Arquivo para Agosto 25th, 2008

Pequim’08 – Balanço da participação brasileira

Acabaram os Jogos Olímpicos de Pequim. Aqui no “A Volta…” fiz a melhor cobertura possível sobre o maior evento esportivo do mundo e pelo tanto que escrevi nestes dias vocês devem ter percebido o quanto eu aprecio os Jogos Olímpicos.

Encerrados os Jogos, é hora de fazermos um balanço da participação brasileira nestas Olimpíadas. E aí eu começo fazendo uma comparação entre quem eu achava que ganharia medalha (ver este post) e quem efetivamente voltou “medalhado” pra casa. Bem, sobre isso, nem tenho o que dizer. Minhas previsões foram vergonhosas… Previ 20 medalhas, sendo 9 de ouro. Ganhamos 15, 3 de ouro. Vejam abaixo um resumo das minhas apostas com os acertos, os erros e os ouros previstos:

  • Acertos: Maurren Higa Maggi, César Cielo (nos 100m livre), futebol masculino e feminino, vôlei masculino e feminino, Ricardo e Emanuel (vôlei de praia), Tiago Camilo, Natália Falavigna, Robert Scheidt e Bruno Prada.
  • Apostas Erradas: Fabiana Murer, Marílson Gomes dos Santos, Diego Hypólito, Jade Barbosa, Thiago Pereira (200m e 400m medley), Kaio Márcio (100m borboleta), João Derly, Mayra Aguiar, Bimba.
  • Acertos – Medalha de Ouro: Maurren Higa Maggi e Vôlei Feminino.
  • Erros – Medalha de Ouro: Diego Hypólito, Futebol Masculino (ganhou bronze), Vôlei Masculino (ganhou prata), Ricardo e Emanuel (ganharam bronze), Tiago Camilo (ganhou bronze), João Derly, Robert Scheidt/Bruno Prada (ganharam prata).
  • Quem ganhou medalha e eu não tinha previsto? César Cielo (ouro nos 50m livre), Ketleyn Quadros e Leandro Guilheiro (bronze no judô), Márcio e Fábio Luiz (prata no vôlei de praia), Fernanda Oliveira e Isabel Swan (bronze na vela).

Ou seja, errei bastante, principalmente no otimismo das medalhas de ouro. Mas, como tinha dito, várias e várias vezes antes, sou apenas um torcedor que fica dando palpites…

Enfim, o Brasil ganhou 15 medalhas no total: igualamos o desempenho de Atlanta-96, quando tivemos o recorde de medalhas. No entanto, ganhamos 2 ouros a menos do que Atenas-04 (nosso recorde) e pra desespero do pessoal lá do Bronze Brasil não atingimos a meta de 10 bronzes estabelecidos por eles. Na classificação geral (aquela que dá maior pontuação pro ouro e não pro total de medalhas, como queriam os EUA) ficamos em 23° lugar – atrás, portanto, do 16° de Atenas-04.

Pra mim, as maiores decepções foram o sexto lugar do Diego Hypólito na final do solo na ginástica, a eliminação precoce do João Derly no judô e o vareio que a seleção masculina de futebol levou da Argentina na semifinal (3 a 0). No entanto, tive algumas surpresas positivas também nestes Jogos: a Ketleyn Quadros, junto com a Fernanda Oliveira e Isabel Swan, as quais eu nem conhecia; a grande participação do César Cielo nos 50m livre, ganhando o ouro; e o vôlei feminino, que, apesar de eu ter apostado que ganharia ouro, sempre fiquei com um pé atrás (desta vez, elas foram lá e botaram pra quebrar!).

Esse foi o primeiro ciclo olímpico no qual tivemos o grande aporte de recursos federais através das leis de incentivo. Apesar disso, se formos trocar em miúdos a nossa participação em Pequim-08, chegamos num nível de premiação igual ao de 12 anos atrás e com menos ouros do que há quatro anos atrás. Ou seja, fomos razoáveis, com um desempenho que não supera os obtidos nos últimos três Jogos (em Sidney-00, apesar de não termos ganho nenhum ouro, saímos dos Jogos com 12 medalhas no total).

Por isso, não adianta o sr. Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, vir com ufanismo e estatísticas mil dizendo que esta foi a melhor participação do Brasil na história. Nada disso. Seja pelo prisma que for, ficamos atrás de Atlanta-96 e de Atenas-04. “Ah, mas levamos um número recorde de atletas”, diria Nuzman. Isso sim é verdade, porém do que adianta a quantidade se não evoluímos na qualidade?

E ainda tem mais: nessa de aportarmos dinheiro em esportistas de alta performance, nós acabamos perdendo a base para a formação de atletas nos mais variados esportes. Sem uma base maior de esportistas, a probabilidade de termos mais atletas de alta performance em mais esportes diminui drasticamente. Nisso, chegamos à conclusão que chegou o Marcelo Barreto do Sportv: não temos atletismo, temos Maurren Higa Maggi; não temos natação, temos César Cielo; não temos taekwondo, temos a Natália Falavigna, e por aí vai…

No fim das contas, é nas Olimpíadas – ou seja, o fim de todo o processo descrito acima – que sentimos o quão mal planejado é o esporte nacional. É só ver nesta matéria do UOL Esporte: fora o fato do país não ter uma política de esportes, o Nuzman (nunca é demais lembrar, manda-chuva do Comitê Olímpico Brasileiro desde 96) fica numas de dizer que o investimento não é o valor x, mas sim o y (sempre menor que o x, ou seja, ele, no fim das contas, quer é mais grana mesmo), aí você vê atleta investindo grana do próprio bolso pra ir pras Olimpíadas (como foi o caso das meninas que ganharam o bronze na vela para o país), depois vê esporte praticamente inexistente (badminton) ganhando a mesma grana que um esporte que já tem participação expressiva no cenário internacional para o país (taekwondo)…

Não vou entrar no mérito desta discussão política (até porque, com muitos mais números e com maior conhecimento de causa, o Juca Kfouri já comprou esta briga) mas o fato para mim é um só: tirando o vôlei, o judô e a vela, o resto dos esportes no país ainda tem muito a evoluir (em diferentes gradações, obviamente). Estes três esportes, por diferentes razões, são os que conseguiram manter um desempenho mais ou menos estável nas últimas Olimpíadas.

No fim das contas, de Atenas-04 para Pequim-08, ficamos na mesma. Essa é a minha avaliação. Expectativas pra Londres-12? Eu não espero muitas mudanças não.

Aliás, uma coisa eu já garanto que não mudará: a minha torcida. Só que em 2012 eu espero que ela ocorra no local do evento e não à distância. Será que a grana vai dar? Sei não…

Pequim’08 – A última medalha foi de prata

Caros leitores, ontem mal consegui ficar de pé, tamanho era o estado sonolento no qual me encontrava. É que resolvi assistir, na madrugada de sábado pra domingo, à final do vôlei masculino de Pequim. Até então, eu só tinha assistido a eventos esportivos de madrugada duas vezes: quando o Senna corria e aí eu não podia perder as decisões dele contra Prost e Mansell; na Copa do Mundo de 2002, porque futebol é futebol e Copa do Mundo só ocorre de 4 em 4 anos.

No entanto, o vôlei do Brasil merecia a perda de sono que eu iria ter. E nisso fui ver a final entre Brasil e EUA: o jogo foi tão disputado que começou à 1h e acabou por volta de 3h30, mesmo que o tie-break não tenha ocorrido.

Como todos vocês já devem ter lido, o Brasil saiu vencendo bem o primeiro set, 25 a 20. Até dava a impressão de que levaríamos a decisão nas costas. Mas que nada! O segundo set começou “só” 8 a 1 pros EUA, tudo decorrente do demolidor saque de Stanley. O Brasil até deu uma recuperada, chegou a encostar no placar, mas os EUA fecharam em 25 a 22.

A partir daí, o jogo sempre ficava bem disputado porém os yankees melhoravam na fase decisiva do set (quando um time passa dos 20 pontos) e aí eles levaram o terceiro e o quarto sets (25 a 21 e 25 a 20). O quarto set foi o pior dos dois pra nós: o Brasil vencia por 20 a 17, mas aí o time não conseguiu virar mais nenhuma bola. E numa pancada do ótimo Stanley os EUA levaram, pela terceira vez, o ouro no vôlei masculino.

3 sets a 1 pros EUA e ouro com todos os méritos pra eles. Aliás, este foi o tipo de derrota o qual não se pode reclamar: os caras foram superiores, tiveram o melhor jogador (disparado) da partida – Stanley -, um levantador inspiradíssimo, um treinador que soube parar o jogo todas as vezes nas quais o Brasil ameaçava deslanchar no placar… Como admitiu hoje o levantador Ball, eles estudaram o Brasil por 4 anos. O time de Bernardinho era o time a ser batido e nisso eles anularam as principais armas do time. Nem sei se Giba e André Nascimento não estavam em dias muito inspirados mas a verdade é que eles conseguiram virar pouquíssimas bolas; teve uma hora que a bola só entrava ou com o Dante ou com o reserva Murilo.

O Brasil poderia ter jogado melhor? Sem dúvida. Erramos muitos saques (inclusive alguns fraquinhos) e nossa recepção estava meio ruim – aliás, ela era totalmente destroçada quando o grandalhão Stanley sacava. Mas eu acredito que, mesmo melhorando estes dois aspectos, o Brasil não conseguiria vencer o guerreiro time norte-americano.

Percebi que ficou um clima meio que de decepção com a derrota do time que considerávamos imbatível. A verdade é que o time de vôlei do Bernardinho conseguiu algo incrível: ficar no topo por um tempo razoável, servindo de alvo para todos os outros e mesmo assim vencendo (quase) tudo que tinha pelo caminho. Itália, Rússia, Bulgária, Polônia, os próprios EUA… todos eles foram adversários batidos em muitas decisões pelo Brasil. E isso por quase 8 anos – vale dizer que o Brasil ganhou 6 Ligas Mundiais neste período de Bernardinho como técnico.

Mas, enfim, nenhum time é imbatível. E, quer queira quer não, nós chegamos nestas Olimpíadas na fase descendente da curva de rendimento de um time. Alguns jogadores aposentando, outros já com uma idade mais avançada e com estilo de jogo bem conhecido… Esse time foi vidraça desde 2001 e aguentou bem o tranco até este ano. Mas aí surgiu uma equipe muito bem preparada – os EUA – e finalmente a vidraça quebrou. Pena que foi bem nos Jogos Olímpicos…

Quanto ao Ricardinho (levantador que saiu da seleção no ano passado, expulso do time pelo Bernardinho), só tenho a dizer o seguinte: o cara fez uma baita falta. Não que ele fosse insubstituível, mas ele era um jogador vital pro time brasileiro. Vale dizer que ele era considerado o melhor levantador do mundo e que no último torneio que havia disputado pela seleção – a Liga Mundial de 2007 – ele foi eleito o melhor jogador da competição (fato meio difícil de acontecer para um levantador, pelo menos até onde eu saiba). O Marcelinho é razoável, mas não é tão bom quanto o Ricardinho – vale dizer que o primeiro foi reserva absoluto do segundo por pouco mais que 6 anos.

No entanto, a conta que o Bernardinho fez quando expulsou o Ricardinho foi a seguinte: melhor perder uma peça chave do grupo do que perder o grupo inteiro. Nem sei se o levantador era tão “causador” assim, mas esta foi a imagem que o técnico passou dele pra imprensa. Como o time inteiro ficou do lado do Bernardinho – novamente: segundo o que a gente soube pela imprensa -, alguma coisa o Ricardinho deve ter aprontado.

O Brasil teria vencido se ele estivesse lá? Sinceramente, não sei. No mínimo, teria dado mais jogo. Apesar do Bernardinho dizer hoje que o Brasil já havia perdido com o Ricardinho em quadra (o que é verdade), o cara sabia variar bem as jogadas, sabia fazer um atacante ficar desmarcado depois do mesmo ter sido bloqueado (ou seja, dava moral pro cara) e, principal de tudo, sabia fazer uma bolas de “segunda” (quando o levantador, ao invés de levantar, engana a defesa adversária e faz o ponto direto) que desestabilizavam os oponentes.

Mas é isso: a derrota não tira em nada os méritos do time construído pelo Bernardinho e que se tornou um dos mais vitoriosos do mundo nestes anos 2000. O trabalho feito não pode ser apagado e nós temos que enxergar que um ouro e uma prata foram ganhas por este time, na sequência (não me recordo de alguém que tenha conseguido isto recentemente).

E com isso, o Brasil encerrava sua participação nos Jogos… Ah, que sono…


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