Da série “eu não acredito, mas isto acontece na minha cidade” (direto do G1):
Vale que substitui esmola na Oscar Freire vira motivo de polêmica
Lojistas da Rua Oscar Freire, nos Jardins, criaram um vale para substituir a esmola na região. Batizado de “vale valor”, a iniciativa se tornou uma proposta polêmica para retirar da Oscar Freire moradores de rua e pedintes.
“Não que eles nos incomodem, mas o fato de existir uma situação dessas incomoda as pessoas, e dar esmola não resolve nenhuma situação”, diz Rosângela Lyra, presidente da Associação de Lojistas da Oscar Freire.
No lugar da esmola, os clientes distribuem um cupom que ganham das lojas. O “vale valor” da Associação de Lojistas da Oscar Freire é para ser usado muito longe dos Jardins, a mais ou menos 15 quilômetros de distância. O endereço é rua Monsenhor Hora, 356 RUA MONSENHOR ANDRADE, 746, no Brás, na região central de São Paulo.
No local, funciona a Casa Restaura-me, uma organização não-governamental de apoio a moradores de rua que recebe até 400 pessoas por dia. Mas só 50 podem dormir na casa.
Desde que foi feito o acordo com os lojistas da Oscar Freire, ainda não apareceu ninguém no local com o “vale valor”. “Para esse morador de rua deixar a região dos Jardins, onde circulam pessoas de alto poder aquisitivo, para vir para o Brás, isso é um trabalho que pode demandar tempo”, diz Cássio Giorgetti, diretor da instituição.
A socióloga Mônica Carvalho reforça que os pedintes sempre vão estar onde circula mais dinheiro e acha que a ajuda dos lojistas é, na verdade, uma forma de expulsão.
“A expulsão dessas pessoas em situação de pobreza para o Brás é o que explicita o imaginário: o Brás é o lugar de pessoas em situação de pobreza, a Oscar Freire é o lugar das pessoas que têm uma condição de vida diferente, uma classe social diferente”.
A Associação dos Lojistas da Oscar Freire informou que o atendimento aos pedintes é feito em outro bairro porque nos Jardins não haveria nenhuma instituição voltada aos moradores de rua. [grifos meus]
Correndo o risco de não acrescentar muito ao que disse a socióloga Mônica Carvalho, lá vou eu dar minha modesta opinião.
A questão dos moradores de rua em São Paulo é altamente complexa. Já digo de antemão que aprecio (e muito) o trabalho de inúmeras assistentes sociais e ONGs que lidam diariamente com tal público. Falar em teoria é fácil, mas na prática a coisa é bem feia. Sei disso porque vivo num local em que o número de mendigos é alto. Já vi várias abordagens a eles e a coisa é, na maioria das vezes, tensa: muitos estão loucos, outros tantos drogados e a maioria ingere bebida alcóolica com frequência.
Eu mesmo quase levei um safanão duma moradora de rua um dia porque não “quis discar pro filho dela”; detalhe: o papel que ela me mostrou não tinha um número sequer de telefone. O safanão quase foi dado depois da minha singela pergunta “que número a senhora quer que eu disque?”
Ou seja, o assunto é espinhoso. Contudo, sem a menor sombra de dúvida, o pessoal da Oscar Freire (OF) quer é se livrar do problema, seja do jeito que for. Dar um “vale valor” que manda a pessoa pro Brás, além de ter sido ridículo, foi algo absurdamente ingênuo. Tanto é que nenhum morador de rua foi pra tal ONG. Mas o ponto não é esse e sim o fato de que a galera da OF não se sente parte da cidade, com tudo que faz parte dela.
Tudo bem que os moradores de rua podem ser por vezes incômodos, mas você resolve o problema social existente mandando-os pra outro lugar? Isso é que me incomodou, um pensamento meio “contanto que não haja problemas no meu quintal, eu quero é que se foda o resto da cidade”. Pelo amor de Deus, galera, raciocinem, achem soluções inteligentes, façam o poder econômico de vocês se transformar em poder intelectual pra tornar esta cidade melhor. Em outras palavras, não sejam ridículos.
Tá bom, sei que isso é pedir demais. Então eu bolei uma solução pra vocês: os lojistas da OF não gastaram uma fortuna pra reformar as calçadas e a fiação elétrica? Porra, peguem uma graninha (nem precisa ser muito não), façam uma parceria com a prefeitura e com quem mais for de direito e construam um albergue na região. Junto com o albergue, iniciem um programa de reabilitação social de tais moradores de rua – achem seus parentes, paguem programas de reabilitação para drogas e alcóolatras, etc, etc.
Isso sim seria um verdadeiro “vale valor”. Mas eu aposto com vocês que a galera lá da OF vai argumentar que já paga muitos impostos, portanto, o Estado que construa albergues e faça o que eu disse no parágrafo anterior…

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