Pequim’08 – A última medalha foi de prata

Caros leitores, ontem mal consegui ficar de pé, tamanho era o estado sonolento no qual me encontrava. É que resolvi assistir, na madrugada de sábado pra domingo, à final do vôlei masculino de Pequim. Até então, eu só tinha assistido a eventos esportivos de madrugada duas vezes: quando o Senna corria e aí eu não podia perder as decisões dele contra Prost e Mansell; na Copa do Mundo de 2002, porque futebol é futebol e Copa do Mundo só ocorre de 4 em 4 anos.

No entanto, o vôlei do Brasil merecia a perda de sono que eu iria ter. E nisso fui ver a final entre Brasil e EUA: o jogo foi tão disputado que começou à 1h e acabou por volta de 3h30, mesmo que o tie-break não tenha ocorrido.

Como todos vocês já devem ter lido, o Brasil saiu vencendo bem o primeiro set, 25 a 20. Até dava a impressão de que levaríamos a decisão nas costas. Mas que nada! O segundo set começou “só” 8 a 1 pros EUA, tudo decorrente do demolidor saque de Stanley. O Brasil até deu uma recuperada, chegou a encostar no placar, mas os EUA fecharam em 25 a 22.

A partir daí, o jogo sempre ficava bem disputado porém os yankees melhoravam na fase decisiva do set (quando um time passa dos 20 pontos) e aí eles levaram o terceiro e o quarto sets (25 a 21 e 25 a 20). O quarto set foi o pior dos dois pra nós: o Brasil vencia por 20 a 17, mas aí o time não conseguiu virar mais nenhuma bola. E numa pancada do ótimo Stanley os EUA levaram, pela terceira vez, o ouro no vôlei masculino.

3 sets a 1 pros EUA e ouro com todos os méritos pra eles. Aliás, este foi o tipo de derrota o qual não se pode reclamar: os caras foram superiores, tiveram o melhor jogador (disparado) da partida – Stanley -, um levantador inspiradíssimo, um treinador que soube parar o jogo todas as vezes nas quais o Brasil ameaçava deslanchar no placar… Como admitiu hoje o levantador Ball, eles estudaram o Brasil por 4 anos. O time de Bernardinho era o time a ser batido e nisso eles anularam as principais armas do time. Nem sei se Giba e André Nascimento não estavam em dias muito inspirados mas a verdade é que eles conseguiram virar pouquíssimas bolas; teve uma hora que a bola só entrava ou com o Dante ou com o reserva Murilo.

O Brasil poderia ter jogado melhor? Sem dúvida. Erramos muitos saques (inclusive alguns fraquinhos) e nossa recepção estava meio ruim – aliás, ela era totalmente destroçada quando o grandalhão Stanley sacava. Mas eu acredito que, mesmo melhorando estes dois aspectos, o Brasil não conseguiria vencer o guerreiro time norte-americano.

Percebi que ficou um clima meio que de decepção com a derrota do time que considerávamos imbatível. A verdade é que o time de vôlei do Bernardinho conseguiu algo incrível: ficar no topo por um tempo razoável, servindo de alvo para todos os outros e mesmo assim vencendo (quase) tudo que tinha pelo caminho. Itália, Rússia, Bulgária, Polônia, os próprios EUA… todos eles foram adversários batidos em muitas decisões pelo Brasil. E isso por quase 8 anos – vale dizer que o Brasil ganhou 6 Ligas Mundiais neste período de Bernardinho como técnico.

Mas, enfim, nenhum time é imbatível. E, quer queira quer não, nós chegamos nestas Olimpíadas na fase descendente da curva de rendimento de um time. Alguns jogadores aposentando, outros já com uma idade mais avançada e com estilo de jogo bem conhecido… Esse time foi vidraça desde 2001 e aguentou bem o tranco até este ano. Mas aí surgiu uma equipe muito bem preparada – os EUA – e finalmente a vidraça quebrou. Pena que foi bem nos Jogos Olímpicos…

Quanto ao Ricardinho (levantador que saiu da seleção no ano passado, expulso do time pelo Bernardinho), só tenho a dizer o seguinte: o cara fez uma baita falta. Não que ele fosse insubstituível, mas ele era um jogador vital pro time brasileiro. Vale dizer que ele era considerado o melhor levantador do mundo e que no último torneio que havia disputado pela seleção – a Liga Mundial de 2007 – ele foi eleito o melhor jogador da competição (fato meio difícil de acontecer para um levantador, pelo menos até onde eu saiba). O Marcelinho é razoável, mas não é tão bom quanto o Ricardinho – vale dizer que o primeiro foi reserva absoluto do segundo por pouco mais que 6 anos.

No entanto, a conta que o Bernardinho fez quando expulsou o Ricardinho foi a seguinte: melhor perder uma peça chave do grupo do que perder o grupo inteiro. Nem sei se o levantador era tão “causador” assim, mas esta foi a imagem que o técnico passou dele pra imprensa. Como o time inteiro ficou do lado do Bernardinho – novamente: segundo o que a gente soube pela imprensa -, alguma coisa o Ricardinho deve ter aprontado.

O Brasil teria vencido se ele estivesse lá? Sinceramente, não sei. No mínimo, teria dado mais jogo. Apesar do Bernardinho dizer hoje que o Brasil já havia perdido com o Ricardinho em quadra (o que é verdade), o cara sabia variar bem as jogadas, sabia fazer um atacante ficar desmarcado depois do mesmo ter sido bloqueado (ou seja, dava moral pro cara) e, principal de tudo, sabia fazer uma bolas de “segunda” (quando o levantador, ao invés de levantar, engana a defesa adversária e faz o ponto direto) que desestabilizavam os oponentes.

Mas é isso: a derrota não tira em nada os méritos do time construído pelo Bernardinho e que se tornou um dos mais vitoriosos do mundo nestes anos 2000. O trabalho feito não pode ser apagado e nós temos que enxergar que um ouro e uma prata foram ganhas por este time, na sequência (não me recordo de alguém que tenha conseguido isto recentemente).

E com isso, o Brasil encerrava sua participação nos Jogos… Ah, que sono…

2 Respostas para “Pequim’08 – A última medalha foi de prata”


  1. 1 Bruno Pinheiro Segunda-feira, 25 / Agosto / 2008 às 10:06 pm

    André,
    o duro agora é voltar à vida normal após as olimpíadas!

  2. 2 André Segunda-feira, 25 / Agosto / 2008 às 10:52 pm

    É, hoje parecia quarta-feira de cinzas, pra usar uma comparação que o Tutty Vasques fez…

    Mas não tem problema: 2010 tá aí e o Carnaval da Copa do Mundo vai chegar! Isso se o Dunga não fizer o favor de conseguir não classificar a seleção brasileira…

    Abraços,


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