Contrariando absurdamente a minha própria resolução de sexta-feira passada, eu resolvi perder meu tempo ontem a noite vendo o Roda Viva com o Gilmar Mendes. Não esperava muita coisa, principalmente por causa da bancada que haviam colocado para entrevistá-lo e da lamentável reação do ombudsman da TV Cultura acerca da manifestação contrária do público (o mesmo preferiu adotar a posição “vejam-primeiro-o-programa-pra-depois-criticarem-beleza-?”).
Enfim, o que me animou mesmo a ver o programa foram as bombásticas 25 perguntas enviadas, via ombudsman, pelo Idelber ao programa. De forma direta, apenas uma das perguntas foi feita, ainda que de forma pouco incisiva. A questão (nº 13 lá do Idelber): cadê as provas do suposto grampo da Abin? Resposta do supremo ministro: não cabe a ele provar a existência do grampo e fim de papo. E ninguém fala mais nisso.
Aliás, Gilmar Mendes pintou e bordou no programa. Muitos elogios (como os do Reinaldo Azevedo ao “louvar” o Judiciário nacional por este “preencher a lacuna” deixada pelo Executivo e Legislativo), algumas perguntas ridículas (Eliane Cantanhêde, se não me engano, mandou essa: “Não o deixa revoltado as denúncias de vendas de sentença no Judiciário?”) e um entrevistador bem camarada, Márcio Chaer. Aliás, este aí a gente não pode nem chamar de entrevistador: o cara ajudava mesmo o Gilmar Mendes nas respostas. Foi ridículo o momento no qual Márcio bradou contra os “exageros” da imprensa na cobertura de alguns casos e aí ele foi absurdamente infeliz no momento em que citou os exemplos do garoto morto no Rio por um policial e do promotor que mandou bala contra um rapaz em Bertioga há quatro anos atrás. Quase vomitei quando ele usou a palavra “romance” para se referir a tais casos.
Aliás, a máxima mais citada pelo supremo ministro durante o programa foi: “Judiciário no Estado de Direito serve pra julgar. Judiciário só serve pra condenar em regime stalinista ou nazista”. E “democratizou” o instituto do habeas corpus, ao dizer que o STF já o tinha concedido até para elementos do PCC.
Minha visão sobre o programa foi a seguinte: o representante do Estadão só faltou dormir. A Eliane Cantanhêde ainda deu umas alfinetadas, mas nada de muito incisivo. A Lílian Witte Fibe, idem (até porque, a priori, ela é apresentadora e não entrevistadora). Agora insuportáveis mesmo foram Reinaldo Azevedo e o supracitado Márcio Chaer. Até o ombudsman da TV Cultura não conseguiu ficar quieto com tamanha picaretice das duas figuras. Diz ele:
Reinaldo Azevedo e Márcio Chaer, na tentativa de instrumentalizar o programa diante de um tema tão delicado e de um personagem tão controvertido, conspiraram contra a qualidade e o equilíbrio jornalístico desta edição do Roda Viva, o que sugere uma cuidadosa reflexão da direção do programa sobre os critérios de seleção dos entrevistadores. No final das contas, no entanto, principalmente quando confrontados à qualidade das intervenções de Lillian Witte Fibe e de Eliane Cantanhêde, eles acabaram desmoralizando setores da sociedade que vêem com simpatia o ativismo e o atual protagonismo político e ideológico de Giilmar Mendes.”
Porém esta tal “qualidade” das intervenções de Witte Fibe e Cantanhêde inexistiu na minha opinião. E também custo a ver quais seriam os “setores da sociedade que vêem com simpatia o ativismo e o atual protagonismo” de GM. Aliás, mesmo depois de citar esta tentativa de instrumentalização por parte de metade dos entrevistadores, Ernesto Rodrigues (o tal ombudsman) encerra sua análise do programa com esta pérola:
O Roda Viva, portanto, não perdeu o rumo. Foi um programa interessante, pertinente e, considerada a ressalva à escolha infeliz de parte da bancada, fiel à sua tradição de debater e discutir as questões relevantes para a o cidadão telespectador de São Paulo e do Brasil.”
Digo o seguinte: o programa não foi interessante (assisti-o por pura curiosidade e também porque o CQC estava meio fraco ontem), acho que esta ressalva à escolha infeliz de parte da bancada já havia sido alertada por inúmeros internautas – é só ver o que o Idelber, por exemplo, escreveu – e que o programa perdeu o rumo, sim senhor. Ao permitir que uma figura tão controvertida e com tantas polêmicas quanto GM protagonizasse um programa que não trouxesse à tona questões importantes sobre sua pessoa, a TV Cultura prestou um desserviço ao país. E por que? Ora, pois teve a oportunidade de fazer o supremo ministro esclarecer tantas e tantas questões e não a fez (seja por incompetência ou por má-vontade) porque resolveu escolher uma bancada dócil, com dois elementos sabidamente a favor do supremo ministro (inclusive fica a questão: cadê o critério de escolha que permite que alguém do site Consultor Jurídico seja chamado?).
A gente já sabia que o programa ia ser ruim. Que a galera ia “trocar umas idéias” com o GM. Mas conseguiu ser mais vergonhoso do que eu pensava.
P.S.: que o Reinaldo Azevedo é odioso, isso vocês que lêem o Hermenauta há algum tempo já devem saber. Contudo, ao vivo ele consegue ser pior ainda. A defesa que ele fez da “classe” de jornalistas foi incrível. Incrivelmente patética.

André, dá uma olhada no vídeo dos bastidores (http://www.youtube.com/watch?v=DybXyxrQ554). A pessoa que fez as melhores perguntas ao Gilmar Mendes foi a jornalista que o entrevistava nos intervalos. Ela fez inclusive algumas daquelas perguntas que o Idelber sugeriu,porém,infelizmente, ela não teve tempo nem experiência -nem vontade,talvez- suficiente para apertá-lo.Mesmo assim ele ficou visivelmente irritado com algumas perguntas. Veja o vídeo até o fim e confira as barbaridades que o Caruso falou. Dá a impressão de que ele assistiu a outra entrevista!