Arquivo para Agosto 22nd, 2008

Pequim’08 – Highlights [8]

Tá acabando! Depois de amanhã terminam os Jogos Olímpicos de Pequim-08 e eu já estou sentindo saudade desta cobertura olímpica que tenho feito… Mas, como diria um grande filósofo do mundo futebolístico, o jogo só acaba quando termina. Então, vamos a mais highlights olímpicos. Vapt-vupt!

Vôlei Feminino. As meninas do Brasil estão voando em Pequim! Não perderam um set sequer e chegam amanhã a uma decisão olímpica inédita. Só pra citar, o Brasil chegava nas semi-finais olímpicas desde Barcelona-92 no vôlei feminino, mas nunca ia pra final. Desta vez, chegamos com tudo pra levar o ouro mas teremos uma pedreira pela frente: as norte-americanas. Elas venceram as perigosas cubanas por 3 sets a 0 nas semifinais. Ou seja, promessa de jogaço amanhã pra quem gosta de vôlei. Taí: comece a torcer a partir das 9h pelo ouro das meninas do Brasil!

Vôlei Masculino. O time voltou a ficar com sangue nos olhos. Saiu perdendo hoje pra Itália e depois começou a virar tudo quanto era bola na raça. Giba estava impossível; Gustavo e Murilo, ensandecidos; Serginho ia atrás de todas as bolas. 3 sets a 1 e Brasil mais uma vez ganhando dos italianos em Jogos Olímpicos. O adversário da final? EUA, os quais ganharam da Rússia em emocionantes 3 sets a 2. É a chance do Brasil vingar a semi-final da Liga Mundial, onde perdemos pros norte-americanos por 3 sets a 0. Enfim, é a final do atual campeão olímpico contra o atual campeão da Liga Mundial. Promessa de jogaço e você terá que ficar acordado na madrugada de sábado pra domingo, a partir de 1h, pra torcer pra seleção brasileira. Rumo ao ouro!

Basquete Masculino. A Argentina bem que tentou, jogou tudo que pôde, mas não deu. Se já seria difícil ganhar dos norte-americanos com Manu Ginóbili em quadra, quando o cara saiu contundido depois do primeiro quarto, a missão tornou-se praticamente impossível. Mesmo assim, os hermanos (atuais campeões olímpicos) lutaram muito, diminuíram a diferença para seis pontos, mas não deu. EUA 101 x 81 Argentina. Grande atuação de Scola pros argentinos, grande atuação do time inteiro pros EUA. Na final, os yankees pegarão os espanhóis, atuais campeões mundiais. O recado a estes já foi dado: a seleção dos EUA venceu eles por quase 40 pontos de diferença na fase de classificação. Pra mim, é EUA na cabeça. E a Argentina que tome cuidado na disputa pelo bronze: se Ginóbili não voltar, será difícil ganhar da forte Lituânia (lembremos que ela ganhou da Argentina na fase de classificação).

Taekwondo. Natália Falavigna começa a lutar daqui a pouco. Esperança de medalha pro Brasil, sem sombra de dúvida. Vamos ver se ela consegue alguma coisa.

Atletismo. Jadel Gregório ficou em sexto lugar na final do salto triplo, muito longe de suas melhores marcas. Maurren, como dito no post abaixo, ganhou um inédito ouro pro Brasil no salto em distância. E os revezamentos 4×100m do Brasil quase conseguem medalha: ambos chegaram em quarto lugar, o feminino a uma diferença mínima do terceiro posto. Em ambas as provas, venceu a Jamaica e os EUA, talvez sentindo a pressão, sequer se classificou pra final. Nas duas provas, o time yankee deixou cair o bastão. Haja coincidência, hein? E Usain Bolt conseguiu algo incrível: ganhou três ouros (100, 200 e 4×100m), quebrando o recorde mundial nas três provas. Voou baixo o jamaicano! E tem mais esperança de medalha pro Brasil: Marílson dos Santos na maratona; amanhã, a partir das 20h30, fica a nossa torcida por ele.

Futebol Masculino. Daqui a pouco, 1h, é torcida total pra Nigéria contra os argentinos. Quero só ver a capa do Olé se eles perderem…

É isso aí. Rolando mais medalhas pro Brasil, a gente posta por aqui.

Pequim’08 – Ouro fantástico de Maurren!

Hoje ocorreu um daqueles momentos olímpicos que eu defino como fantásticos. Maurren Higa Maggi ganhou o ouro na prova do salto em distância com a marca de 7,04m. Mas não é pelo ouro e pelo dia de hoje em si que eu defino como fantástico o momento olímpico da Maurren; fantástico pra mim é o roteiro que a levou ao ouro de hoje. Um roteiro que parece coisa de cinema, praticamente um “Rocky” do salto em distância.

A primeira vez que eu vi a Maurren foi em 1999, no Pan-Americano de Winnipeg (Canadá). Fiquei impressionado com a espontaneidade e com a alegria da moça: ela barbarizava no salto em distância e nos 100m com barreiras e depois das provas mandava recados pro pai do tipo “Corri muito, viu?”. 

Com suas boas marcas, ela chegou como favorita pra ganhar uma medalha no salto em distância nos Jogos de Sidney-00 – ela estava no seleto grupo de saltadoras que tinha passado dos 7 metros (aliás, bem mais que isso, sua melhor marca era 7,26m; tal marca de Maggi obtida em 1999 só foi superada três vezes de lá pra cá). Mas ela se machucou nas eliminatórias da modalidade e não pôde fazer sua melhor apresentação. Resultado: ficou em 25° lugar no geral. E o ouro foi pra uma alemã que saltou 6,99m.

Mas Maurren se recuperou e voltou ao grupo de elite das saltadoras mundiais. O problema é que em 2003 ela levou uma paulada incrível: antes do Pan de Santo Domingo, um teste antidoping da moça tinha dado positivo pra uma substância chamada clostebol. Ela alegou que tal substância tinha aparecido no exame porque ela tinha usado um creme cicatrizante depois de uma sessão de depilação; ou seja, ela não tinha se dopado para obter melhores resultados. Não adiantou: sua punição foi a severa exclusão de competições pelo período de dois anos. Acabava-se o sonho de disputar os Jogos de Atenas-04.

(Só para pontuar: conforme bem apontou hoje o Juca Kfouri no seu blog, o diretor de redação do jornal “Diário de São Paulo”, Paulo Moreira Leite, fez uma matéria para provar que a versão de Maurren era factível. Na época da exclusão da atleta, ele pegou uma repórter do jornal, pediu que a mesma fizesse a sessão de depilação e que, posteriormente, usasse o mesmo creme que Maurren alegara ter usado. O teste antidoping da repórter deu positivo. Veja um post do Paulo contando a história aqui).

Fiquei muito nervoso na época: como é que não tinha ninguém da confederação de atletismo acompanhando dia-a-dia a Maurren? Como é que uma das nossas melhores atletas iria ser excluída do esporte por dois anos por causa de um maldito creme cicatrizante? Era muito amadorismo.

Com a exclusão de dois anos, Maurren desabou. Casou-se com o ex-piloto de Fórmula 1 Antônio Pizzonia e praticamente virou uma dona-de-casa. Abandonou completamente o esporte. Teve uma filha e começou a se dedicar bastante a ela. Sabe-se lá o que acontecia no casamento dela, mas uma coisa era fato: ela simplesmente virar uma “do lar” era um pecado com o esporte nacional.

A saltadora resolveu se separar e, depois de mais de dois anos parada, voltou a treinar no início de 2006, com 29 anos de idade. Ou seja, tinha passado pelo inferno, estava mais velha e teria que voltar ao caminho dos saltos gradualmente. E assim ela foi indo.

Saltou 6,95m no Mundial de 2007. Saltou 6,99m no troféu Brasil deste ano. Na final olímpica, sua melhor marca do ano: 7,04m, o suficiente pra ganhar o ouro.

E que ouro! O roteiro dramático da nossa Maurren Higa “Rocky” Maggi ainda teria mais lances de suspense: ela, de cara, botou 7,04m na final disputada hoje pela manhã. Queimou seus três saltos seguintes. Até a última rodada, primeiro lugar pra ela.

Vai pro salto então a perigosa russa Tatyana Lebedeva. Ela faz um ótimo salto. Aparentemente passa dos 7 metros. Expectativa pra saber quanto a mais ela passa da marca. Todos aguardam. Sai no placar: Lebedeva fez 7,03m. Um mísero centímetro a menos que Maurren! O ouro é da brasileira!

E adivinhem da onde veio esse um centímetro de diferença? Bem, vejam a foto abaixo:

Maurren (esquerda) foi no limite, quase queimou o seu salto. A russa deu a pisada um pouco antes da linha. Um centímetro que valeu ouro!

Aos 32 anos, Maurren Higa Maggi torna-se a primeira mulher a ganhar ouro em esporte individual para o Brasil. Mais que isso: quebra um jejum de 24 anos sem medalha de ouro no atletismo nacional (o último tinha sido o de Joaquim Cruz, nos 800m rasos de Los Angeles-84). Mais ainda que isso: foi uma das poucas atletas a dar a volta por cima depois de um caso de doping. Mas mais ainda que isso: ressurgiu das cinzas mesmo depois de ser suspensa pelo uso de uma substância que, acredito piamente eu, não lhe ajudou em nadica de nada a melhorar seu desempenho.

Pela competência, Maurren já mereceria uma medalha olímpica. Porém, por tudo que foi relatado acima e pela simpatia incrível da moça, ela merecia mais. Parabéns Maurren Higa Maggi pelo ouro olímpico! Você hoje foi uma espécie de Rocky da vida real: apanhou, apanhou, apanhou, mas no fim venceu! Fica aqui a minha homenagem a sua pessoa!

P.S.: muito engraçado a filhinha de três anos da Maurren falando com ela pelo telefone e dizendo que queria a prata pois achava que era a medalha mais bonitinha…

Pequim’08 – Pelo menos veio o bronze

Depois da piabada que levou da Argentina na semi-final, o time do Dunga jogou hoje contra a Bélgica em Xangai pela disputa do terceiro lugar. E o Brasil, com certa facilidade, venceu: 3 a 0, gols de Jô (2) e Diego.

Acho que a obrigação mínima deste time foi cumprida. Como disse no post que analisava a derrota do Brasil pra Argentina, acredito que o nosso país não seja invencível no futebol e que uma derrota pros hermanos é um resultado até normal, do jogo. O negócio é que a derrota, do jeito que veio, foi complicadíssima: levar um 3 a 0 deles numa semi-final olímpica, com direito a baile e tudo, ah, isso não é normal não.

Mas enfim, este bronze prova ao menos uma coisa: mesmo com uma várzea danada, sem preparação, sem treinamento, com um comandante inexperiente, o Brasil ainda ficou em terceiro lugar na competição. O que nos deixa ainda mais chateados pois se tivéssemos uma organização melhor das coisas, as nossas chances de ganhar o ouro aumentariam bastante. Não significa que ganharíamos, somente que nossa chance de ganhar aumentaria.

Só mais três coisas sobre essa seleção olímpica: (i) o bronze dá sobrevida a Dunga no comando da seleção; (ii) o treinador parece ser bem grato com quem joga e mostra vontade sob seu comando: esta seleção olímpica virará a base da seleção principal (inclusive já vimos isso hoje na convocação para os próximos dois jogos das Eliminatórias pra Copa do Mundo), com a exceção de Alexandre Pato, o qual, aparentemente, está bem em baixa com o Dunga; e (iii) pelo menos essa seleção de agora não vai fazer a palhaçada que a seleção do Zagallo fez em Atlanta-96. Naquela ocasião, o time marrento não quis ir ao pódio olímpico talvez temendo que a Argentina estivesse no topo; ganharam a partida do bronze sobre Portugal por 5 a 0 e ali mesmo receberam a medalha. Foi um dos poucos momentos olímpicos em que o pódio não estava completo. Segundo informações que vi na internet agora, a seleção do Dunga já está indo de Xangai pra Pequim e vai participar da cerimônia de premiação.

É o mínimo que a gente exige de um atleta que vai pros Jogos: espírito olímpico.

Pequim’08 – Prata no vôlei de praia

Acabei de ver a final do vôlei de praia e os brasileiros Márcio e Fábio Luiz (é com ‘z’, antes eu só estava escrevendo com ’s’…) perderam a final para os norte-americanos Roger e Dallhauser por 2 sets a 1. Com isso, o Brasil fica com duas duplas no pódio olímpico da modalidade, porém sem o ouro.

Do jogo que eu vi, percebi duas coisas: (i) Márcio e Fábio Luiz chegaram longe dadas as suas limitações; (ii) os norte-americanos tinham razão quando louvaram o fato de Ricardo e Emanuel terem perdido a semi-final. Não que Márcio e Fábio Luiz sejam ruins não; o que lhes falta é esperteza pra saber mudar o jogo quando necessário. Senão vejamos.

No primeiro set, os brasileiros saíram vencendo por 5 pontos de diferença, 10 a 5 (uma baita diferença pro vôlei de praia). E o jogo do Brasil era o mesmo: saque no Rogers (o baixinho e habilidoso da dupla norte-americana) pra que ele depois atacasse; a estratégia era evitar que o ataque viesse do grandalhão Dallhauser. Deu certo durante um tempo, por isso o Brasil abriu 5 pontos; mas a partir de certo ponto, o Rogers começou a virar com muita habilidade todas as bolas e o Dallhauser começou a bloquear o Fábio Luiz (aliás, o jogo dos norte-americanos era sempre sacar nele).

Nisso os EUA tiraram os 5 pontos de vantagem, viraram a partida e finalizaram o set em 22 a 20. Ou seja, perdíamos ali um set praticamente ganho.

No segundo set, a estratégia de sacar no Rogers estava nitidamente miada. O cara não tinha altura pra atacar, mas mesmo assim virava todas as bolas na habilidade. Era hora de sacar no Dallhauser (até porque o cara tinha altura mas era desengonçado pra caramba). Mas o Brasil não fazia isso. Os EUA abriram 3 pontos de vantagem; quando Márcio foi sacar, resolveu mudar a estratégia. Resultado: o grandalhão começou a errar, o Brasil começou a virar as bolas e fechou o segundo set em 21 a 17.

Pensei: “agora o Brasil vai com muita moral pro tie-break”.

Mas que nada. Os norte-americanos fizeram 3 a 0 de cara em erros do Brasil. A partir daí, o que se viu foi uma falta de inteligência tática dos brasileiros absurda: os norte-americanos sacavam no Fábio Luiz e o mesmo tentava resolver na base da porrada quando ia atacar. O problema era que o grandalhão Dallhauser já tinha marcado o jogo do Fábio Luiz.

O que aconteceu depois? Bem, algo que eu nunca vi em set decisivo de final olímpica.

O Fábio Luiz ficou uma vez no bloqueio do Dallhauser. Deve ter falado pro Márcio algo como “deixa comigo que eu quebro esse gringo!!!” e aí ficou de novo no bloqueio do grandalhão. E de novo. E de novo. E de novo. Foram quatro bloqueios seguidos do Dallhauser em cima do Fábio! Até que o brasileiro pensou: “Pô, não tá dando certo, vou mudar a estratégia” e aí, numa largadinha, virou finalmente um ponto.

O problema é que, num set de 15 pontos como o tie-break, a vaca já tinha ido pro brejo pois o placar estava 9 a 1 pros norte-americanos. O Brasil não mudou a estratégia de saque (ele sempre ia pro habilidoso Rogers, apesar do fato de termos feito vários pontos seguidos no segundo set sacando no Dallhauser), errou bastante e o placar final do último set pareceu briga de peso pesado contra peso pena: 15 a 4 pros EUA.

Não temos o que reclamar. A dupla brasileira podia até ser habilidosa mas abusou do direito de não jogar inteligentemente a final olímpica. Méritos pros (aparentemente) limitados Rogers e Dallhauser. As duas medalhas de ouro do vôlei de praia vão pros EUA.

E que zica olímpica hein, galera? Tá difícil do Brasil ganhar ouro… Olha, minhas esperanças agora são só os vôleis de quadra. O feminino já tá na final contra os EUA (será que perderemos a terceira final seguida para eles?) e o masculino pega a Itália na semi-final de amanhã. Fica a nossa torcida por eles.


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