Hoje ocorreu um daqueles momentos olímpicos que eu defino como fantásticos. Maurren Higa Maggi ganhou o ouro na prova do salto em distância com a marca de 7,04m. Mas não é pelo ouro e pelo dia de hoje em si que eu defino como fantástico o momento olímpico da Maurren; fantástico pra mim é o roteiro que a levou ao ouro de hoje. Um roteiro que parece coisa de cinema, praticamente um “Rocky” do salto em distância.
A primeira vez que eu vi a Maurren foi em 1999, no Pan-Americano de Winnipeg (Canadá). Fiquei impressionado com a espontaneidade e com a alegria da moça: ela barbarizava no salto em distância e nos 100m com barreiras e depois das provas mandava recados pro pai do tipo “Corri muito, viu?”.
Com suas boas marcas, ela chegou como favorita pra ganhar uma medalha no salto em distância nos Jogos de Sidney-00 – ela estava no seleto grupo de saltadoras que tinha passado dos 7 metros (aliás, bem mais que isso, sua melhor marca era 7,26m; tal marca de Maggi obtida em 1999 só foi superada três vezes de lá pra cá). Mas ela se machucou nas eliminatórias da modalidade e não pôde fazer sua melhor apresentação. Resultado: ficou em 25° lugar no geral. E o ouro foi pra uma alemã que saltou 6,99m.
Mas Maurren se recuperou e voltou ao grupo de elite das saltadoras mundiais. O problema é que em 2003 ela levou uma paulada incrível: antes do Pan de Santo Domingo, um teste antidoping da moça tinha dado positivo pra uma substância chamada clostebol. Ela alegou que tal substância tinha aparecido no exame porque ela tinha usado um creme cicatrizante depois de uma sessão de depilação; ou seja, ela não tinha se dopado para obter melhores resultados. Não adiantou: sua punição foi a severa exclusão de competições pelo período de dois anos. Acabava-se o sonho de disputar os Jogos de Atenas-04.
(Só para pontuar: conforme bem apontou hoje o Juca Kfouri no seu blog, o diretor de redação do jornal “Diário de São Paulo”, Paulo Moreira Leite, fez uma matéria para provar que a versão de Maurren era factível. Na época da exclusão da atleta, ele pegou uma repórter do jornal, pediu que a mesma fizesse a sessão de depilação e que, posteriormente, usasse o mesmo creme que Maurren alegara ter usado. O teste antidoping da repórter deu positivo. Veja um post do Paulo contando a história aqui).
Fiquei muito nervoso na época: como é que não tinha ninguém da confederação de atletismo acompanhando dia-a-dia a Maurren? Como é que uma das nossas melhores atletas iria ser excluída do esporte por dois anos por causa de um maldito creme cicatrizante? Era muito amadorismo.
Com a exclusão de dois anos, Maurren desabou. Casou-se com o ex-piloto de Fórmula 1 Antônio Pizzonia e praticamente virou uma dona-de-casa. Abandonou completamente o esporte. Teve uma filha e começou a se dedicar bastante a ela. Sabe-se lá o que acontecia no casamento dela, mas uma coisa era fato: ela simplesmente virar uma “do lar” era um pecado com o esporte nacional.
A saltadora resolveu se separar e, depois de mais de dois anos parada, voltou a treinar no início de 2006, com 29 anos de idade. Ou seja, tinha passado pelo inferno, estava mais velha e teria que voltar ao caminho dos saltos gradualmente. E assim ela foi indo.
Saltou 6,95m no Mundial de 2007. Saltou 6,99m no troféu Brasil deste ano. Na final olímpica, sua melhor marca do ano: 7,04m, o suficiente pra ganhar o ouro.
E que ouro! O roteiro dramático da nossa Maurren Higa “Rocky” Maggi ainda teria mais lances de suspense: ela, de cara, botou 7,04m na final disputada hoje pela manhã. Queimou seus três saltos seguintes. Até a última rodada, primeiro lugar pra ela.
Vai pro salto então a perigosa russa Tatyana Lebedeva. Ela faz um ótimo salto. Aparentemente passa dos 7 metros. Expectativa pra saber quanto a mais ela passa da marca. Todos aguardam. Sai no placar: Lebedeva fez 7,03m. Um mísero centímetro a menos que Maurren! O ouro é da brasileira!
E adivinhem da onde veio esse um centímetro de diferença? Bem, vejam a foto abaixo:

Maurren (esquerda) foi no limite, quase queimou o seu salto. A russa deu a pisada um pouco antes da linha. Um centímetro que valeu ouro!
Aos 32 anos, Maurren Higa Maggi torna-se a primeira mulher a ganhar ouro em esporte individual para o Brasil. Mais que isso: quebra um jejum de 24 anos sem medalha de ouro no atletismo nacional (o último tinha sido o de Joaquim Cruz, nos 800m rasos de Los Angeles-84). Mais ainda que isso: foi uma das poucas atletas a dar a volta por cima depois de um caso de doping. Mas mais ainda que isso: ressurgiu das cinzas mesmo depois de ser suspensa pelo uso de uma substância que, acredito piamente eu, não lhe ajudou em nadica de nada a melhorar seu desempenho.
Pela competência, Maurren já mereceria uma medalha olímpica. Porém, por tudo que foi relatado acima e pela simpatia incrível da moça, ela merecia mais. Parabéns Maurren Higa Maggi pelo ouro olímpico! Você hoje foi uma espécie de Rocky da vida real: apanhou, apanhou, apanhou, mas no fim venceu! Fica aqui a minha homenagem a sua pessoa!
P.S.: muito engraçado a filhinha de três anos da Maurren falando com ela pelo telefone e dizendo que queria a prata pois achava que era a medalha mais bonitinha…

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