Caros, como vocês devem saber pelos textos que eu escrevo, vivo em São Paulo. Adoro essa cidade, com tudo de bom e de ruim que ela tem. Pois bem, por conta do trabalho, tive de ficar recentemente 5 semanas em Brasília. Já tinha ido lá uma vez, mas nunca havia ficado tanto tempo por lá. Sei não, mas acho que impliquei com a cidade. Na última semana, contava as horas pra ir embora dali (lógico que isso se devia também ao fato de haver uma bagunça enorme de grevistas perto do local onde estava trabalhando).
Aí eu me lembrei de um trecho do livro “Tudo que é sólido desmancha no ar”, do Marshall Berman. O livro é fantástico e trata basicamente de discutir o que é essa coisa tão ambígua e indefinível que chamamos de modernismo. Recomendo mesmo o livro pois ele me trouxe muitas informações bacanas e interessantes.
Enfim, na minha implicância com Brasília eu me lembrei do livro por causa do prefácio à edição de 1988. Lá, o autor trata da experiência que teve quando visitou a nossa capital em 1987. Reproduzo o texto abaixo:
Vista do ar, Brasília parecia dinâmica e fascinante: de fato, a cidade foi feita de modo a assemelhar-se a um avião a jato tal como aquele do qual eu (e quase todas as outras pessoas que lá vão) a vemos pela primeira vez. Vista do nível do chão, porém, do lugar onde as pessoas moram e trabalham, é uma das cidades mais inóspitas do mundo. Não caberia aqui uma descrição detalhada do projeto da cidade, mas a sensação geral que se tem – confirmada por todos os brasileiros que conheci – é a de enormes espaços vazios em que o indivíduo se sente perdido, tão sozinho quanto um homem na Lua. Há uma ausência deliberada de espaços públicos em que as pessoas possam se reunir e conversar, ou simplesmente olhar uma para a outra e passar o tempo. A grande tradição do urbanismo latino, em que a vida urbana se organiza em torno de uma grande praça, é rejeitada de modo explícito.
O projeto de Brasília talvez fizesse sentido para a capital de uma ditadura militar, comandada por generais que quisessem manter a população a certa distância, isolada e controlada. Como capital de uma democracia, porém, é um escândalo.”
Depois de expor que Niemeyer o havia achincalhado por causa das críticas acima, principalmente pelo fato de Brasília “simbolizar as aspirações e esperanças do povo brasileiro”, Berman até concorda que tais aspirações tivessem certo sentido nos idos dos 60, quando a cidade foi construída. Contudo, ao visitar a cidade nos idos dos 80, quando o país voltava a viver em regime democrático, Berman expôs:
(…) Niemeyer deveria ter percebido que uma obra modernista que negava alguma das mais básicas prerrogativas modernas dos cidadãos – falar, reunir-se, discutir, manifestar suas necessidades – fatalmente conquistaria muitos inimigos. Em meus pronunciamentos no Rio, São Paulo e Recife, terminei atuando como porta-voz de uma indignação generalizada a respeito de uma cidade que, como muitos brasileiros me disseram, não tinha lugar pra eles.”
Para mim, depois de ter vivido estas 5 semanas em Brasília, é impossível não concordar com Marshall Berman. Em primeiro lugar: Brasília é uma cidade de carros. Apesar de eu possuir um, faço questão de não utilizá-lo para ir e voltar ao trabalho aqui em Sampa. Vou de ônibus todo santo dia. Antes, ia de metrô. Em Brasília, o transporte coletivo é ruim demais. Os ônibus demoram, dão muitas voltas e não atendem adequadamente às pessoas que querem se locomover no plano-piloto. Resultado: fui andando todo dia trabalhar, 30 minutos pra ir, 30 minutos pra voltar. Nos dias de chuva ou de muito cansaço, não tinha jeito de não pegar um táxi.
Segundo: esse negócio dos espaços públicos realmente inexiste. Nessa caminhada eu tinha que cruzar todo dia, a pé, o Eixo Monumental da cidade (a qual tem 6 pistas de cada lado). Quando passava por aí, eu realmente me sentia o ser mais isolado do mundo. Tem uma calçada pra andar e tudo, mas ninguém vai por lá. Todos os colegas do meu trabalho já me advertiram no primeiro dia: nem pense em andar por lá quando estiver escuro; é assalto certo.
Terceiro: aquela tremenda organização de Brasília me encheu o saco. É setor disso, setor daquilo. Até a exclusão lá é organizada (a não ser que eu esteja louco, vi por lá o tal do “Setor de Mansões”)! Aí você sai na rua, cadê a padaria? Cadê o boteco? Cadê a vendinha? Ah, isso só tem nas quadras residenciais, e olhe lá! Pô, e o cara que fica no hotel? Faz como? Anda 20 minutos a pé até achar um ridículo “Carrefour Bairro”?
Não defendo São Paulo não, até porque ela tem alguns dos vários problemas que vi em Brasília. Mas São Paulo tem uma Avenida Paulista, uma 25 de Março, um Parque do Ibirapuera, tudo acessível e cheio de opções. Isso eu não vi em Brasília. E acho que são esses espaços públicos que fazem realmente a diferença para uma cidade que queira ser cosmopolita nos dias atuais.
É por essas e outras que espero que Brasília se “desorganize” um pouco mais e crie espaços públicos para as pessoas; que os pobres possam viver na cidade e não sejam jogados nas cidades satélites; que o transporte público melhore e que as pessoas usem menos o carro por lá. Enquanto isso, evitarei a cidade o máximo que puder.
P.S.: se você vive na cidade e discorda absurdamente do que eu disse, escreva aí na caixa de comentários. Nada melhor do que a visão de um morador da cidade pra esclarecer alguma possível opinião errada minha.

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