Comecei a ler a revista Piauí há poucos meses. Gostei muito da publicação, mas o que acho realmente hour concours por ali é a sessão “Esquina”: são pequenos “causos”, todos aparentemente verdadeiros e tão cômicos que não seria exagero colocá-los na esteira do realismo fantástico latino-americano.
No mês passado, um dos “causos” apresentados era o “Não escuta que eu grampo”. Por favor, leiam ele. Só como degustação, coloco o início aqui pra atiçar a curiosidade de vocês:
Na sexta-feira, 1º de maio, o ouvinte do Distrito Federal que sintonizou o rádio na frequência 104,7 MHz se viu diante de um espesso enredo: “O detetive Virgulino Teixeira foi contratado pela dondoca Marilda para seguir os passos do marido dela, o empresário Aderbal. Ao instalar escutas telefônicas na casa e no escritório do empresário, o detetive descobriu um esquema de superfaturamento.” Sob os acordes dramáticos de um tango de Piazzolla, a trama se adensava: “Agora, Virgulino quer dinheiro do empresário para não abrir o bico sobre a falcatrua.” O próprio Virgulino tratou de se explicar: “Isso não é chantagem. Isso é toma-lá-dá-cá.”
O caso já vinha se estendendo havia cinco dias. Na segunda-feira anterior, Virgulino anunciara à dondoca Marilda: “Vou colocar uma escuta telefônica na sua casa. Sou conhecido em todo o universo investigativo como Araponga Grampeado.” Na terça, dondoca Marilda começou a hesitar: “Detetive Virgulino, não me leve a mal. Mas ouvi dizer que ficar instalando essas escutas por aí pode dar… pode dar…” Dondoca Marilda parecia ter medo da palavra. Com um suspiro, soltou alarmada: “Pode dar cadeia!”
Na quinta, diante da descoberta de que o marido era corrupto, dondoca Marilda sugeriu que as gravações fossem encaminhadas à polícia. “A senhora enlouqueceu?”, perguntou o detetive, ríspido. “Se a polícia receber as fitas com as minhas interceptações telefônicas, quem vai preso sou eu.” Didático, Virgulino explicou: “Grampo só é legal com a autorização da Justiça, dondoca Marilda.”
O caso não saiu nos jornais. Só existiu para quem é adepto dos folhetins produzidos pela Rádio Justiça de Brasília. Intitulada Não Escuta Que Eu Grampo, a história de Virgulino e dondoca Marilda foi transmitida ao longo de uma semana, em cinco capítulos de cinco minutos cada. Calcada na farra dos grampos, tornou-se a atração mais comentada desde o início da emissora, em maio de 2004.
Ok, imagino que você não esperava encontrar na mesma sentença as palavras “folhetins” e “dondoca”, sem falar na “Rádio Justiça”. Longe de mim querer ridicularizar a Rádio Justiça (hehehe).
Contudo, não resisto a colocar outro trecho do “causo” aqui:
Os personagens são interpretados por funcionários do Supremo, nas brechas do expediente. Virgulino Teixeira recebeu a voz de William Galvão, apresentador do noticiário da própria Rádio Justiça. Dondoca Marilda foi vivida por Odette Rocha, funcionária concursada do stf. Os dois são o Humphrey Bogart e a Lauren Bacall da Rádio Justiça, o par mais constante das peças de Macedo. O elenco de apoio varia. Luiz Flávio Borges D’Urso, presidente da oab de São Paulo, já fez uma ponta, interpretando por telefone o Doutor Palhares, um advogado trabalhista da trama “Alice no País do Trabalho”.
Hahahahahahaha… “Dr. Palhares” parece até nome de…, ah, deixa pra lá.
P.S.: Uma pequena busca no sítio da rádio e você conseguirá achar os folhetins. Eu comecei a ouvir “Alice no país do trabalho” e parei quando a protagonista conversou com um cão falante. Ah, se você estiver a fim de ouvir todos os folhetins, tem um chamado “As Aventuras do Defensor Público” (esse deve ser bom!)

uahuahhauha,
Eu li esse texto da Piauí, que aliás é uma publicação sensacional!
O legal é que os roteiros desse programa na Rádio Justiça são elaboradíssimos. Os caras criam uma paródia inteligente e, ao mesmo tempo, não obstruem a imagem da Câmara (não que ela não mereça).
“As Aventuras do defensor Público” deve ser o ó do borogodó!!!!!