Salve, salve, nobres leitores! Tá difícil escrever alguma coisa, mas vamos lá! No último sábado, vi o tão falado “Linha de Passe”, filme brasileiro de Walter Salles e Daniela Thomas, que teve a premiação da Sandra Corveloni (que interpreta Cleuza no filme) como melhor atriz do último Festival de Cannes.
A história do filme é mais ou menos a seguinte: na periferia de São Paulo (especificamente Zona Leste) vive uma mãe (Cleuza), torcedora fanática do Corinthians (a cena dela com a camisa da Gaviões da Fiel cantando “Corinthians, Corinthians minha vida, Corinthians minha história, Corinthians meu amooooor….” no início do filme é incrível). Ela não tem marido mas homem é o que não falta na sua casa: 4 filhos (aparentemente de dois pais diferentes) vivem no mesmo teto e todos com aquela desgraça que acaba com que vive numa periferia de grande cidade.
Vamos aos filhos: Dênis, o mais velho, é um protestante fervoroso, que passa os dias na igreja pregando a palavra do Senhor e acredita na salvação através deste tipo de obra (à noite, ele é um honesto frentista de um decadente posto de gasolina); Dario (boa interpretação de Vinícius de Oliveira) é um muleque bom de bola que tenta realizar o sonho de virar jogador de futebol mas acaba enfrentando dois problemas: não passa em nenhuma “peneira” e já completou 18 anos (ou seja, já seria “velho” demais pro futebol); Dinho é um motoboy daqueles malucos que vivem cruzando São Paulo naquele desespero de entregar as coisas na maior rapidez (nas horas vagas, a graça dele é ficar xavecando as minas – nisso, vai vendo, o cara já tem um filho); e, por último, Reginaldo é apenas uma criança que quer saber, a qualquer custo, quem é o seu pai (ao contrário dos outros, Reginaldo é negro). Dos 4 filhos, acho que a melhor atuação foi a deste último (interpretação de Kaique Jesus Santos).
Para complicar ainda um pouco mais este ambiente, Cleuza está grávida. Ou seja, a história mostra a realidade do que ocorre com muita gente na periferia de uma grande cidade como São Paulo: famílias problemáticas, desunidas, sem um ponto de referência, com muitas necessidades… E ainda com um dia-a-dia castigador e sofrido de transporte coletivo lotado e demorado, empregos estressantes, com baixo salário, etc, etc. E ao longo do sofrimento deles e da busca por um objetivo que melhore suas vidas, eles serão colocados à prova (só para constar, pra quem não entendeu pela descrição acima: Cleuza busca um amor; Dênis, a salvação pela fé; Dario, a fama através do futebol; Dinho, status; e Reginaldo, a figura paterna).
A história até que não é ruim. O negócio é que o filme acaba se tornando muito arrastado pelo conjunto de histórias apresentadas conjuntamente (você também deve ter se confundido com tantos personagens, como os mostrados acima) e aí você acaba perdendo um foco, um eixo central que faça o espectador esperar ansiosamente pelo desfecho. É só ver “Tropa de Elite”, por exemplo: ali é o Capitão Nascimento, o Neto e o Matias (e estes dois se cruzam durante a história). Em “Linha de Passe”, são 5 histórias diferentes, todas elas com elementos em comum, mas que vão se desenvolvendo quase que independentemente. Assim, quando você começa a se interessar por uma delas, corte!, e aí já vamos pra outra história.
Veja bem, é uma história só, mas com 5 “sub-histórias” que acabam quebrando o roteiro de uma maneira que vai cansando o espectador. Se o número de personagens fosse menor e cada um deles fosse mais trabalhado, acho que o filme seria melhor, alcançando um bom nível de excelência.
Quanto aos pontos positivos: (i) boas atuações, como a de Sandra Corveloni, a do menino que faz o Reginaldo e o Vinícius de Oliveira; (ii) a linguagem, bem de periferia mesmo, sem artificialismos nem nada (tô cansado de ver filme brasileiro sobre a periferia que o cara fala “Você está bem?”… Meu, ninguém fala desse jeito na cidade…); (iii) belíssimas cenas de jogo de futebol (pô, e o tal do Vinícius até que joga muito bem, hein? Craque de bola o rapaz!).
Por isso eu acho que o filme talvez valha o ingresso (ainda não vi “Hellboy II” nem “Ensaio sobre a cegueira”). Mas não crie grandes expectativas: a crítica que tanto babou em cima de “Linha de Passe” é aquela que não gosta de um filme que te entretenha e que seja interessante de se ver. Quanto mais cansativo o filme, melhor pra eles.
Ah, mais outra: pra mim, o Walter Salles ainda não fez um “baita” filme, só filmes bons/razoáveis. Nisso, o José Padilha e o Fernando Meirelles estão à frente dele. E olha que o Bráulio Mantovani (roteirista de “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”) cooperou com o roteiro de “Linha de Passe”.
P.S.: São Paulo e seu lado “complicado” estão muito bem retratados no filme, principalmente no que tange à falta de opções para os jovens da periferia.

Últimos Comentários