15 anos de Plano Real

1realPara iniciar este texto, uma citação daqui.

“Em 1992, apenas quatro países em todo mundo tiveram inflação superior a 1.000% – Rússia, Ucrânia, Zaire e Brasil. Este é o cenário da economia brasileira antes do Plano Real e o principal motivo que levou a equipe econômica do presidente Itamar Franco a apresentar mais uma tentativa de reorganizar a política fiscal e monetária do País. Em 1º de julho de 2009 o Plano Real comemora 15 anos de sua moeda e o fato de ter alcançado seu principal objetivo. Nestes últimos 15 anos, a inflação acumulada no Brasil foi de 244%, ou 9% dos 2.477% registrados apenas no ano de 1993.”

Só para termos uma idéia, a inflação acumulada nos 14 anos e meio anteriores ao Plano Real foi de 11.252.275.628.119% (IPCA/IBGE). Ou seja, é impossível não falar deste importante e exitoso plano de estabilização, o qual completará 15 anos amanhã.

Como acredito que vou me alongar um pouco na discussão, se você quiser continuar a ler o texto, clique no link abaixo. E acreditem que eu farei de tudo para que o texto não seja voltado exclusivamente para economistas.

A primeira coisa interessante acerca do Plano Real foi a maneira de desindexação ocorrida na economia para debelar a inflação. Já já me explico. Antes, imaginem o seguinte: numa situação de alta inflação, a confiança na moeda se perde e todo mundo – industriais, rentistas, trabalhadores – deseja atrelar seu ganho ao que acha que perdeu, ou seja, a inflação passada. Como esta é alta, cria-se uma “memória inflacionária”, difícil de ser exterminada justamente porque todos não querem perder seu perder de compra.

Os outros 4 planos de estabilização anteriores ao Real – Cruzado, Bresser, Verão e Collor – foram, se assim podemos dizer, planos de “desindexação de gabinete”. Trabalharam, grosso modo, com o congelamento dos preços e, como sabemos, todos fracassaram na tentativa de eliminar a inflação. Cada um teve problemas específicos e se eu começar a falar deles, terei que fazer praticamente um tratado, obviamente o que não é objetivo deste post.

O interessante do Plano Real foi justamente buscar a desindexação por uma “indexação total” dos preços da economia. Já chegaremos lá. Antes, precisamos de uma pequena explicação. A moeda tem três funções, por assim dizer, clássicas: servir de meio de pagamento, de unidade de conta e de reserva de valor. O que o governo fez com o Cruzeiro Real (a moeda anterior ao Real) foi o seguinte: olha, durante um tempo as pessoas usarão isso aí como meio de pagamento, mas os preços serão estabelecidos numa outra unidade, a chamada URV. Ou seja, pagava-se em Cruzeiro Real mas a unidade de conta era o URV. A cada dia ele variava um pouquinho e todo mundo fazia seus recebimentos com base nele.

Um exemplo que ficou claro pra mim, praticamente um muleque na época: eu ia na banca comprar um gibi. O preço do mesmo era de 3 URVs. O jornaleiro olhava quanto valia cada URV naquele dia e me dizia quantos cruzeiros reais eu deveria lhe pagar.

Pô, mas ninguém poderia viver assim pra sempre. Uma hora ou outra, a galera ia ficar de saco cheio de tanto converter URV pra cruzeiro real. Ora, mas este URV deveria durar como unidade de conta só até todos os preços serem expressos nesta unidade.

Aí vocês me perguntam: tudo foi expresso em URV em determinado momento mas esse troço não virou a nossa moeda do dia-a-dia. Aonde você quer chegar, André?

Exatamente no ponto da “indexação total”. O governo meio que chegou para todos e disse: “Todo mundo falando a mesma língua? Todo mundo fazendo conta em URV?”. Quando todos disseram sim, o governo mostrou o truque por trás da tal URV: ela estava atrelada ao dólar, quase que numa paridade de um pra um. Ou seja, acabou-se com a “memória inflacionária” justamente quando todo mundo começou a fazer suas contas num troço que estava amarrado a um outro troço – o dólar – cuja variação era mínima.

A partir do momento em que todos falavam a mesma língua, foi fácil: 1 URV passou a valer 1 real. Como aquela era a unidade de conta, a nova moeda ficou com todas as suas funções clássicas, dado que também era utilizada como meio de pagamento. E o governo ainda expressou que a nova moeda manteria mais ou menos a paridade com o dólar, uma forte moeda. Reestabelecia-se assim a característica fiduciária da moeda nacional.

Trocando em miúdos: desindexou-se a economia a partir do momento em que ela foi indexada a algo forte, com pequena variação. Um aparente paradoxo, porém muito engenhoso e que, na prática, funcionou.

Lógico que o leitor não-economista deve estar se perguntando: “se era algo até meio simples de fazer, por que não fizeram antes?” Bem, essa é uma pergunta bem cabeluda mas eu tentarei responder. As condições econômicas presentes em 1994 eram ímpares e permitiam a existência de uma âncora cambial, o que não podia ocorrer nos momentos dos outros planos de estabilização. Destaco aqui dois pontos que tornaram possível a indexação ao dólar: o fim da renegociação da dívida externa brasileira (1993) e as altas reservas de dólares acumuladas ao longo da gestão de Marcílio Marques Moreira à frente do Ministério da Fazenda (esse cara foi o segundo ministro da pasta no governo Collor). Sem tais condições, teria sido impossível uma saída idêntica à encontrada no bojo do Plano Real.

O fim da renegociação foi importante porque, sem ela, ninguém entraria com dólares aqui, seja lá pro quer que fosse. Quanto às altas reservas, foram exatamente elas que permitiram que o governo estabelecesse a paridade com o dólar, independente do que ocorresse – o chamado câmbio fixo. Numa situação de fuga de capitais, o governo, com suas altas reservas internacionais, poderia manter a cotação fixa através da venda de dólares. Ficaria mantida a âncora – aquilo que permite que o nível geral de preços seja determinado – do Real (no caso, a taxa de câmbio).

E foi assim que estabelecemos a moeda que completará 15 anos amanhã. O Plano Real posteriormente apresentou alguns problemas, principalmente no que se refere à política de juros altos que ocasionava excessiva valorização (artificial) da moeda – o que estorou pra valer em 1999. Mas é inegável que em sua primeira parte, ou seja, a de estabilizar a economia, ele teve muito sucesso: eliminar a hiperinflação assim, quase que de uma vez, num país que convivia há um razoável tempo com ela, não é uma tarefa trivial. É por isso que devemos dar os parabéns ao presidente da época, Itamar Franco, ao Ministro da Fazenda, FHC, e aos economistas responsáveis pela formulação do plano - basicamente Persio Arida, André Lara Rezende, Gustavo Franco, Pedro Malan e Edmar Bacha.

Além disso, devemos ter em mente o caos que havia antes do Plano. Eu não vivi monetariamente aquela época – quando o Plano Real foi lançado, eu tinha 12 anos -, mas as histórias que ouço parecem “causos” de pescador. A que mais me chama a atenção é aquela relativa a uma moeda que no papel valia alguns milhões mas que em poder de compra não trazia 10kg de arroz do supermercado.

Enfim, o objetivo deste post foi trazer um pouco de história econômica sobre a nossa moeda, comemorando, assim, os 15 anos de existência dela. Espero que a engenharia envolvida no plano tenha ficado clara para todos, pois ela foi um daquelas coisas que deram muito certo no país. Aliás, um país que viveu alguns meses numa certa normalidade econômica com um troço contra-intuitivo pra caramba como a URV é um país que, convenhamos, tem um grande potencial pra dar certo.

P.S.: numa viagem que fiz à Argentina, fui a uma casa de câmbio que tinha moedas antigas de países latino-americanas expostas nas paredes. Vi as notas das moedas brasileiras anteriores ao Real e elas traziam figuras históricas – algumas bem antigas, como Dom Pedro I, outras bem recentes, como Anísio Teixeira e Câmara Cascudo. Diz aí se não é fascinante as notas do real serem despersonalizadas? Ali tá o símbolo da república e pronto. Nada de figura histórica, apenas uma moeda da nação. Sei lá, é impressão besta minha mas eu me amarro nesse detalhe.


9 Respostas para “15 anos de Plano Real”


  1. 1 João Villaverde Quarta-feira, 1 / Julho / 2009 às 12:40 am

    Bom texto, André, bom vê-lo de volta das férias.

    O Real teve uma importância crucial, que foi debelar a inflação (de maneira espantosamente rápida) por meio de uma ideia genial, que foi a implantação da URV em março, para ensinar a apaziguar e preparar o terreno para a moeda, a monetização da URV, em 1º de julho.

    Você chamou a atenção para um erro grave: a apreciação cambial, que foi levada às últimas consequências pela equipe ao longo de quatro anos e meio (jul.94-jan.99). Mas uma consequência mais profunda não pode ser deixada de lado: a explosão da dívida pública brasileira.

    Quando lançaram o Real, a equipe de economistas do Plano (Bacha, Persio Arida, André Lara Resende, Gustavo Franco, Chico Lopes, Clovis Carvalho e Pedro Malan) previa que, apenas com a remonetização da economia já seria possível cortar o endividamento público (que, à época, era menos problemático, a questão maior era a dívida externa). Não deu certo. Nos primeiros três meses (jul-out/1994) a dívida mobiliária interna tinha sido abatida em apenas R$ 6 bilhões: em julho, quando da partida do Real, a dívida total era de R$ 73,455 bilhões. Pulou para R$ 530 bilhões em 2001, para R$ 655 bilhões em 2002 e chegou a R$ 730 bilhões em 2003.

    Tudo isso remunerado à juros absurdos (chegando a bater nos 45% ao ano em 1999).

    De um certo modo, numa análise generalista, o Real foi muito mais longe do que se propunha, inicialmente: não apenas acabou com a inflação, mas estabeleceu um modo de fazer política econômica no Brasil. Este modelo, indenpendentemente de ser bom ou ruim, não foi alterado. Permanece o mesmo sob Itamar, FHC e Lula.

    Um abraço, André

    • 2 André Quarta-feira, 1 / Julho / 2009 às 8:38 am

      João, sempre é bom ter comentários inteligentes como o seu por aqui. Como diz o Celso (NPTO), um blog começa a ficar bom de verdade quando o nível dos comentários se eleva bastante.
      Bem, tenho de admitir-lhe o seguinte: este post demorou pra eu escrever por um simples motivo. Ele simplesmente não tinha fim. A idéia inicial era falar da implantação do Plano Real; quando menos vi, eu estava falando do câmbio valorizado, da dívida pública, da quebra de 1999… até que eu parei tudo e editei pra deixar algo bem pontual, tratando mesmo do momento inicial do Plano, do término da hiperinflação. Além disso, busquei relembrar os acontecimentos daqueles dias.
      Contudo, já que você tratou do tema, eu tenho a dizer o seguinte: considero o governo FHC II razoável e o I não. Quando falo disso, é justamente por conta não só do “populismo” cambial que ocorreu mas também da trajetória explosiva da dívida pública em FHC I, mesmo com a venda de um monte de empresas que pertenciam ao governo. O segundo governo do FHC, até por conta das cirscunstâncias, fez uma correção de rumo no Plano Real que, ao meu ver, foi bastante interessante: tornou o câmbio flutuante e estabeleceu um regime de metas de inflação, além de ter estabelecido a Lei de Responsabilidade Fiscal. Acho que essa correção no Plano – se assim podemos chamar, dado que ocorreu em 1999 – é que eu acho que é trazida até hoje e, queiramos ou não, é minimamente salutar ao país.
      Só pra complementar, especificamente para a dívida pública, o governo Lula fez algo muito bom: acabou com a indexação dela ao câmbio e diminuiu significativamente a parcela atrelada à taxa Selic. A dívida hoje está mais longa, pré-fixada e o governo consegue trabalhá-la melhor. Mas, óbvio, isto é tema de discussão pra um post mais detalhado.

      Abraço,

  2. 3 He will be Bach Quarta-feira, 1 / Julho / 2009 às 9:11 am

    “Aliás, um país que viveu alguns meses numa certa normalidade econômica com um troço contra-intuitivo pra caramba como a URV…”

    Muito bom você ter destacado esse ponto, dr. Eu nunca tinha me tocado disso.

    Sobre os juros: de fato, eu lembro vagamente dos 40 e muitos por cento de juros. Inclusive, uma coisa com que eu muito me assustaria se eu já me entendesse por gente na época, é que essa taxa de juros era tão alta, mas tão alta, que podia muito bem causar (e até causou) o efeito reverso: fuga de capitais. Basta lembrar: remuneração alta, risco alto. Remuneração absurda, risco absurdo!

    Não sei como o Brasil não virou um América de Natal naquela época. Suponho que isso seja assunto para um novo post?

    Aliás, dando um feedback, isso aqui está muito bom para não economistas, embora alguns pontos eu não tenha entendido. Mas tudo bem: acho que para explicar essa joça para qualquer leitor da Veja entender, só o NPTO mesmo. A “tradução brasileira” que ele fez das eleições americanas (estrelando Zé Eduardo Cardoso coomo John McCain) foi supimpa!

  3. 5 brandizzi Quarta-feira, 1 / Julho / 2009 às 11:43 am

    Seu post é explêndido: claro e consistente. Meus parabéns!

  4. 7 Bruno Quarta-feira, 1 / Julho / 2009 às 8:04 pm

    Persio Arida sem acento. ;-)

    Excelente texto! Me ajudou pacas a entender essa parada de URV. As pessoas sempre explicam vagamente ou a URV ou o pareamento com o dólar, mas eu nunca soube o que uma coisa tinha a ver com a outra, ou por que isso tudo era tão genial. Valeu! :-D


  1. 1 Plano Real, 15 anos | Na Prática a Teoria é Outra Trackback em Quarta-feira, 1 / Julho / 2009 às 11:02 am

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