Quer pagar quanto?

mascote_casas_bahiaNa última sexta-feira 14, o repórter Jonathan Wheatley escreveu uma matéria para o Financial Times intitulada “Retailer at home in the favelas”. A reportagem é interessantíssima pois mostra como foi a inauguração da loja das Casas Bahia na favela de Paraisópolis, aqui de São Paulo, na semana passada.

Dois trechos seguem abaixo, com comentários e grifos meus.

QUE CRISE?

While no cheaper than many shops aimed at richer customers, it is hugely popular with the poor because it allows them to pay in small instalments – and at hefty rates of interest that average 4.5 per cent a month, or about 70 per cent a year. Customers receive a stack of payment slips and must go into a store to make payments. This keeps them coming back and usually keeps them shopping – unless they are among the 10 per cent who default.

Talk of economic crisis raises smiles among the shoppers who pour in when the doors open. Casas Bahia foresees no immediate downturn. It expects sales to rise from R$13bn ($5.6bn, €4.5bn, £3.8bn) last year to R$14bn this year. It spent R$2m to open its new store. Another 30 will follow next year, including others in favelas”.

Esse negócio da “parcela que cabe no bolso” e do carnê pra pagar na loja (o que gera novas vendas) a gente já sabia que tinha nas Casas Bahia. Mas o interessante é a tal da percepção do povo sobre a crise: por enquanto, ela só desperta sorrisos. E é mais ou menos isso aí que eu tô vendo por aí: um ou outro reclamando que não consegue mais financiar um novo carro mas, de resto, a vida está continuando. E com sorrisos, como o pessoal de Paraisópolis aparece na reportagem.

O PCC E A FAVELA

The store’s manager says 3,000 people applied for its 50 jobs, of which 40 – all except management – were filled locally.

That will be important for building good relationships. Most favelas are strict no-go areas for outsiders – often dominated by drug gangs and other criminals.

Paraisópolis is not much different. In recent years, it has gained piped water and sewerage in many areas. Houses change hands for between R$15,000 and R$400,000, putting many inhabitants well inside Brazil’s expanding middle class.

One young man in the crowd, who cheerfully admits to being “linked to the Parallel” (the PCC, a criminal organisation that briefly terrorised São Paulo with bombs and shootings in 2006), explains how the role of organised crime has changed in recent years.

“In the 1990s, anyone running a business here had to pay bribes,” he says. The favela used to be dominated by an extended family from Brazil’s north-east. They would extort about R$15,000 a year, for example, from anyone running a minibus service in and out of the favela .

At the turn of the decade, the PCC moved in. “They make their money only from drugs,” says the young man – although the PCC also robs banks and blew up a police station this week, stealing drugs and guns. The PCC keeps itself popular by distributing free food.

On national children’s day last month, it gave out 12,000 toys. “Extortion isn’t in their philosophy. If you want to set up a business, that’s fine,” says the man. They were less tolerant towards the area’s former gang lords. The few who survived the PCC’s arrival quickly fled.”

Primeiro: o cara dizer que está ligado ao “paralelo” é demais, né não? Tucanou o crime organizado! Mas, enfim, falando sério, o ponto desse trecho que eu escolhi é o seguinte: o PCC não está morto, como o governo do Estado de São Paulo quer fazer crer. Ele está cada vez mais forte e articulado e boa parte dessa força vem das comunidades mais excluídas, desassistidas pelo Estado, assistidas pelo PCC. Podem apostar o seguinte: quem mexer com as Casas Bahia lá em Paraisópolis, tá ferrado. Primeiro porque o PCC não vai deixar; segundo, porque tem gente da comunidade trabalhando por lá e a facção não vai deixar ninguém esculhambar esse pessoal.

Nada que qualquer pessoa bem informada não saiba. Mas vale o reforço: pra muita gente aqui em São Paulo, o PCC está muito longe de ser o “mal personificado”.

Agora quer saber o que é mais engraçado? Vai no Google e digita “inauguração das casas bahia paraisopolis”. Veja quantas matérias aparecem da imprensa brasileira sobre a abertura da loja. Tirando as do Globo, da BBC Brasil e do MSN – todas elas só fazem menção à reportagem do Financial Times – e um editorial do popularesco “Jornal da Tarde”, só uma reportagem foi feita pela imprensa local. Quem fez? A horrorosa “Veja São Paulo”, dando o “sugestivo” título de “Pedágio para vender em Paraisópolis”. (pedágio porque, pelo que se defere da matéria, o dono das Casas Bahia teve de dar uns produtos para a União de Moradores da favela para que a loja fosse ”aceita”).

É incrível, mas o espírito de porco dessa “grande imprensa” ainda consegue me espantar!

4 Respostas para “Quer pagar quanto?”


  1. 1 Lucia Malla Terça-feira, 18 / Novembro / 2008 às 10:57 pm

    O q mais me surpreende é o q estávamos comentando outro dia no Faça: o quanto o jornalismo brasileiro é raso. O Financial Times conseguiu fazer um artigo muito mais profundo e interessante sobre um tema do NOSSO “cotidiano” e os jornais daqui não conseguiram? Tem algo de errado no reino da Dinamarca mesmo.

  2. 2 Chico Quarta-feira, 19 / Novembro / 2008 às 12:32 am

    Li a notícia do ft e nem me liguei em ir no google ver como isso seria publicado por aqui. É como Lúcia diz, não é tão difícil ver bons artigos sobre o Brasil sendo escritos lá fora… Basta ler ft ou nyt pra perceber isso.

  3. 3 André Quarta-feira, 19 / Novembro / 2008 às 7:17 am

    Lúcia e Chico, vcs disseram a verdade. Adicionaria ainda mais um veículo de imprensa aos que o Chico citou: a Economist. Sei lá, mas acho que a imprensa lá fora crê que a gente é muito mais civilizado do que a “grande imprensa” nos faz crer…

    Abraço,

  4. 4 jorge Quarta-feira, 19 / Novembro / 2008 às 2:36 pm

    Acrescentaria aí as reportagens do The Guardian também, que sempre sao bem elucidativas.

    Como de costume, vou parafrasear Frank Zappa: “Jornalismo não morreu, apenas está cheirando esquisito…” (originalmente, Zappa referia-se ao jazz).


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