É assim que se trata a educação por aqui

escolassaopaulo

Charge de Cláudio de Oliveira – Jornal Agora São Paulo, 19.5.2009

Pra você que não sabe do que se trata a charge acima, clique abaixo para entender o ocorrido.

Direto da Folha Online:

SP distribui a escolas livro com palavrões

Livros contendo expressões como “chupa rola”, “cu” e “chupava ela todinha” foram distribuídos pela Secretaria Estadual da Educação de São Paulo como material de apoio a alunos da terceira série do ensino fundamental (faixa etária de nove anos), segundo reportagem publicada na edição desta terça-feira (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal) assinada pelo jornalista Fábio Takahashi.

O texto informa que o governo José Serra (PSDB) reconheceu o erro na distribuição dos 1.216 exemplares e determinou o recolhimento das obras.(…)

Da edição impressa do jornal Agora São Paulo:

Estado dá livro com palavrão para aluno de 9 anos

O livro é “Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol”. Organizado por Orlando Pedroso, fala de sexo e futebol e foi comprado pelo governo José Serra (PSDB) para uso na rede. Mas a obra causou indignação entre os educadores.

Em uma das 11 histórias em quadrinhos, há a ilustração de um jogador enfiando o dedo no ânus de outro, dando a entender que ele é homossexual. Também há desenhos de homens segurando seus órgãos genitais e de mulheres praticamente nuas na praia.

O conteúdo sexual é reforçado pelos diálogos. Um personagem diz: “Eu vi as coxa das mina do Tchan” (sic). O outro responde: “Eu chupava elas todinha”.

Frases de duplo sentido, como “Pra visitar sua mãe tem que pagar entrada?”, permeiam parte das histórias.

(…) 

Especialistas ouvidos pelo Agora se mostraram perplexos com a indicação do livro para um programa de incentivo à alfabetização. “Uma coisa é ouvir o palavrão na rua. Outra é a escola endossar o palavrão. Oferecer um livro desse é dar a chancela de que isso é certo”, critica Vitor Paro, professor titular da Faculdade de Educação da USP. Para ele, a criança de nove anos não tem personalidade formada para essas informações. “É pornografia.”

Já a coordenadora do curso de psicopedagogia da PUC (Pontifícia Universidade Católica), Neide Noffs, aponta o apelo sexual vulgar e expressões contra a cidadania e valores que a escola deveria reforçar como principais problemas. “Não acredito que um educador tenha aprovado a compra desse material.

Hyrla Tucci, professora de história da educação da PUC, afirmou estar chocada. “Se eu estou assustada, imagine os pais quando virem o que era para ser lido por seus filhos.

Lembremos que em março deste ano, livros com “dois Paraguais” foram recolhidos pela Secretaria de Educação de São Paulo.

—————————————-

Apesar dos exemplares representarem 0,067% do total de livros distribuídos pela rede estadual de ensino de São Paulo (segundo dados da própria Secretaria da Educação), o caso acima relatado mostra alguma falta de critério para compra de livros didáticos e complementares. Alguém esperava que o livro “Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol” fosse indicado para uma criança de 9 anos? Se o livro fosse minimamente folheado, qualquer idiota perceberia a inadequação do material para estudantes da 3ª série. O próprio Caco Galhardo, autor da história mais criticada do livro, disse isso na Folha de hoje. Vejam abaixo:

FOLHA – A sua história era para crianças de nove anos?
CACO GALHARDO
– Imagina. É uma HQ [história em quadrinhos] justamente para não ir para escola. Há um movimento de se colocar quadrinhos nas aulas, porque é uma linguagem acessível para a molecada. Fiz uma adaptação do Dom Quixote que foi para várias escolas. Mas os caras têm de ter critério para ver qual quadrinho colocar. Nessa eu tirei sarro de uma mesa-redonda.

FOLHA – Sabe como foi parar nas escolas?
GALHARDO
– O cara que escolheu não leu o livro.

Este caso e o do livro dos “dois Paraguais” só foram pegos porque são erros gritantes. Agora imaginem a seguinte situação: um livro qualquer, sem nenhum erro gramatical ou de conteúdo. Esse livro, a priori, terá o “de acordo” para circular livremente nas escolas estaduais. Contudo, quem garante que este livro sem erros não está sendo utilizado por crianças de idade errada (exemplo, um livro de 6ª série sendo distribuído para crianças da 3ª série)? Quem garante que os professores sabem como trabalhar em sala este livro sem erros?

Não estou dizendo que o negócio é totalmente sem critério ou que os livros não são verificados pela Secretaria de Educação. Mas é que ao vermos erros como os relatados no início deste post, a gente crê que muitos outros problemas não aparecem, principalmente àqueles relacionados aos métodos pedagógicos em sala de aula. Se livros com “dois Paraguais” e com linguagem inadequada passam pelo crivo da Secretaria de Educação, como garantiar que problemas menos graves não estejam ocorrendo? Ou então que coisas não tão tangíveis (como, por exemplo, didática de ensino) estejam funcionando de modo adequado?

É, já sei. Não temos como garantiar. Aliás, temos sim. Temos a garantia de termos uma educação pública de merda no Estado de São Paulo (ei muleque de 9 anos! Fora daqui! Este blog não é o livro com sacanagem que você recebeu na semana passada! Xô, se manda, vai dormir!)

P.S.: Faz 13 anos que eu conclui o ensino fundamental em escola pública do Estado. Se em 1996 a coisa já era ruim, com tudo que eu leio diariamente, a percepção é a de que a coisa piora dia após dia. O poço simplesmente não parece ter fundo.

3 Respostas para “É assim que se trata a educação por aqui”


  1. 1 He will be Bach Terça-feira, 19 / Maio / 2009 às 10:38 pm

    Dr. ABC,

    Entrei na Federal em 2001, e na ETESP, em 2002, tendo estudado em ambas até 2003. Melhores colégios públicos do Estado, disparado. Mesmo assim, a ETESP já estava na LAMA, e, analogamente, as outras ETEs mais embaixo ainda – imagine as outras… A Federal ainda estava segurando muito bem, até heroicamente, mas era claro que não ia durar muito. Tanto que, já em 2005, quando contatei alguns (excelentes) antigos professores, eles reclamaram que a coisa estava degringolando depressa.

    Se o PSDB tem como mérito a ala de deficientes físicos, que é muito atuante e produtiva, tem como ENORME demérito a educação. Os já-perdi-a-conta-de-quantos anos de PSDB aqui no Estado sucatearam tudo de uma forma inaceitável, em termos de estrutura, remuneração, segurança, atualização, atenção etc. Você viu a entrevista do diretor do “melhor” colégio público estadual, que mesmo assim conseguiu míseros 50 e tantos pontos no ENEM? Ele disse que conseguiu manter o nível de seu colégio “apesar” do governo.

    Em escala nacional, o que tivemos das mãos dos tucanos foi uma questionável “democratização” do ensino superior, mediante carta branca à proliferação das faculdades caça-níqueis, para maquiar nossos indicadores educacionais. Junte a isto a descarada propaganda que o Aprendiz faz da UNIP e pronto – massas de pessoas iludidas “estudando” naquela coisa, sinceramente acreditando que estão se aprimorando.

    Chega a ser ridículo olhar no metrô e ver aquelas “pós-graduações executivas de 6 meses”, ou “MBA na Uninove”. É uma baita de uma ineficiência: o sujeito perde dinheiro; não se qualifica; e tampouco a empresa, que talvez até tenha dispensado o cara para qualificação, não recebe aprimoramento de sua mão-de-obra.

    Agora, retomando o ensino básico, eu sempre acreditei que esse fosse um dos fatores determinantes, entre outras coisas, da enorme lentidão na Justiça.
    “O quê?”
    Sim, isso mesmo! Claro que tem o excesso de litigiosidade, a letárgica mentalidade burocrática, a falta de equipamentos e de infra-estrutura etc., mas tem outra coisa: falta juiz. Falta promotor. E por que sobram tantas vagas? Num país onde o analfabetismo funcional assola, nada mais esperado: na própria São Francisco eu já vi montes de calouros que, apesar de terem passado no vestibular e tudo o mais, eram semi-analfabetos funcionais. Eu mal acreditei quando tive de dizer, para várias turmas, coisas básicas como “Se você não entendeu um texto na primeira leitura, leia de novo; repita o procedimento até entender.”

    Entretanto, sou pessimista. Duvido de que o PSDB, representado pelo Serra, um dia venha a dar a mínima para a educação – pelo simples motivo de que não interessa ter gente qualificada emergindo da pobreza em direção às universidades públicas. Curiosa postura para um partido que se gaba de ter “muito cacique e pouco índio”. Caminhamos para um buraco negro.

    Mas, bem, como dizia o Machadão: Até lá, riamos!

    Abraço pessimista!

    • 2 André Quarta-feira, 20 / Maio / 2009 às 10:12 pm

      HWBB,
      concordo com tudo que você disse. Destaco principalmente a questão da educação no estado de São Paulo. As pessoas podem dizer que um governo que fica 4 anos (vá lá, até 8 anos no poder) às vezes não faz tudo que consegue por diversos motivos. O principal: pegar uma administração gerida anteriormente por um “arrasa quarteirões” – caso do Covas aqui em São Paulo, assumindo após a dupla Quércia/Fleury. Mas o PSDB já está há 15 anos no poder aqui em São Paulo. Em 15 anos, você consegue fazer muuuuuuita coisa, inclusive implantar o sistema de gestão que deseja. E se a educação em São Paulo só piorou nos últimos anos – e isto é medido tanto quali quanto quantitativamente -, isto mostra que o PSDB é incapaz de lidar com esta questão.
      Sei que não acharei as respostas para um problema tão complexo numa resposta de comentário, mas seja pela experiência que tive estudando em escola estadual da administração do PSDB, seja pelas minhas irmãs que estudaram em escola estadual da administração do PSDB, seja pela molecada que eu conheço que estuda em escola administrada pelo PSDB, este partido é incapaz de prover uma educação de qualidade ao maior estado da federação. E olha que eles provavelmente ficarão mais 4 anos no poder.
      Cobre-me em 2014 o que eu vou dizer agora: com 20 anos de administração em São Paulo, a educação continuará piorando nas mãos dos tucanos.


  1. 1 Vortemo maiomenos | Na Prática a Teoria é Outra Trackback em Sexta-Feira, 22 / Maio / 2009 às 12:15 am

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