Tudo bem, eu já qualifiquei a entrevista no próprio título do post. Mas, pra amenizar um pouco as coisas, coloco a capa da Rolling Stone de maio aí ao lado. Preferia falar da Fernanda Machado, mas infelizmente este blog não é coluna social. Então tenho que falar da entrevista do FHC na revista que tem a dona aí do lado na capa. A entrevista foi ruim, mas a esperteza dos editores da revista não: tivessem eles colocado o FHC, a revista não teria vendido 10 exemplares.
À entrevista, ora pois.
A primeira coisa que me chateou foi a chamada na capa da revista. Lá aparece o seguinte: Entrevista FHC: “Não se pode dizer não a Gilmar Mendes”. O leitor é induzido a pensar o porquê de não se poder dizer “não” a Gilmar Mendes, ou seja, espera praticamente uma confissão de FHC sobre o poder do homem. Porém, vejam em que contexto aparece o “não se pode dizer não a Gilmar Mendes”:
José Roberto Maluf – O que foi fazer em Brasília?
FHC – Fui a Brasília porque o Gilmar Mendes, presidente do Supremo, que é uma de pessoa de quem gosto – e que foi advogado geral da União no meu tempo, que nomeei para o Supremo – me telefonou e disse: “Tem uma escola de pós-graduação em direito público”, e me perguntou se eu não podia dar uma aula inaugural nesse curso. Não se pode dizer não ao Gilmar, então fui para Brasília.”
Ou seja, contextualizando a chamada de capa da revista, vê-se que a expectativa gerada por ela está a anos-luz do que FHC realmente disse. Vá lá, essa até passa. Vamos dizer que foi apenas um subterfúgio para fazer curiosos como eu comprarem a revista e lerem de verdade a entrevista. Adiante.
Pra não dizer que a entrevista foi de tudo ruim, o começo até que foi legal, quando o FHC fala da questão da legalização das drogas e do combate desenfreado ao narcotráfico. Quando o foco mudou para a política, aí a coisa começou a descambar.
Primeiro tema: sucessão presidencial. FHC é instado a dar sua opinião sobre a preferência que tem para a candidatura à presidência. O ex-presidente fica em cima do muro, é óbvio. Aécio ou Serra, qualquer um dos dois é bom pra governar o país. Só que o candidato tem que ser aquele com mais chances de ganhar. Talvez coubesse uma pergunta no estilo “Então vocês já definiram que o candidato será o Serra?”, mas os entrevistadores perderam essa.
Aliás, a entrevista foi feita por José Roberto Maluf e Ricardo Franca Cruz. Antes de continuar a descer a lenha na revista, quero falar um pouco do primeiro entrevistador (vocês já entenderão porquê). Fazendo uma busca simples no Google pelo nome dele, li esta entrevista de 2002 (quando Maluf era vice-presidente do SBT) e descobri também que ele fundou a Spring Publicações, que edita a Rolling Stone.
Folheando a revista, busquei pelo cargo dele. Bem, ele é o publisher da RS. Em outras palavras, o manda-chuva por lá.
Voltemos à entrevista. Falei um pouco do José Roberto Maluf porque ele fez algumas perguntas com juízo de valor, quase algumas “levantadas” para posteriores “cortadas” do FHC. Senão, vejamos (grifos meus):
JRM – Com a atuação de caráter assistencial e populista do atual governo, com o Bolsa Família, é possível carregar a Dilma como candidata? Um governo populista em tempo de crise tem sucesso?
FHC obviamente responde que não dá pra ser populista em épocas de crise e enfatiza que os programas sociais atuais vêm da sua gestão ou do governo Itamar (caso do Bolsa Gás).
JRM pergunta sobre o crescimento de Dilma nas pesquisas e Ricardo Franca Cruz pergunta se o Brasil elegeria uma mulher presidente. Tolas perguntas, tolas respostas.
JRM – O PT fez uma oposição furiosa ao seu governo. Mas na hora de o PSDB ser oposição o seu partido não quer ou não sabe fazê-la. Por quê?
FHC responde que não concorda com os métodos do PT, fala da continuidade do governo Lula e, ao final, diz que “A diferença [entre o seu governo e o de Lula] é na questão da democracia, de como se lida com o Estado, com o governo, o aparelhamento do governo pelo partido, ou pelos partidos e, como consequência, um afrouxamento nas condições de credibilidade ou de moral. Aumentou muito, não é que aumentou o grau de corrupção, é díficil saber, mas se difundiu”.
JRM – A corrupção tomou conta do noticiário.
FHC então deita e rola. Sua segunda frase é a seguinte: “Lula é leniente. Ele vai e diz: “não é nada”. Ele passa a mão na cabeça de todos que são acusados de corrupção. E isso tem um efeito de demonstração negativo para o país” (…)
JRM – Mas em compensação ele teve um momento muito ruim quando foi divulgado o problema do mensalão. No fim ele falou que não sabia de nada, e o PSDB ficou apreciando a situação.
FHC: “Aí houve um cálculo político”.
JRM – A pergunta é: houve algum acordo?
FHC tece uma série de considerações para dizer que não houve acordo. Disse que o impeachment é político e que o PSDB estudou a situação e viu que o “custo para o Brasil tirar pela via do impeachment um homem que é líder popular, trabalhador, seria muito alto, pensando historicamente. A responsabilidade de certos líderes é de preservar certos valores (…)”.
Não escrevi todas as respostas do FHC porque não tenho saco de ficar escrevendo um monte de blá-blá-blá. Mas acreditem que o cerne do que ele disse taí acima. E o ponto não é nem esse: a sequência de perguntas acima ocupa 3 colunas de um total de 9 na entrevista. 1/3 foi só isso: perguntas pro FHC deitar e rolar em cima do governo Lula, inclusive pra colocar o PSDB como o salvador da pátria (quando diz que o impeachment do Lula não foi pra frente por conta do “cálculo político” feito pelo partido). E o pior: sem maiores considerações sobre problemas que poderiam ter existido tanto lá quanto cá (o exemplo mais claro é o da corrupção).
Este 1/3 de entrevista do Maluf levou-me à duas conclusões: ou o cara não sabe entrevistar ou então ele simpatiza com FHC de uma maneira impressionante. E não aceito a desculpa de que não se pode ser deselegante com alguém que já ocupou o cargo de presidente do Brasil. Dá pra colocar o cara na parede com a maior educação possível e imaginável.
Bem, a entrevista teve o 1/3 inicial que foi até legal. Teve este segundo terço descrito acima que foi horroroso. E o último terço se iniciou com uma pergunta do Ricardo Franca Cruz (editor-chefe da RS).
Bem, daí pra frente, avaliem vocês mesmos a profundidade dos questionamentos feitos:
RFC – Fala-se que o poder é inebriante. É verdade?
RFC – Seu dinheiro hoje não é fruto da política?
JRM – [Ao deixar o cargo de presidente] Não entrou em depressão?
RFC – O senhor sempre afirma que nunca foi um político profissional.
RFC – O senhor acredita nas engrenagens da política brasileira, nas boas intenções de quem a faz?
JRM – O pior da crise econômica já passou?
JRM – O que o senhor das providências que o governo está tomando?
JRM – A redução dos juros ajuda na recessão?
Não preciso nem dizer que FHC passeou, flanou e filosofou até dizer chega neste terço final.
Ao final, uma nota dos entrevistadores: “Apesar da insistência e do desejo do presidente em nos rever, não houve uma segunda entrevista. FHC teria compromissos inadiáveis nas semanas seguintes. Viagens pelo mundo, obviamente“.
Esta nota resume um pouco o “espírito” da entrevista: FHC é uma pessoa importante para o mundo, um estadista mesmo sem ser presidente; além disso, vive uma vida atarefada de ex-professor universitário e ex-presidente, auferindo dinheiro de suas palestras e, com tais recursos, vive como um ser qualquer da classe média (este último trecho vem das respostas dada pelo presidente durante a entrevista).
Eu não sei o que acontece com os entrevistadores brasileiros quando vêem FHC cara a cara. É elogio pra cá, seda rasgada pra lá, FHC falando do que quer e quando quer… Será que não dá pra perguntar da aprovação da emenda da reeleição? Do critério utilizado para indicar Gilmar Mendes ao STF? Das privatizações? Do endividamento público alto? Do apagão elétrico? Da política cambial?
Se quiserem fazer uma entrevista light com o ex-presidente, tudo bem, não vejo problema. Agora, fazer como a RS é que não dá. Primeiro, coisas genéricas sobre as atividades atuais do FHC. Depois, momento “malhação do Lula em praça pública”. E por último, amenidades. Ou se parte para uma entrevista a la Amaury Jr. ou se faz uma entrevista séria, perguntando sobre os temas espinhosos expostos no parágrafo anterior. Fazer uma entrevista dando pano pra manga pro FHC acabar com o governo Lula, sem um posterior questionamento do governo dele, aí já é demais pra mim.
Enfim, uma entrevista muito ruim. E feita por duas das principais cabeças por trás da revista, o que só piora as coisas.

Não li a entrevista… mas pelo que pude ver aqui…
Parece que todos se acovardam, né? Parece que ele é a última pepsi quente do deserto.
É isso aí, Má. O pessoal se acovarda mesmo. Até dei o benefício da dúvida uma época atrás, pensando que talvez o pessoal fosse mais respeitoso por conta do cargo ocupado por FHC. Mas com o Lula o pessoal não tem esse respeito todo não; aliás, nem com o Sarney.
Sei lá, parece que o pessoal tem medo de espizinhar o FHC. Ou porque não querem de verdade ou porque se sentem constrangidos de fazê-lo.
André,
Esses dois podem até não saber entrevistar,mas sabem levantar bolas como ninguém…
Ha um belo video de uma entrevista do FHC na tv inglesa. O pessoalzinho da RS poderia assistir ao video antes de conversar com o homem.
Li a entrevista toda. Um puxa-saquismo sem tamanho. FHC deve ser mesmo um cara muito legal pessoalmente pra puxarem tanto o saco dele.
Faz várias asserções sobre drogas sem citar fatos. Mas não precisa né? FHC é autoridade em tudo que fala e pensa, não é mesmo?