Notinha de hoje da Folha de São Paulo [grifos meus]:
China diz estar preocupada com excesso de dólares no mercado
Maior credor externo dos EUA, o governo chinês afirmou estar preocupado com a quantidade de dólares que é injetada tanta na economia americana como na mundial. “Os EUA devem equilibrar e lidar adequadamente com o impacto da oferta de dólar na economia doméstica e na economia global como um todo”, afirmou o vice-premiê chinês, Wang Qishan.
Foi a segunda crítica mais aguda das autoridades chinesas contra os EUA nos dois dias de reunião em Washington. Anteontem, elas disseram estar preocupadas com a segurança dos seus investimentos na maior economia mundial, à medida que a dívida americana cresce para tentar conter a crise.
O governo chinês tinha, no fim de maio, US$ 801,5 bilhões em títulos da dívida americana (ou mais que o dobro do PIB brasileiro em 2008). O Brasil é o sexto maior credor dos EUA, com US$ 127 bilhões em títulos do Tesouro, que é como o governo norte-americano financia a sua dívida.
Em resposta às preocupações de Pequim, o governo de Barack Obama afirmou que gastos como os US$ 787 bilhões do plano de estímulo econômico são necessários para que país saia da recessão -iniciada há 20 meses.
David Loevinger, dirigente do Tesouro americano que trata das relações com a China, disse que o déficit no Orçamento, que deve chegar a US$ 1,8 trilhão no fim do atual ano fiscal (período de 12 meses que se encerra em 30 de setembro), se tornará sustentável por meio de futuros cortes nos gastos e pela reforma do sistema de saúde proposta por Obama.
Em outras palavras: os chineses estão sugerindo aos EUA que levem à sério o “Consenso de Beijing”.
Interessante mesmo foi a explicação do tal do David Loevinger: a dívida norte-americana se tornará sustentável por meio de futuros cortes nos gastos. Não, não tô dizendo que os EUA estejam errados neste ponto: em época de crise como essa, a política fiscal tem que ser agressiva mesmo, do contrário os caras vão mergulhar numa depressão violenta. Nisso, até a Míriam Leitão concorda comigo.
É verdade, leiam aqui neste post do blog dela. Mas velhos hábitos não são assim tão facilmente abandonados. Ela tinha que descer o pau no governo Lula e o fez no último parágrafo. À pérola, então:
Os gastos aqui no Brasil não estão sendo os melhores para esse fim [sair da crise]. Os movimentos anticiclicos dos países passam pela injeção de recursos em investimentos, o que gera encomendas ao setor privado. Por aqui, os gastos crescem mais com gastos do governo com o próprio governo, com o funcionalismo público. E não é assim que se faz uma reversão da crise.
Ah, tá. Ainda bem que os EUA / Europa / Japão estão injetando recursos em investimentos e não pra salvarem bancos mal administrados. China boys, don´t worry!
P.S.: será que a Míriam já leu o Sergio Leo hoje?

Ela também passou por cima do fato de que, como o grande economista André noticiou há pouco, os bancos públicos é que foram os grandes carros-chefes (plural duplo mesmo) da recuperação brasileira.
E, especificamente quanto ao gasto com o setor público, poxa, faz teeeeempo que a folha de pagamentos grande é um problema. Além do mais, há sérias restrições constitucionais e legais contra uma reformulação mais profunda do sistema de pagamentos do pessoal do serviço público. Porém, do jeito que ela diz, parece que o governo Lula, ao ver a crise e em razão dela, resolveou insanamente torrar todas as reservas brasileiras com esses malditos funcionários públicos, que até então viviam em estado famélico e agora são todos marajás.
Sem contar que Brasília tem prosperado em meio à crise justamente por causa da criminosa quantidade de servidores públicos por lá. Ótimo exemplo do “abrir e fechar buraco” keynesiano. Não é um modelo a ser seguido país afora, mas é sempre divertido ter uma chance de contradizer a Míriam Bacon.
É, o meu dia sempre começa mal quando eu vejo análise econômica da Tia Míriam. Quando é que vão inventar a TV interativa para que eu possa contradizê-la ali ó, na bucha?