Arquivo para Julho 29th, 2009

Não escuta que eu grampo

Comecei a ler a revista Piauí há poucos meses. Gostei muito da publicação, mas o que acho realmente hour concours por ali é a sessão “Esquina”: são pequenos “causos”, todos aparentemente verdadeiros e tão cômicos que não seria exagero colocá-los na esteira do realismo fantástico latino-americano.

No mês passado, um dos “causos” apresentados era o “Não escuta que eu grampo”. Por favor, leiam ele. Só como degustação, coloco o início aqui pra atiçar a curiosidade de vocês:

Na sexta-feira, 1º de maio, o ouvinte do Distrito Federal que sintonizou o rádio na frequência 104,7 MHz se viu diante de um espesso enredo: “O detetive Virgulino Teixeira foi contratado pela dondoca Marilda para seguir os passos do marido dela, o empresário Aderbal. Ao instalar escutas telefônicas na casa e no escritório do empresário, o detetive descobriu um esquema de superfaturamento.” Sob os acordes dramáticos de um tango de Piazzolla, a trama se adensava: “Agora, Virgulino quer dinheiro do empresário para não abrir o bico sobre a falcatrua.” O próprio Virgulino tratou de se explicar: “Isso não é chantagem. Isso é toma-lá-dá-cá.”

O caso já vinha se estendendo havia cinco dias. Na segunda-feira anterior, Virgulino anunciara à dondoca Marilda: “Vou colocar uma escuta telefônica na sua casa. Sou conhecido em todo o universo investigativo como Araponga Grampeado.” Na terça, dondoca Marilda começou a hesitar: “Detetive Virgulino, não me leve a mal. Mas ouvi dizer que ficar instalando essas escutas por aí pode dar… pode dar…” Dondoca Marilda parecia ter medo da palavra. Com um suspiro, soltou alarmada: “Pode dar cadeia!” 

Na quinta, diante da descoberta de que o marido era corrupto, dondoca Marilda sugeriu que as gravações fossem encaminhadas à polícia. “A senhora enlouqueceu?”, perguntou o detetive, ríspido. “Se a polícia receber as fitas com as minhas interceptações telefônicas, quem vai preso sou eu.” Didático, Virgulino explicou: “Grampo só é legal com a autorização da Justiça, dondoca Marilda.” 

O caso não saiu nos jornais. Só existiu para quem é adepto dos folhetins produzidos pela Rádio Justiça de Brasília. Intitulada Não Escuta Que Eu Grampo, a história de Virgulino e dondoca Marilda foi transmitida ao longo de uma semana, em cinco capítulos de cinco minutos cada. Calcada na farra dos grampos, tornou-se a atração mais comentada desde o início da emissora, em maio de 2004.

Ok, imagino que você não esperava encontrar na mesma sentença as palavras “folhetins” e “dondoca”, sem falar na “Rádio Justiça”. Longe de mim querer ridicularizar a Rádio Justiça (hehehe).

Contudo, não resisto a colocar outro trecho do “causo” aqui:

Os personagens são interpretados por funcionários do Supremo, nas brechas do expediente. Virgulino Teixeira recebeu a voz de William Galvão, apresentador do noticiário da própria Rádio Justiça. Dondoca Marilda foi vivida por Odette Rocha, funcionária concursada do stf. Os dois são o Humphrey Bogart e a Lauren Bacall da Rádio Justiça, o par mais constante das peças de Macedo. O elenco de apoio varia. Luiz Flávio Borges D’Urso, presidente da oab de São Paulo, já fez uma ponta, interpretando por telefone o Doutor Palhares, um advogado trabalhista da trama “Alice no País do Trabalho”.

Hahahahahahaha… “Dr. Palhares” parece até nome de…, ah, deixa pra lá.

P.S.: Uma pequena busca no sítio da rádio e você conseguirá achar os folhetins. Eu comecei a ouvir “Alice no país do trabalho” e parei quando a protagonista conversou com um cão falante. Ah, se você estiver a fim de ouvir todos os folhetins, tem um chamado “As Aventuras do Defensor Público” (esse deve ser bom!)

China dá um pito no Tio Sam (bônus: análise da Míriam)

Notinha de hoje da Folha de São Paulo [grifos meus]:

China diz estar preocupada com excesso de dólares no mercado

Maior credor externo dos EUA, o governo chinês afirmou estar preocupado com a quantidade de dólares que é injetada tanta na economia americana como na mundial. “Os EUA devem equilibrar e lidar adequadamente com o impacto da oferta de dólar na economia doméstica e na economia global como um todo”, afirmou o vice-premiê chinês, Wang Qishan.
Foi a segunda crítica mais aguda das autoridades chinesas contra os EUA nos dois dias de reunião em Washington. Anteontem, elas disseram estar preocupadas com a segurança dos seus investimentos na maior economia mundial, à medida que a dívida americana cresce para tentar conter a crise.
O governo chinês tinha, no fim de maio, US$ 801,5 bilhões em títulos da dívida americana (ou mais que o dobro do PIB brasileiro em 2008). O Brasil é o sexto maior credor dos EUA, com US$ 127 bilhões em títulos do Tesouro, que é como o governo norte-americano financia a sua dívida.
Em resposta às preocupações de Pequim, o governo de Barack Obama afirmou que gastos como os US$ 787 bilhões do plano de estímulo econômico são necessários para que país saia da recessão -iniciada há 20 meses.
David Loevinger, dirigente do Tesouro americano que trata das relações com a China, disse que o déficit no Orçamento, que deve chegar a US$ 1,8 trilhão no fim do atual ano fiscal (período de 12 meses que se encerra em 30 de setembro), se tornará sustentável por meio de futuros cortes nos gastos e pela reforma do sistema de saúde proposta por Obama.

Em outras palavras: os chineses estão sugerindo aos EUA que levem à sério o “Consenso de Beijing”.

Interessante mesmo foi a explicação do tal do David Loevinger: a dívida norte-americana se tornará sustentável por meio de futuros cortes nos gastos. Não, não tô dizendo que os EUA estejam errados neste ponto: em época de crise como essa, a política fiscal tem que ser agressiva mesmo, do contrário os caras vão mergulhar numa depressão violenta. Nisso, até a Míriam Leitão concorda comigo.

É verdade, leiam aqui neste post do blog dela. Mas velhos hábitos não são assim tão facilmente abandonados. Ela tinha que descer o pau no governo Lula e o fez no último parágrafo. À pérola, então:

Os gastos aqui no Brasil não estão sendo os melhores para esse fim [sair da crise]. Os movimentos anticiclicos dos países passam pela injeção de recursos em investimentos, o que gera encomendas ao setor privado. Por aqui, os gastos crescem mais com gastos do governo com o próprio governo, com o funcionalismo público. E não é assim que se faz uma reversão da crise.

Ah, tá. Ainda bem que os EUA / Europa / Japão estão injetando recursos em investimentos e não pra salvarem bancos mal administrados. China boys, don´t worry!

P.S.: será que a Míriam já leu o Sergio Leo hoje?


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