil perdeu por que foi pior e muito mais fraco que o time portenho.

E digo até mais: a derrota para eles é um resultado normal, do jogo. Porém uma goleada como a que sofremos, evidencia que alguma coisa feia nós fizemos de errado. E é aí que o pessoal coloca o Dunga com a corda no pescoço.

Lúcio de Castro (comentarista do Sportv) sintetizou toda a raiva contra o treinador na seguinte análise: Dunga acredita que é um predestinado, um cara com destino messiânico. Um cara que acha que apesar de todos os problemas, de todas as adversidades, do jogo ruim e truncado, no final acabará triunfando. Segundo o Lúcio, Dunga realmente acredita nisto. Algumas vezes funcionou mas na maioria dos casos acabou dando chabú. Como ocorreu hoje. O Brasil teve chances e poderia ter feito os dois gols cujas bolas bateram na trave. A Argentina poderia ter se desesperado. E aí o Brasil iria pra final e despacharia os hermanos. Só que, como o Lúcio falou, o caminho do sucesso pra vitória é muito mais curto quando você joga bem e com volume de jogo do que nas vezes em que você se acovarda e crê no acaso pra vencer.

Mas eu iria mais além do Lúcio (acho que culpar só o Dunga pela derrota não é ter uma visão da situação como um todo). Nós brasileiros temos uma grande paixão pelo futebol e nos deixamos levar pelo emocional sem avaliar a correta dimensão das coisas. Este humilde blogueiro se inclui no grupo. Quando apostei que o Brasil ganharia o ouro, obviamente não estava falando com a razão. Achava que por causa do conjunto de bons jogadores que tínhamos, a despeito de todos os problemas, ganharíamos as Olimpíadas.

Porém, querem saber? Foi até bom o Brasil ter perdido agora.

Imaginem se o Brasil ganha as Olimpíadas mesmo com a várzea que foi o planejamento para os Jogos? Pô, é só olhar: um time que não estava definido 5 dias antes dos Jogos; jogadores que foram chamados mas que não quiseram vir ou não foram liberados; uma preparação inexistente que envolveu, basicamente, amistosos contra um combinado do Rio e as seleções de Cingapura e do Vietnã; jogador que foi convocado pelo presidente da CBF pra entrar em forma durante os Jogos; treinador despreparado para o ofício de técnico da seleção brasileira…

O que é que os professores/analistas do esporte teriam a dizer se o Brasil ganhasse mesmo com a várzea descrita acima? Que planejamento é um mero detalhe, que ele não vale nada? Que o importante mesmo é habilidade?

Não adianta, gente. Essa derrota do Brasil foi um serviço de utilidade pública aos Jogos Olímpicos. Provou uma coisa: sem planejamento você não vencerá nenhuma competição de alto nível, mesmo que você tenha os melhores jogadores do mundo.

Foi o que ocorreu com o basquete norte-americano em Atenas-04. Os caras foram pra lá meio na zueira, alguns jogadores importantes não quiseram vir, o time foi montado às pressas… Resultado: deixaram o ouro pra Argentina e ficaram com o bronze.

Já a partir de 2004 começaram o planejamento pra Pequim-08. A derrota no Mundial de basquete serviu de alerta: seriedade também seria necessária. Os outros times simplesmente não perderiam para os EUA pelo fato de eles serem quem são. Os EUA é que teriam que provar que são melhores.

O resultado tá aí… Ou alguém tem dúvida de que eles ganharão o ouro com um pé nas costas?

O problema é que, por aqui, nós temos a grotesca CBF e o cartola Ricardo Teixeira comandando o futebol nacional. É exigir demais um planejamento mínimo por parte desta entidade e do seu respectivo presidente…

(Tô até vendo 2013 chegando, quando estaremos a um ano da Copa do Mundo do Brasil, e nós ainda discutindo quais serão os estádios-sedes da competição…)

Resumindo a história: poderíamos ter perdido pra Argentina? Sem dúvida alguma. Os caras são bons e ninguém em sã consciência vai desmerecer este fato. Messi e Riquelme são dois craques com ‘c’ maiúsculo. Porém, com planejamento e um comando melhor, no mínimo não levaríamos o vareio que levamos numa semi-final olímpica. Digo mais: nossas chances de vitória seriam bem maiores.

Mas, fazer o que? Os manda-chuvas continuarão sem planejar porra nenhuma, o comando técnico continuará sendo esse mesmo e, como amantes do futebol, estaremos que nem loucos torcendo pro país na próxima Copa do Mundo (isso se nos classificarmos… com Dunga no comando, todo cuidado é pouco!).

2 Respostas para “Pequim’08 – Se lo fumó en pipa”


  1. 1 fabio Quarta-feira, 20 / Agosto / 2008 às 12:36 am

    Fiquei esperando pra ver de quem seria a culpa.
    De repente, encontro isso:”Dunga acredita que é um predestinado, um cara com destino messiânico.”
    Não sei não, Navolta.

  2. 2 André Quarta-feira, 20 / Agosto / 2008 às 9:12 pm

    Isso aí segundo o Lúcio de Castro. Pra mim, todo mundo tem culpa, inclusive os jogadores – pô, os caras ficaram dando toquinho de lado com 2 a 0 pra Argentina! Era hora de ir pro ataque com tudo!

    Mas no fim das contas a culpa principal pra mim é da CBF, inclusive por colocar um treinador ruim como o Dunga pra comandar a seleção e o projeto olímpico (os caras não aprendem mesmo! Da outra vez colocaram o Ricardo Gomes e o Brasil sequer foi pras Olimpíadas). A Confederação faz todo o planejamento errado; tem vezes que, mesmo assim, o Brasil ganha alguma coisa. Porém não é assim que se faz em esporte de alto nível.

    Abraços,


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