Eu não assisti a todos os eventos possíveis e imagináveis das Olimpíadas de Pequim. No entanto, vou enumerar abaixo aqueles que eu classifico como alguns dos momentos mais fantásticos destes Jogos Olímpicos. Obviamente estes momentos estarão recheados de episódios com brasileiros; o que não é tão óbvio assim é que a minha definição de fantástico também inclui aqueles momentos que não foram necessariamente positivos. Enfim, aos momentos fantásticos de Pequim-08!
Michael Phelps na final do revezamento 4×100m livre. Não tem nem o que dizer: era apenas o segundo ouro disputado pelo fenômeno, ele já tinha feito sua participação no revezamento e, mesmo assim, os EUA estavam na segunda colocação. Phelps dependia de Jason Lezak, seu companheiro de revezamento, para garantir o ouro. A parada era difícil: Lezak teria que tirar meio corpo de diferença para o até então recordista mundial dos 100m livre, o francês Alain Bernard. Ambos bateram juntos. Phelps então olhou no placar e, incrédulo, não acreditou no que viu! EUA ouro na prova! O cara vibrou tanto, mas tanto, que a imagem ficou marcada: era a alegria de alguém que, por ter tido a ajuda de outro, ainda poderia alcançar o tão sonhado recorde de 8 medalhas de ouro na mesma Olimpíada.
O choro sincero de Eduardo Santos. Esse é um daqueles caras que você pode chamar de “perdedor que venceu”. Eduardo Santos sequer era faixa preta há um ano atrás (o cara não tinha grana para tocar o processo de troca de faixa), sua experiência em eventos internacionais era apenas uma – um sul-americano juvenil disputado em Brasília – mas mesmo assim o cara teve uma participação muito boa em Pequim. Venceu duas lutas, perdeu uma, foi pra repescagem, venceu outra e chegou, então, à disputa da medalha de bronze. Perdeu por decisão dos árbitros (uma daquelas que ninguém consegue entender dado que o brasileiro, na minha humilde opinião, teve maior combatividade). O que esperaríamos de um cara desse? Que dissesse algo como “caralho, eu nem sei como é que eu cheguei aqui”. Mas não. Em sua declaração depois da perda do bronze, Eduardo pediu desculpa ao seus pais por não ter tido “competência suficiente pra derrubar” o seu adversário. Ou seja, ele assumiu a bronca e se desculpou àqueles que, provavelmente, foram os que mais sofreram durante a sua trajetória. Fantástico.
Cielo medalha de ouro nos 50m livre. Um dos momentos mais legais dos Jogos para nós brasileiros: a prova que deu ouro a César Cielo. Tudo foi incrível: o olhar concentrado antes da prova, o sinal da cruz, a largada… E 21 segundos depois, o primeiro ouro da natação brasileira. Ao ver o resultado, Cielo soca a água, esbraveja, comemora muito. Momento incrível da prova mais rápida da natação – só do cara nadar 50m sem respirar a uma velocidade fantástica, já vale o ingresso.
Usain Bolt ganha os 100m livre. E de uma maneira nunca antes vista: antes mesmo de ganhar, tamanha era a diferença para os adversários, Usain já comemora antecipadamente, durante a própria prova. Bate no peito, abre os braços… Isso numa prova que já foi decidida várias vezes por um tronco de diferença. Quebra de recorde mundial pro jamaicano e um momento histórico pros Jogos.
Diego Hypólito caiu no último salto. A foto que mostra a cara de perplexidade de Diego depois da queda no último salto diz tudo: o cara viu que ali, literalmente, seu mundo havia caído. No último salto, o mais fácil de todos, a queda de bunda tirava a medalha de ouro, de prata, de bronze… E deixava Diego acabado psicologicamente.
Phelps, incansável, ganha sétimo ouro por apenas 1 centésimo de segundo. Durante toda a prova dos 100m borboleta Phelps esteve atrás. Na virada dos 50m, estava em quarto lugar. Recuperou-se pouco a pouco: terceiro lugar, segundo lugar… No entanto, o primeiro lugar continuava sendo do sérvio Mirolad Cavic. “Ah, desta vez ele perde…”, logo pensei. Mas lá vem o Phelps, recuperando, recuperando, os dois batem juntos e… Phelps vence! Por um mísero centésimo de segundo, na batida! Essa foi por pouco, mas muito pouco mesmo. O nadador norte-americano nem comemora, tamanho era seu cansaço após 7 dias de disputas ininterruptas. Pela segunda vez, o recorde dos 8 ouros esteve ameaçado. Mas depois que ganhou este sétimo ouro, Phelps já sabia que nada lhe tiraria o oitavo. Se precisasse, até o centésimo de segundo estaria a seu favor.
Liu Xiang e a frustação chinesa. A China ganhou 100 medalhas nestas Olimpíadas, em tudo quanto foi esporte. Mas, mesmo assim, os caras conseguiram ficar frustados com um único atleta: Liu Xiang, ex-recordista mundial dos 110m com barreiras. Liu estava com uma tendinite no tendão de Aquiles mas, mesmo assim, foi pra pista pra competir. Visivelmente ele não tinha a mínima condição física – só de apoiar o pé para dar a largada, o cara urrava de dor. Para piorar ainda mais, um outro atleta queimou a largada da prova e Liu, que já tinha partido, não conseguiu voltar para uma nova largada. Choro pelo abandono, comoção no Ninho do Pássaro: centenas de chineses abandonam o estádio e o país fica triste por Liu não ter disputado o ouro.
Marta, a inconformada. A derrota do Brasil pros EUA na final do futebol feminino foi, para mim, a mais triste de todas: tínhamos um time melhor, que jogava mais bonito, que deu show na semi-final em cima das campeãs do mundo, etc, etc. A imagem que marcou esta derrota pra mim foi a da meio-campista Marta (considerada a melhor jogadora do mundo): no segundo tempo da prorrogação, 1 a 0 pros EUA, ela tenta de tudo pra fazer o gol. Faz jogada individual, cruza na área, bate falta venenosa… No entanto, é após um chute que passa perto do travessão que Marta, nitidamente, se mostra inconformada com a derrota: “O que é que eu fiz de errado?”, pergunta a jogadora aos céus, como se a derrota fosse um castigo divino que havia sido imposto a ela.
Cubano do taekwondo agride árbitro. Faltava 7 segundos pra luta do cubano Angel Valodia Matos acabar e ele pediu para ser atendido pois sentia uma contusão. O cubano vencia a luta na sua categoria e iria ganhar o bronze. Acontece que no taekwondo você tem um minuto pra ser atendido; se esse tempo passar, você é desclassificado. Porém, o juiz costuma avisar quando o tempo vai terminar. Não foi o que ocorreu: o juiz desclassificou Matos automaticamente e o cubano ficou inconformado. Nisso, fez algo incrível: acertou um chute na cara do árbitro! Como disse a medalhista brasileira Natália Falavigna, Matos tem que ser excluído do esporte por tal atitude: segundo ela, ele não deu um soco, uma cabeçada, nada disso, ele usou de uma das técnicas do taekwondo pra agredir uma pessoa que, a priori, não teria como se defender. Se cada um que ficar inconformado for usar a técnica da modalidade em disputa para agredir o árbitro, aí os juízes que se cuidem… Imagina só o caso do tiro, do arco e flecha, da esgrima…
Lutador sueco larga o bronze no chão e vai embora. Esta outra cena também foi inédita pra mim: o sueco Ara Abrahamian, praticante da luta greco-romana, ficou inconformado após a decisão dos árbitros que decretaram sua derrota na semifinal para um italiano. Ele lutou de novo, ganhou o bronze e aí, quando já estava no pódio com a medalha no peito, ele olhou pra ela, deu tchauzinho pros demais medalhistas, saiu do pódio e largou a medalha no chão. Rapaz, largar medalha assim no chão… taí mais uma que eu nunca tinha visto.
É isso aí. Se vocês lembrarem de mais algum momento fantástico de Pequim-08, digam aí na caixa de comentários.

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