O dia em que São Paulo parou

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Crédito: Tiago Brandão/AE

O Alexandre Inagaki (Pensar Enloquece) convocou a galera pra falar dos ataques do PCC à cidade de São Paulo em 2006. É difícil alguém que viva na cidade esquecer daquele fatídico episódio ocorrido há três anos atrás.

Atendendo ao pedido, escreverei aqui sobre a minha experiência. Nada de análises complexas, apenas uma curiosa história individual. Clique abaixo para continuar lendo.

Pois bem, acreditem ou não, eu quase não soube dos ataques do PCC por conta de uma circunstância bem curiosa. Na semana anterior aos ataques eu saí do meu emprego. Eu deveria estar na segunda-feira seguinte em Brasília, para iniciar um curso preparatório.

Os ataques do PCC começaram no sábado daquela semana, no dia 12. Nesse dia eu fiquei na correria de arrumar documentos, roupas, deixar as coisas em ordem por aqui, etc, etc. O dia foi tão cansativo que eu até dormi cedo. No domingo, 13, despedi-me da família e arrumei a mala (o curso duraria um bom tempo). Fui pro aeroporto por volta de 14h e lá fiquei lendo uma revista pra passar o tempo. Estava preocupadíssimo com o curso e principalmente com o que seria da minha vida (pô, eu tinha acabado de pedir demissão de um emprego bom!)

Cheguei em Brasília de noite (o avião atrasou pacas). Por absoluta falta de conhecimento, acabei me hospedando numa cidade satélite chamada Núcleo Bandeirante, num hotel bem porquinho. Quando disse ao zelador/limpador/atendente do hotel (chamarei-o de “faz tudo” daqui por diante) que eu era de São Paulo, ele me disse “Ê, paulista, a coisa tá feia!”, ao qual retruquei “É, não é fácil…”, sem ter a mínima idéia do porquê da “coisa estar feia”.

Comi um lanche numa padaria do lado do hotel e, cansado de tudo, fui dormir.

Na segunda-feira 14, enquanto tomava o café da manhã, o “faz-tudo” mandou um “Pô, a coisa tá complicada por lá…”, ao qual retruquei “É, não é fácil…”. O cara desistiu, por ora, de falar comigo.

Passei a segunda-feira inteira no curso, preocupado muito mais com o meu futuro do que com qualquer outra coisa. E no final do dia voltei ao hotel do Núcleo Bandeirante. Além do cansaço, estava visivelmente desconfortável com a temperatura quente e com o tempo seco de Brasília.

Cheguei ao hotel às 19h, comi algo, tomei banho e, depois de tudo isso, resolvi descer à recepção. O “faz-tudo” tava por lá, com uma cara bem assustada, como se quisesse saber algo de mim. Puxou então uma conversa.

- “Tudo bem com o senhor?”

- “Tudo na santa paz.”

- “Mesmo com tudo que está acontecendo?”

- “É, o mundo é assim mesmo. Um dia as coisas melhoram.”

- “Ô moço, os paulistas são tudo sangue frio mesmo ou o senhor que é assim? Como pode, o mundo se acabando por lá e o senhor aí na maior tranquilidade?”

Pensei logo que tudo estivesse “se acabando” por aqui por conta de alguma chuva.

- “Choveu muito hoje lá?”

- “Ô moço, a cidade inteira parou e o senhor falando de chuva. Vá ver o jornal, o tiro tá comendo solto lá.”

- “É, a violência é alta mesmo. Já estamos acostumados.”

- “Valha-me Deus, o senhor só pode ter sangue de barata! Como pode ver isso aqui [apontou pra televisão que estava do seu lado] e ainda ficar assim no maior sossego?”

Foi então que eu vi um ônibus queimando e o William Bonner falando da rua, com um tom bem assustador. “Peraí, deve ter algo errado”, pensei. Subi ao meu quarto e fui ver o Jornal Nacional. Aí foi aquilo: desespero, correria, mortes, loucura, cidade sitiada, governador sem saber o que fazer. “Mas que diabo é isso que aconteceu com São Paulo?”

Como a TV às vezes é bem exagerada, resolvi ligar pros meus conhecidos pra saber o que aconteceu de verdade.

A namorada me disse que uma coisa inédita tinha ocorrido: às 16h, todos os prédios da Paulista mandaram os funcionários pra casa. Havia ameaça de ataques e alguma bomba explodiria em algum prédio ou até no metrô! Todo mundo saiu correndo, a avenida parou, os ônibus superlotaram… Nessa época, a minha namorada morava com o irmão num pequeno apartamento perto do Mackenzie. Bem, as aulas na universidade foram suspensas e ninguém se atreveu a sair de casa depois das 19h por lá.

Liguei então pra minha família. Minha mãe apavoradíssima com o caos da cidade e principalmente porque meu pai ainda não havia chegado em casa. Às 21h, nova ligação, com minha mãe mais tranquila porque meu pai acabara de chegar. “E aí, como foi o trajeto?”, perguntei a ele. “Tranquilo, filho. Nunca vi a Marginal tão vazia. Demorei quase nada pra chegar aqui”. “Pô, mas e o PCC?”. “Ah, filho, São Paulo é perigosa todo dia… Hoje o pessoal se assustou demais. Eu não vi nada no caminho. Foi tudo bem tranquilo…” (sorte dele que tenha sido tudo muito “tranquilo”).

Última chamada, esta para o amigo mais calmo que eu tinha no emprego do qual havia saído na semana anterior. “Ah, meu, o pessoal se apavorou, uma onda de pânico se instalou, mandaram a gente pra casa às 15h… Eu até gostei, mas quando parei num boteco pra tomar umas, passaram uns policiais no camburão e mandaram o boteco fechar. E eu tive de ir andando pra casa porque nenhum ônibus se atreveu a passar por ali… Cheguei agora pouco. E o pessoal tá meio desesperado por aqui”.

O que eu achei mais incrível disso tudo é que eu dificilmente viajo pra fora da cidade de São Paulo e numa dessas raras ocasiões, algo totalmente insano tinha ocorrido. Outra coisa irônica que vejo é o quão desinformado eu estava: o ataque durou três dias e eu só fui tomar consciência dele nas últimas 4 horas do último dia de ataque!

No dia seguinte, terça-feira 16, estou eu tomando café da manhã no hotel tranquilamente. O “faz-tudo” fala baixinho pra gerente (mas não tão baixinho assim pois eu escutei): “Deus me livre de morar em São Paulo. A cidade ontem tava pegando fogo e esse rapazinho aí não tava nem dando bola. Ô povo mais sangue de barata, sô!”. A gerente então retrucou: “Liga não, esse povo de São Paulo é meio abestalhado mesmo. Tudo pegando fogo e eles tão ali, como se nada tivesse acontecido!”.

Até parece.

2 Respostas para “O dia em que São Paulo parou”


  1. 1 He will be Bach Domingo, 17 / Maio / 2009 às 7:57 pm

    Hahahahaha, muito engraçada essa coincidência! “Esse povo de São Paulo é meio abestalhado”… Hahahaha!

    Minha reação não foi lá das mais intensas. Na verdade, minha chefe (eu ainda trabalhava no MPF) viu que eu desprezava tanto a situação que ela disse: “Se a doutura (chefe suprema) dispensar o pessoal, você VAI para casa! Nada de ficar aqui.”
    A bem da verdade, o meu medo não era que soltassem uma bomba lá (embora o Ministério Público fosse um bom alvo); eu temia que o PCC pudesse ter idéias malévolas ao ver a reação da população: porra, meia dúzia de delegacias são atacadas e 10 milhões de pessoas entram num pânico coletivo??

    Outra coisa que me impressionou foi a boataria. Ao longo do dia, ouvimos que pelo menos 4 faculdades e 8 bancos foram metralhados ou bombardeados. Banco tudo bem; mas faculdade??

    Ao voltar para casa, dada a falta de ônibus, percorri a Avenida Sumaré inteira, desde o metrô, e fiquei impressionado com a fila de carros: ela estava INTEIRAMENTE parada! Realmente… esse pânico, tão intenso e tão facilmente disparado, é que é assustador.

  2. 2 André Domingo, 17 / Maio / 2009 às 8:33 pm

    Esse negócio do pânico foi incrível mesmo. Acho até que o Christopher Nolan (diretor do “Batman – Cavaleiro das Trevas”) se inspirou nesses ataques do PCC pra fazer o Coringa tocar o terror em Gotham City :)


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